Fascinada por locais isolados e exóticos, mas que, ao mesmo tempo, abrigam uma atmosfera estranha e obscura borbulhando sob a superfície, a autora inglesa Sarah Pearse convida-nos agora a conhecer O Retiro. Neste sucessor de O Sanatório, reencontramos a detetive Elin Warner, que investiga um “mistério de quarto fechado” numa estância de luxo numa ilha de sonho. Mas o que por lá acontece é puro pesadelo.
O Sanatório foi considerado uma das estreias de ficção policial mais impressionantes dos últimos tempos. Estava preparada para tal?
A resposta curta é: “Não!” Como estreia, o meu sonho era simplesmente ver, em primeiro lugar, o meu livro publicado e que, talvez, um punhado de pessoas o lesse. Então, ter tido o sucesso que teve foi genuinamente alucinante – mais do que eu jamais poderia ter sonhado! O sucesso do livro tem sido uma jornada incrível. A exposição que recebeu devido ao Reese's Book Club [Clube do livro da atriz Reese Whiterspoon] significou que tive a oportunidade de interagir com imensos leitores de todo o mundo – os leitores portugueses são dos meus favoritos! –, uma das minhas partes preferidas de ser autora. Não poderia ter desejado um começo melhor para a minha carreira!
Enquanto escrevia O Sanatório, já estava a considerar um segundo livro e a imaginar uma nova trama com a mesma protagonista feminina?
Sim, estava. Sabia que a história de Elin não terminaria com O Sanatório. Ela tem muito mais para oferecer, pessoal e profissionalmente, e fiquei muito empolgada em levar o leitor nessa jornada com ela, à medida que a Elin cresce em confiança e a vemos desenvolver-se como pessoa. Há também uma trama secundária que percorre O Sanatório em termos de quem está “a observar” a Elin, que eu sabia que queria explorar noutro livro.
Como descreveria o estado de espírito de Elin Warner neste novo livro?
A Elin percorreu um longo caminho desde a última vez que a encontrámos. Em O Sanatório, estava numa pausa na carreira, num momento muito frágil da sua vida, buscando respostas não apenas sobre a profissão, mas sobre si mesma e a família, incluindo a morte do irmão. Apesar do sucesso na resolução do caso, no final ficamos sem saber se deseja voltar ao trabalho ou não. Em O Retiro, ela já tem as respostas que procurava e seguiu em frente pessoal e profissionalmente – vive com o namorado, Will, e decidiu voltar ao trabalho. No entanto, ainda não voltou à sua equipa no terreno, foi designada para um trabalho administrativo. Isso desencadeia algumas das suas inseguranças anteriores, questionando-se se a sua chefe duvida da sua capacidade para retomar funções. Rapidamente, a chefe lança-lhe uma tábua de salvação inesperada: um caso numa ilha, num refúgio de luxo novo. Para a Elin, esta não será uma investigação fácil – o namorado Will projetou a estância LUMEN, que em tempos já foi o lar de um serial killer. Obviamente, este primeiro caso no regresso ao trabalho revela-se um desafio, ao longo do qual assistimos à evolução pessoal de Elin, que também vai ganhando mais confiança nas suas capacidades enquanto detetive. Vemo-la a enfrentar situações que, antes, a poderiam ter derrubado e a correr em direção aos seus medos, em vez de fugir deles, uma vez que tem mais controlo das suas emoções. Ela também tem um colega ao seu lado para trocar ideias e, no final do livro, acho que ela e nós, como leitores, entendemos melhor quem a Elin é como pessoa, o que a tem impulsionado e os seus objetivos para o futuro.
«[…] tive a oportunidade de interagir com imensos leitores de todo o mundo – os leitores portugueses são dos meus favoritos! –, uma das minhas partes preferidas de ser autora.»
Em O Retiro, as personagens enfrentam um novo “mistério de quarto fechado”. Mas desta vez o cenário é um pouco mais quente e paradisíaco… ou talvez não assim tanto, pois até mesmo umas férias de sonho podem transformar-se rapidamente num pesadelo, certo?
Sim, o cenário é certamente mais quente! O Retiro passa-se durante uma onda de calor no Reino Unido – muito longe das tempestades de neve de O Sanatório! No entanto, apesar do cenário mais quente, encontramos uma história arrepiante... Sou realmente atraída por locais isolados e exóticos – cenários elevados que transportam o leitor, mas que, ao mesmo tempo, abrigam uma atmosfera estranha e obscura borbulhando sob a superfície –, adoro a ideia de que um ambiente de luxo como este retiro de bem-estar possa ter um lado negro. Sou cativada por locais que podem tornar-se personagens por si só, devido à combinação do seu passado e à topografia, o que ajuda a aumentar a tensão inata de um thriller. Também adoro o simbolismo físico de um local isolado e o seu efeito mental e físico nas personagens de um romance. Num cenário remoto, no instante em que o perigo ocorre, há uma tensão inerente (especialmente se combinarmos isso com condições meteorológicas extremas), pois é difícil o acesso a ajuda exterior, e assim podemos rapidamente levar as personagens aos seus limites absolutos. Em Devon, onde vivo, temos várias ilhas próximas – uma chamada Burgh Island (inspiração dos livros de Agatha Christie No Início Eram Dez e Morte na Praia) e uma ilha a alguns minutos de onde moro, chamada Thatcher Rock. A minha mãe quase me deu à luz com vista para Thatcher Rock, pelo que praticamente faz parte da história de família. É um lugar que sempre me fascinou – dependendo do clima, da hora do dia, da luz, pode transformar-se de incrivelmente bela em sinistra. Há também um afloramento rochoso que despertou a imaginação local. As pessoas compararam a rocha à forma de uma pessoa. Comecei a pensar no poder da topografia, naquilo que as pessoas extraíram de marcos como este ao longo dos anos e nas histórias e superstições que suscitam. A ideia de que uma rocha ou marco geográfico pode conter tanto poder é fascinante para mim e algo que queria explorar em O Retiro – aumenta as tensões no romance e torna-se um totem para o passado sombrio da ilha.
Concorda que nas suas histórias a Natureza é como que uma personagem decisiva, que controla a ação, o drama, a tensão?
Concordo. Para mim, o ambiente exterior torna-se uma personagem, algo que uso para amplificar não apenas a tensão e o drama dentro da trama em si, mas como um espelho para o ambiente interior das personagens. Tal como em O Sanatório, O Retiro usa, de facto, todos os aspetos do ambiente natural para aumentar a turbulência e a ação dentro da trama. Desde sempre que queria escrever um livro ambientado onde moro, em Torbay, Devon, Reino Unido – um lugar que me alimentou e inspirou desde que me lembro. Sendo nascida e criada junto ao mar, este teve e continua a ter um papel enorme na minha vida, e os seus extremos sempre me fascinaram. Tal como as montanhas, o mar é um ambiente bonito, mas também assustador – pode ir de calmo a agitado numa questão de minutos –, algo muito emocionante para explorar como autora.
Podemos esperar mais aventuras de Elin?
Certamente que sim. Estou a trabalhar no terceiro romance de Elin Warner. É outro caso assustador e entusiasmante, e também descobrimos exatamente quem é que a andou a observar durante os casos anteriores…