Sete pistas para explorar o álbum

Por terem pouco texto e pedirem um certo tipo de leitura em que as imagens são fundamentais, os álbuns ainda são vistos com alguma desconfiança por pais e professores. E no entanto, os especialistas consideram-nos imprescindíveis à educação literária e estética das crianças que começam a fase escolar. Uma leitura partilhada deste género de livros ajuda-as a pararem e põe-nas em contacto com emoções fundamentais. Não se esqueça: mais do que ser elogiada, a criança quer ser conhecida pelo adulto e valorizada nas suas opiniões e na sua originalidade.

1. Os primeiros leitores começam pelos álbuns.

Antes de entrarem na escola, é desejável que as crianças já tenham tido um contacto estreito com o álbum, em casa e/ou no jardim de infância. Para trás ficaram os livros «para bebés» cheios de bonecos, cores brilhantes e conceitos opostos como «quente/frio». A partir do 1º Ciclo, é tempo de avançar na compreensão de uma narrativa. Graças ao equilíbrio entre pouco texto e muita ilustração, os álbuns permitem entrar com segurança no exigente mundo da leitura, sempre com a ajuda de um bom mediador adulto.

2. Num álbum, leia o texto e a ilustração ao mesmo tempo.

Exatamente. Nem todos os livros com ilustrações se podem considerar álbuns. O que distingue um bom álbum de um livro ilustrado é, desde logo, o protagonismo assumido pelas imagens, cuja função é a de acrescentar algo ao texto. Ao abrir um álbum, o nosso olhar «espalha-se» pela página dupla e, instintivamente, lê o texto quase ao mesmo tempo. Depois, há que voltar às imagens e descobrir os pormenores. É um olhar que circula pelas páginas e liga dois códigos distintos, visual e verbal.

3. Explore o efeito de antecipação do virar de página.

Outra das características do álbum é a ligação entre as ilustrações, quase sempre formando uma sequência narrativa, uma história que evolui para o culminar de um sentido. Por vezes, nem tudo é mostrado, mas apenas sugerido, também a um nível simbólico. Antes de virar a página, o mediador adulto pode estimular a criança a fazer as suas inferências e deduções, perguntando-lhe: «Que achas que vai acontecer a seguir?». O efeito surpresa é um dos grandes trunfos da linguagem do álbum e as crianças adoram-no.

4. Os álbuns falam de emoções associadas à infância.

Se os primeiros álbuns para crianças entre os dois e os cinco anos remetem, sobretudo, para as conquistas da autonomia (como ser capaz de lavar os dentes, largar a chucha ou não ter medo do escuro), a partir da idade escolar abre-se todo um mundo. É altura de procurar livros que tratem de valores ou questões mais profundas: a amizade/cooperação, a morte de um animal de estimação, a rivalidade entre irmãos, o medo dos monstros, etc. Autores como Anthony Browne, Olivers Jeffers, Peter Brown, Leo Lionni, Max Velthuijs ou Maurice Sendak são alguns dos nomes incontornáveis.

5. Os álbuns proporcionam uma experiência estética.

Como afirmou a artista e ilustradora checa Kveta Pacovska, «os álbuns são a primeira galeria de arte que a criança visita». Se o gosto pela leitura necessita de ser «trabalhado», o apelo da ilustração é imediato. Num álbum bem feito, tudo conta: a cor, o tipo de letra, a composição, o formato, o papel, o design... É frequente que a história comece a ser contada antes de se entrar no livro propriamente dito, utilizando as guardas como introdução. Se se sentir à vontade, explore com a criança as técnicas utilizadas pelo autor ou autores: acrílico, guache, aguarela, gravura, colagem, digital, etc.

6. Explore a contradição entre texto e imagem.

No álbum, por vezes, as imagens mostram uma coisa e o texto diz outra. Não é um erro do(s) autore(s). Trata-se de um efeito propositado de incongruência que pretende provocar o sentido de humor – especialmente a ironia – e o espanto do leitor. Autores como Quentin Blake (Catatuas) ou Gilles Bachelet (O Meu Gato é o Mais Tolo do Mundo), por exemplo, exploraram esta possibilidade. Como é natural, este género de livros pede um maior grau de intervenção e competência leitora, sendo por isso «desadequados» para a primeira infância. Crianças entre os sete e os nove anos serão capazes de lhes aceder mais facilmente.

7. Experimente «ler» álbuns sem texto ou com pop-ups.

Prova do imenso poder das imagens, os álbuns sem texto (ou álbuns puros) são muito preferidos por crianças resistentes à leitura, porque lhes dão a liberdade de elaborar mentalmente uma história. Como tal, são uma fonte de recursos cognitivos e emocionais a ter em conta. Ao contrário do que se possa pensar, costumam ser livros esteticamente muito elaborados, que apelam a uma descodificação profunda das imagens, um pouco à semelhança da banda desenhada. Vejam-se, por exemplo, autores como Shaun Tan, Raymond Briggs e Istvan Banyai. Também os álbuns com pop-ups – figuras que «saltam» das páginas pelo recurso à engenharia de papel – são extremamente atrativos para crianças e adultos.