Convulsão febril: o bicho papão da febre! É ou não é?
Convulsão febril: aspetos que não podem ficar esquecidos
Andreia Amaral | 28-04-2025Antes de sermos enfermeiras somos mães e isso leva-nos a reconhecer o medo e a angústia de tantos cuidadores.
Olá, somos a Andreia e a Tatiana, enfermeiras especialistas em saúde infantil e pediátrica e representamos a equipa SOSMAMÃ.
Hoje vamos falar de convulsão febril, o temível bicho papão da febre, aquela que todos temem, sejam pais, educadores e até mesmo profissionais de saúde! Sim, não leram mal: profissionais de saúde.
Certamente, muitos de vós já ouviram “não deu medicamento? Podia ter tido uma convulsão febril pelo caminho!” Estes julgamentos não são considerados verdadeiros na literatura e criam no cuidador um peso de culpa enorme. Quem diz isto a um cuidador preocupado nem imagina a dor e a culpabilização que causa, a menos que já tenha passado por situação semelhante e se consiga colocar no lugar da outra pessoa.
É um facto que também os profissionais de saúde temem as convulsões febris.
Nós próprias já as tememos com os nossos filhos e até com os nossos utentes.
Na verdade, uma convulsão não é um cenário nada bonito de se ver; bem pelo contrário! Ainda hoje guardamos na memória a primeira vez que assistimos a uma criança em convulsão febril e talvez nunca o vamos esquecer. Situações como perda de consciência, revirar dos olhos, corpo rígido e tremor dos braços e pernas, lábios roxos ou até incontinência urinária, são imagens que não se esquecem.
Mas apesar deste negro cenário há que compreender que apenas cerca de 2 a 4% das crianças com menos de 5 anos de idade têm convulsões febris e que a partir desta idade a percentagem torna-se ainda mais baixa.
Por outro lado, embora as convulsões sejam assustadoras e angustiantes para quem assiste, a verdade é que, em regra, não provocam danos cerebrais na criança.
Quando falamos em convulsões febris, falamos inevitavelmente em febre, e a febre é sempre ou quase sempre motivo para que as crianças não sejam aceites nas instituições escolares. Ora quanto a isto e lembrando o último artigo, importa perceber que quando uma criança manifesta febre (a qual é um sintoma associado a uma infeção e não uma doença em si), essa mesma infeção já se terá iniciado há cerca de 30 horas. Isto significa que, aquela criança que tem vindo a frequentar a instituição escolar, mesmo antes da febre aparecer já era portadora do vírus ou bactéria que está a causar a febre. A própria infeção que a criança apresenta poderá ou não ser contagiosa e não é através da febre que se conseguirá avaliar, na maioria dos casos, a gravidade da infeção. O motivo da febre pode ser uma otite, uma infeção urinária, uma pneumonia ou até uma meningite e a criança, numa fase inicial, pode apresentar o mesmo estado geral em qualquer uma destas infeções.
Assim, é importante que todos os profissionais que contactam com crianças estejam munidos de conhecimentos e competências para conseguirem atuar na febre, e saber identificar sinais que ajudem a despistar a gravidade da situação. E a gravidade não nos é dada, exclusivamente, pela febre. Existem vários sinais de alerta aos quais devemos estar atentos.
Mas regressando ao tema da convulsão febril, é importante que seja explícito que as convulsões febris não estão relacionadas com a gravidade da doença.
A convulsão febril não tem uma causa totalmente conhecida, mas sabe-se, atualmente, que há relação com fatores genéticos, ou seja, em caso de história de pais que tiveram convulsões febris na infância, a criança apresenta maior predisposição para também ela as ter.
O que se sabe é que, habitualmente, uma convulsão febril pode ser provocada por um aumento brusco da temperatura corporal, sem que necessariamente, a temperatura se encontre demasiado elevada no momento da convulsão. Não é a administração de antipirético que vai evitar a convulsão febril. Isto porque a temperatura daquele bebé ou criança continuará a subir mesmo após a administração do antipirético (medicamento para baixar a febre); só cerca de 40 minutos após a toma do medicamento é que a temperatura começa a descer.
Assim sendo, mais do que tentar evitar que ocorra a convulsão febril, torna-se premente que se saiba atuar perante uma criança que está a ter uma convulsão:
- Em primeiro lugar é preciso saber identificar uma convulsão: perda de sentidos, revirar dos olhos, corpo rígido e tremor dos braços e pernas, lábios roxos, deitar secreção pela boca ou urinar;
- Seguidamente, vamos atuar salvaguardando a segurança da criança;
- Tentar manter a calma é o primeiro grande ponto de atuação: e quanto mais o cuidador entender da situação, mais seguro se sentirá;
- Colocar a criança numa superfície plana e livre de objetos que impeçam ou limitem os seus movimentos, protegendo a sua cabeça, mas sem limitar os movimentos;
- Virar a criança de lado, pelo risco de aspiração do conteúdo que possa ter no estômago;
- Contactar a linha 112 para o apoio ser prestado no domicílio (evitar levar a criança na própria viatura a um serviço de urgência depois de uma situação angustiante como esta);
Agir em conformidade para a descida da temperatura, administrando medição antipirética e reduzindo a quantidade de roupa e temperatura ambiente. Relativamente a estes últimos pontos, uma vez que a criança não está consciente, a medicação não pode ser dada através da boca, pelo que a forma de administração deve ser retal (supositório). Por outro lado, a roupa só deve ser retirada quando a criança já não está em convulsão, porque não se devem restringir os movimentos da criança durante a convulsão, podendo comprometer a sua segurança.
As convulsões febris são, geralmente, de curta duração, embora esse pouco tempo possa parecer uma eternidade. É importante o cuidador ter alguma noção da duração da convulsão, embora seja um ponto difícil de concretizar. Mas a verdade é que a duração da convulsão traz informação importante aos profissionais de saúde.
A chamada para o 112 é inevitável, especialmente quando se trata de um primeiro episódio de convulsão. Manter a calma e responder às questões que são colocadas pelos profissionais do outro lado da linha é fundamental para a equipa de saúde chegar ao local e atuar em conformidade. No entanto, a assistência à criança não deve ser colocada em causa, pelo que um pedido de ajuda a outro adulto para efetuar a chamada será a melhor estratégia. Quando se trata de episódios recorrentes, certamente a criança já terá medicação anticonvulsivante prescrita pelo médico e aí, a mesma deve ser administrada conforme a indicação médica, seguindo todos os cuidados já descritos.
Depois da convulsão passar a criança apresenta, normalmente, um período de recuperação em que se pode encontrar mais sonolenta ou irritada/chorosa. Durante esta fase é importante manter o conforto da criança e diminuir estímulos, como luzes, ecrãs, sons, etc. Um ambiente calmo trará certamente muito mais conforto e segurança.
O contacto recorrente com crianças aumenta o risco de sermos quem assiste a uma situação destas, sendo esperado de nós, profissionais, uma atuação exemplar. Estamos agora certas que estarão mais elucidados acerca do tema. Relembramos a importância da formação de primeiro socorro pediátrico com uma periodicidade de 2 anos entre cada formação, permitindo-vos praticar procedimentos imprescindíveis a uma atuação eficaz e segura.
Por último, reforçamos que o livro «SOSMAMÃ: Descomplicar a vida com um filho» é um guia apto a todos os cuidadores de bebés e crianças, onde, numa linguagem leve e tranquilizadora, vos são dadas as ferramentas certas nas várias áreas da saúde e da doença infantil.