Empoderamento feminino e a força da natureza são dois dos ingredientes do absorvente romance de estreia de Emilia Hart, escritora britânico-australiana reconhecida com o Prémio de Romance da Caledónia de 2021. Combinando magia e ficção histórica, Weyward aborda de forma desassombrada a condição feminina em vários momentos históricos: nos dias de hoje, em meados do séc. XX e durante os julgamentos das bruxas britânicas do séc. XVII.
O romance alterna entre três linhas narrativas e retrata o peso do patriarcado e da violência perpetuada sobre o sexo oposto, contando a história de três gerações de mulheres que usaram a força transformadora da Natureza para superarem os grilhões que as subjugavam.
Como surgiu a inspiração para escrever Weyward? Houve algum acontecimento específico, existe alguma ligação com a realidade, é uma história que há muito pedia para ser escrita?
A inspiração para escrever Weyward surgiu durante os confinamentos iniciais do COVID, em 2020. Durante aquele período, tive a sorte de morar na Cúmbria – uma bela região no Noroeste de Inglaterra. Achei a paisagem local – com colinas arrebatadoras e bosques misteriosos – profundamente inspiradora, mas também aprendi que a sua beleza escondia uma história mais sombria. Em 1612, os julgamentos das bruxas de Pendle – alguns dos julgamentos de bruxas mais infames da História de Inglaterra – ocorreram nas proximidades de Lancaster. Oito mulheres, principalmente de duas famílias matriarcais, foram enforcadas após serem consideradas culpadas de bruxaria.
Enquanto ouvia as reportagens na comunicação social sobre o aumento das taxas de violência doméstica no confinamento, questionei-me sobre o quanto teria realmente mudado para as mulheres. É claro que atualmente as mulheres já não são acusadas de bruxaria, mas parece-me que a misoginia ainda é uma característica da sociedade: uma força insidiosa presente em todos os lugares, desde locais de trabalho a hospitais e até mesmo na privacidade dos nossos lares.
Queria muito levantar essa questão e mostrar a resiliência feminina ao longo do tempo. Eu tinha essa imagem de uma mulher moderna a fugir de um relacionamento abusivo, refugiar-se numa casa de família e descobrir gradualmente o poder que herdou das suas ancestrais. Esta foi a semente que deu origem a Weyward.
«Queria muito [...] mostrar a resiliência feminina ao longo do tempo»
O romance aborda temas sensíveis e até dolorosos, como a violência perpetuada contra a mulher. O uso da magia e do poder da Natureza foi uma forma de o tornar mais ligeiro, mais luminoso e mais acessível?
Sim. Acho que o realismo mágico pode ser uma ferramenta muito útil para examinar os elementos mais sombrios da natureza humana de uma forma suportável. Ao escrever o livro, eu estava realmente consciente do impacto que temas tão sérios poderiam ter sobre o leitor; eu queria que o fio da magia e a presença da Natureza imbuíssem o livro de esperança.
Durante o processo de escrita e mesmo na primeira leitura, que reações é que este livro lhe provocou? E quais gostaria que fossem sentidas pelos leitores?
Definitivamente, há partes do livro que foram muito difíceis de escrever, mas, na maior parte, deixei-me galvanizar pelas histórias destas mulheres e sentia-me ansiosa para ver como os seus destinos se entrelaçariam. O que eu mais gosto no ato da escrita é a sensação de descoberta, especialmente no primeiro rascunho: é como uma viagem para o desconhecido ou como contar uma história a nós mesmos. Espero que os leitores sejam atraídos por essa sensação de mistério e admiração que senti. Além disso, sei que o livro aborda alguns tópicos pesados, mas adoraria que os leitores saíssem esperançosos e inspirados por Kate, Violet e Altha para encontrarem o seu próprio poder.
«O que eu mais gosto no ato da escrita é a sensação de descoberta, especialmente no primeiro rascunho: é como uma viagem para o desconhecido ou como contar uma história a nós mesmos.»
No livro, a magia e o poder da Natureza são o catalisador para a emancipação feminina. Na vida real, o que pode substituir a magia de Weyward?
Eu gostava verdadeiramente que a magia de Weyward simbolizasse o poder da conexão feminina e também o legado do pensamento e da teoria feminista. As três mulheres Weyward estão separadas pelo tempo, mas fortalecem-se umas às outras ao longo dos tempos. Eu queria evidenciar isso, particularmente com a narrativa de Kate: ela extrai força e coragem a partir das histórias das mulheres que viveram antes dela. Acredito que devemos muito às nossas mães e avós que lutaram pelos direitos das mulheres – não podemos perder de vista tudo o que elas conquistaram. Temos de continuar a lutar.