E se fosse contigo? Empatia e respeito no mundo digital
Hoje, as relações constroem-se tanto frente a frente como no palco digital, onde os adolescentes protagonizam as suas ligações mais significativas.
Marta Ramalho da Costa | 14-08-2025Vivemos num momento da História em que estar com alguém já não significa, obrigatoriamente, partilhar o mesmo espaço físico. No presente, as relações constroem-se tanto na dinâmica do frente a frente como no espaço invisível das distâncias. É como se a vida tivesse ganhado um novo palco, sendo este o digital, o silencioso e, paradoxalmente, o ensurdecedor. Embora para alguns este novo palco seja o secundário, para a maioria dos adolescentes, ele já se tornou o principal, digno das maiores e mais belas atuações.
As redes sociais tornaram-se o espelho em que tantos adolescentes se observam na procura de validação. Por vezes, dá mesmo a sensação de que, além de ser um bom amigo, um colega presente ou alguém que escuta, é também exigido ter as “melhores” publicações, os emojis certos, os comentários atempados, entre outros inerentes. Por esta lógica, torna-se muito fácil sentir que o valor está pendurado num feed que pode ter um peso avassalador.
Não obstante, a adolescência é, por si só, um terreno muito instável. É um período em que os jovens ora encontram a firmeza de certas verdades ora se afundam em diversas dúvidas e questões. Na verdade, estas experiências podem muito bem coexistir. Este cenário é absolutamente saudável, e é neste decorrer que os adolescentes aprendem que nem tudo é preto e branco, que existem tonalidades cinzentas que vale a pena explorar. Acresce ser um tempo de grandes questões, de dúvidas existenciais, de experimentar papéis, de confrontar os pais, de se opor às suas ordens, de procurar um lugar só para si próprio.
Em cada “gosto”, em cada comentário ou até mesmo em cada exclusão digital, os adolescentes, sem darem por isso, vão moldando quem são.
Neste sentido, há partes que se consolidam, outras que acabam por ficar para trás. As interações, presenciais ou online, são como ensaios diários para aprender a ser. De forma semelhante, este período é como uma peça de teatro: testam-se os papéis que querem interpretar na vida “real”.
No que concerne às redes sociais em particular, nunca foi tão fácil tomar posições como agora – em apenas um clique, esta ação é realizada. De forma semelhante, também nunca foi tão fácil ser julgado e julgar. Quando há o confronto com um pensamento fora do comum ou uma ideia que sai da norma, é possível que exista um julgamento público quase imediato, embora a História seja feita de mudanças e de vozes dissonantes. Contudo, surgem questões como:
“Como é possível manter a coragem de se ser quem se é quando tudo o que se diz é esmiuçado e o medo do julgamento aparece nas notificações?”
As redes sociais são, muitas vezes, um terreno de extremos onde coexistem o amor e o ódio, a aprovação e o cancelamento. Naturalmente, é muito mais fácil estar do lado das palmas e é terrivelmente complicado estar do lado do julgamento e da crítica. Quando se está deste lado mais negativo, o impacto pode ser brutal, quase como uma pedra lançada diretamente ao peito, uma vez que, quando se é adolescente, ainda se está a montar o puzzle da identidade e da segurança interna. Neste sentido, uma crítica pode fazer com que tudo o resto, mesmo o que é bom, desapareça.
Empatia
Então, falemos sobre a empatia, que é a capacidade de parar e de se colocar, saudavelmente, no lugar do outro. Esta é uma ferramenta que, por vezes, parece estar escondida ou desaparecida por trás dos ecrãs. Afinal, é muito mais fácil julgar, desprezar ou até menosprezar quem não conhecemos.
A empatia ajuda-nos a refletir sobre como nos sentiríamos se estivéssemos no lugar do outro. Por isso, esta ferramenta confere a capacidade de nos questionarmos: “Isto que vou dizer constrói ou destrói?”. Na verdade, este cuidado é relevante, porque, do outro lado do ecrã, existem pessoas sensíveis, cada uma com a sua história, com contextos familiares, emocionais e pessoais que nos são totalmente desconhecidos. Por vezes, um comentário que nos parece “engraçado” pode ser a gota de água que faz alguém quebrar por dentro.
Não obstante, ser empático não significa que temos de aceitar tudo, seguir todos ou fingir que gostamos. Paradoxalmente, significa não ferir de forma gratuita e saber discordar com cuidado, com firmeza e sem qualquer agressão, física ou verbal.
Respeito
Outra característica importante é o respeito, isto é, a capacidade de reconhecer a humanidade no outro, mesmo quando é diferente de mim, quando não o compreendo e quando não o escolheria como amigo. Neste sentido, respeitar é compreender que o outro tem direito e liberdade de ser quem é.
Não existe, naturalmente, obrigatoriedade de gostar de toda a gente, porque isso seria impossível. Contudo, não temos o direito de tratar ninguém como menos do que um ser humano. O respeito é a base única e o sustento de todas as relações.
Errar faz parte do crescimento, e é natural que, no decorrer da vida, se firam pessoas, mesmo sem consciência. Contudo, quando este reconhecimento ocorre, também é possível pedir desculpas e evoluir. Mesmo no online e no digital, há linhas que escrevem a identidade e cada palavra lançada ao mundo, cada mensagem fica gravada.
Assim, espero que cada interação, presencial ou à distância, seja uma oportunidade de se desenvolverem positivamente, uma vez que é no encontro com o outro que nos encontramos a nós mesmos. Na verdade, talvez seja aí que descobrimos que o mundo é menos duro, quando somos capazes de o olhar com empatia e respeito.
Numa leve nota final, gostaria que guardassem a ideia de que a maneira como se trata os outros, mesmo através de um ecrã, diz muito mais do que qualquer fotografia partilhada. Neste sentido, lanço o apelo a que cada palavra enviada, cada gesto online seja um espelho do que há de mais bonito e humano em todos nós, isto é, a capacidade de respeitar, de sentir e empatizar com o outro. Na verdade, todos queremos a mesma coisa, ser vistos, compreendidos e aceites, com as nossas particularidades e semelhanças. Ademais, lanço a questão: Quem serias tu, verdadeiramente, se tivesses crescido com uma realidade familiar e experiências de vida completamente diferentes das que conheces? (Talvez essa seja a realidade daquela pessoa que julgas tão ativamente e que, por isso, pensa de uma forma tão distinta da tua).