A prisão invisível da vida que afugenta a criatividade e o silêncio

Num mundo saturado de estímulos, em que o ruído externo e interno parece ocupar todos os espaços, o silêncio surge como um território fértil, muitas vezes ignorado, para o florescimento da criatividade.

| 15-09-2025

Vivemos a uma velocidade tão elevada que quando olhamos em volta, o dia já escureceu e é interessante que raramente paramos para pensar no que aconteceu entre o amanhecer e esse momento. Talvez, se experimentássemos uma pausa, perceberíamos que, muitas vezes, respondemos antes de sentir, que nos zangamos como se fosse para sempre, que corremos numa urgência que não sabemos bem para quê.

No meio desta maratona diária, vamos perdendo o valor das pausas, do silêncio e do prazer de estar só. Na verdade, é como se a solidão significasse estar triste, ou como se estar consigo mesmo fosse um sinal de fraqueza. Contudo, mesmo rodeados de muitas pessoas, essa presença pode não ser sentida. Talvez um bom exemplo sejam aquelas refeições em família em que já não existe vontade de contar “o que me aconteceu hoje” e, em vez disso, vemos o reflexo da luz dos telemóveis na cara, até dos mais novos.

 

Na verdade, é como se a solidão significasse estar triste, ou como se estar consigo mesmo fosse um sinal de fraqueza. Contudo, mesmo rodeados de muitas pessoas essa presença pode não ser sentida.

 

Quem hoje atravessa a casa dos trinta, e já é pai ou mãe, certamente guarda na memória uma infância muito distinta da dos seus filhos. Naquele tempo, os verões eram passados a brincar na rua até ao anoitecer e os joelhos esfolados, de tão habituais, já nem causavam espanto aos pais. Igualmente, eram certos os jogos tradicionais que se repetiam vezes sem conta (as escondidas, a macaca) e as conversas longas e profundas com o grupo de amigos que pareciam verdades absolutas sobre a vida. Se vivêssemos mais em relação e, porventura, o silêncio tivesse um outro significado, talvez fosse visto como um terreno fértil para germinarem ideias novas.

 

Tudo isto leva a refletir sobre a fuga ao tédio, que é uma emoção tão válida como qualquer outra. Os mais pequenos parecem incapazes de se entreter sozinhos opostamente ao que acontecia com os seus pais. Mas terá sido a infância que mudou em 30 anos ou foi o desconforto de “não ter nada que fazer” que levou à procura de distrações e estímulos, quase sempre tecnológicos?

O tédio não é uma ameaça porque na realidade é nesses momentos em que nada parece acontecer que tudo pode surgir. Quando se fornece uma liberdade saudável, a criança ganha margem para experimentar, e embora inicialmente possa parecer custoso, sobretudo para quem está habituado a estímulos constantes, com o tempo, a imaginação vai florescendo. O “não ter nada que fazer” obriga a inventar/criar e é então que uma caixa de sapatos passa a carro de corrida ou uma colher se transforma numa varinha mágica, entre outros. Em simultâneo, é nestes momentos que surgem histórias e aparecem soluções. Contudo, para que tudo isto aconteça, é necessário o silêncio! Não aquele que é desconfortável, como o de um mal-entendido, mas o silêncio saudável, de introspeção. Talvez neste espaço surjam memórias esquecidas ou desejos guardados para o futuro.

 

O tédio não é uma ameaça, porque, na realidade, é nesses momentos em que nada parece acontecer que tudo pode surgir.

 

Pretendemos que as crianças e os adolescentes sejam criativos, tenham um pensamento crítico e saibam encontrar soluções originais. Contudo, como se pode esperar isso de quem vive apressado e com pouco tempo para parar e pensar? Será justo esperar ideias novas ou sonhos de quem protegemos do aborrecimento (como se fosse algo perigoso)? Por outro lado, também se verifica, por vezes, quando os mais novos tentam fazer algo de outra maneira, que,  em vez de um incentivo, recebem um “não é assim que se faz”. Em contexto escolar, isto é recorrente, quando se obriga a criança ou o adolescente a seguir apenas a solução ensinada, em vez de estimular a resposta própria, quase como se só existisse uma forma de responder correta. Nesta lógica vai-se ceifando a vontade de experimentar, de arriscar, de pensar por si. Chegamos assim a um paradoxo: pedimos às crianças que sejam autónomas e criativas, mas, simultaneamente, retiramos-lhes muitos dos meios essenciais para que isso aconteça.

A questão dos dias de hoje parece estar no hábito do estímulo constante, já que preenchemos cada minuto com mensagens, notificações, scroll... Fugimos de nós próprios, da reflexão, e assim fechamos a porta à nossa criatividade. Efetivamente, um telemóvel pode aproximar-nos de quem está longe, mas também pode afastar-nos de quem está ao nosso lado. Este efeito curioso vê-se na fila de uma padaria, na sala de espera de um hospital onde muitas pessoas têm um telemóvel na mão.

 

Em contexto escolar, isto é recorrente, quando se obriga a criança ou o adolescente a seguir apenas a solução ensinada, em vez de estimular a resposta própria, quase como se só existisse uma forma de responder correta.

 

Embora se possa pensar o contrário, o silêncio e a criatividade caminham lado a lado. Talvez para as crianças isso signifique brincar com liberdade, sem regras rígidas e sem depender sempre da presença dos adultos. Já para os adolescentes, o silêncio pode ser um espaço de autodescoberta, de afastamento das expectativas e pressões sociais. No que concerne aos pais/adultos, é igualmente fundamental oferecer e respeitar esse espaço, uma vez que o silêncio também lhes permite refletir, recarregar energias e apoiar os filhos de forma mais consciente. Neste equilíbrio proporciona-se o florescimento da criatividade.

 

Termino a admitir dificuldades uma vez que reconheço que romper com o hábito das tecnologias e reaprender a estar consigo não é fácil. Na verdade, a sociedade ensina-nos a fugir às emoções e ao silêncio. Contudo, há atividades simples, tais como ir passear sozinho ou em família sem o telemóvel, proibir (a adultos e crianças, porque não podemos exigir algo dos mais novos se eles não virem os mais velhos a praticar) o telemóvel durante as refeições.

 

Reservar 5 ou 10 minutos para estar em silêncio, sem interrupções.

 

Numa breve nota final, talvez o verdadeiro receio não seja desligar o telemóvel, mas, sim, confrontarmo-nos com o que encontramos quando o fazemos. Vivemos apressadamente e consideramos o silêncio e a criatividade luxos, quando são necessidades vitais. Quanto mais afastados estivermos de nós, mais provável é que o corpo fale através de uma dor, de um cansaço sem nome, de uma inquietação desconhecida... Talvez seja intenso o medo de parar e recordar o sonho nunca realizado ou a amizade que se desfez por falta de tempo ou presença. Naturalmente, este confronto é doloroso, são as dores silenciosas do pensamento. É óbvio que podemos fingir que não existem e preencher todos os nossos minutos, mas lembrem-se: o corpo não mente e, sobretudo, não esquece!

 

Sugestões de Leitura

Juntos no desafio da parentalidade!
Juntos no desafio da parentalidade!
Juntos no desafio da parentalidade!
Receba em primeira mão os conselhos dos nossos especialistas.
SUBSCREVER NEWSLETTER
Editar subscrição