Como surgiu a ideia de viajar pelo mundo à procura de histórias ligadas aos livros e à leitura?
A primeira história que escrevi, no começo de 2023, foi a da Baronesa. Fi-lo a convite da revista Visão. Ganhei-lhe o gosto e, logo depois, meti-me num avião para ir a Marrocos procurar Aziz, o alfarrabista da medina de Rabat. Também fiz esse texto para a Visão, assim como outros dois: o do açoriano Ângelo Melo, um homem que, apesar de quase não ter estudos, leu todos os vencedores do Prémio Nobel, e o de um socioeconomista francês reformado que criou a primeira editora de São Tomé e Príncipe. Nessa altura, já tinha vontade de reunir essas e outras histórias num livro e, a partir de então, comecei a fazer as viagens e a escrever as histórias propositadamente para o livro.
Como foi o processo de recolha destas histórias?
Foi muito gratificante. Foram aventuras muito ricas do ponto de vista cultural e que gostei muito de fazer. Mas a recolha das histórias em si foi relativamente simples: limitei-me a viajar até aos locais, aproveitando para mostrar nos textos os países e as culturas que ia visitando, e a conversar algumas horas, não muitas, com os protagonistas das histórias. O resto foi oficina de escrita.
Houve algum encontro que o tenha marcado de forma especial?
O encontro com a Baronesa Beatrice Monti della Corte, que hoje tem 100 anos, foi sem dúvida especial, não só por ter servido de mote a este livro, mas também porque trata-se de uma mulher extraordinária, com uma vida incrível e recheada de histórias interessantíssimas. Muitas delas estão no livro, mas é uma figura que merecia uma biografia bem mais longa.
Viveu alguma peripécia nestas viagens que possa partilhar?
Há coisas que é melhor não contar, mas a verdade é que tive alguns azares, quase todos relacionados com transportes. A última história, no entanto, foi feliz, porque, no dia em que cheguei a Nova Iorque, o meu voo foi dos únicos a aterrar, devido ao mau tempo, e, no dia de regressar, o avião em que viajei também foi dos poucos que levantaram voo, por causa de um dos maiores nevões desde que há registos.
De que forma estas histórias refletem o poder dos livros?
O livro não tem nenhum propósito moralizador. As histórias estão aqui porque são boas histórias e todas elas relacionadas com livros. Mas há aqui algumas que mostram o poder transformador que os livros em alguns casos assumem. Exemplos disso são as histórias do antigo pescador José Alberto Postiga e do ex-recluso Reginald Dwayne Betts.
«Para todas estas pessoas, os livros são as coisas mais valiosas que há.»
Encontrou diferenças na forma como os livros são vividos em diferentes culturas?
Sim, algumas. Mas encontrei sobretudo semelhanças. Para todas estas pessoas, os livros são as coisas mais valiosas que há. E isso é muito bonito de se ver, sobretudo quando também se é apaixonado pelos livros e pela leitura.
Que desafios encontrou ao dar voz a pessoas de contextos tão diversos?
Não foi difícil. Foi sobretudo bom. Deu-me muito gozo fazer estas viagens e escrever estas histórias. Se alguma dificuldade houve foi em parar, porque em alguns casos queria continuar a contar as histórias que estava a escrever. Porque a escrita também tem este poder: é capaz de nos entusiasmar, por estarmos a viver outras vidas. É uma poderosa máquina de empatia não só para o leitor, mas também para o autor, porque obriga ambos a calçarem os sapatos de outrem.
De que forma este projeto o marcou enquanto leitor e enquanto autor?
É um livro de que gosto muito, pelas razões pessoais que apresento na introdução, mas também porque foi escrito a pensar numa partilha com uma tribo a que adoro pertencer – a dos loucos por livros.
Que papel têm hoje os livros num mundo cada vez mais digital e acelerado?
Começam a ganhar reconhecimento enquanto dispositivos de um abrandamento e de um desligamento absolutamente necessários. Quero crer que podem continuar a sê-lo e que podem reforçar esse papel.
«[...] foi escrito a pensar numa partilha com uma tribo a que adoro pertencer – a dos loucos por livros.»
O que espera que os leitores sintam ao conhecer estas histórias?
Desejo, naturalmente, que gostem tanto destas figuras como eu gostei e que apreciem as dez viagens que os convido a fazerem comigo.
Depois desta viagem, como olha para o futuro do livro e da leitura?
Este projeto não alterou a minha visão dessas dimensões, mas, no mundo atual, preocupa-me o futuro da literatura. Creio que poderemos estar a viver o princípio do fim da literatura como a conhecemos. A partir do tempo que vivemos, os autores deveriam dividir-se entre os que usam IA e os que não usam. Entre batoteiros e honestos, digamos assim. Eu gosto de literatura porque gosto de apreciar o génio humano, mas, atualmente, já não sei se posso confiar na autenticidade daquilo que leio. E ainda há o problema da propriedade intelectual usurpada pelas empresas de IA e dos direitos de autor que estas não pagam. Estamos numa fase de transição que, infelizmente, não augura nada de bom.