Febre: amiga ou vilã? Tornar simples o que parece tão preocupante
Para muitos cuidadores, a febre pode ser algo assustador. Seja por não se saber o motivo do seu surgimento, por se temer as possíveis consequências ou pelo sentimento de impotência face ao desconforto que pode provocar na criança. Para ajudar a descomplicar e a dar mais ferramentas para agir com prontidão nestas situações, a enfermeira e autora do livro SOS Mamã, Andreia Amaral, esclarece o conceito de febre e identifica alguns sinais de alarme a que se deve estar atento.
Andreia Amaral | 20-02-2025Comecemos este artigo por falar de respeito. Sim, de respeito. Pelo adulto e pela criança. Prometo-vos que será mais simples depois deste raciocínio.
O respeito do adulto pelo bebé e pela criança começa quando o adulto se respeita a si mesmo: se não nos sentimos bem quando temos febre e procuramos respeitar o nosso corpo, descansando ou parando até nos sentirmos melhor, por que motivo temos tanta necessidade de insistir e obrigar a criança a comer ou a estar em atividade?
Ter febre é, na grande maioria dos casos, sentir desconforto, vontade de não fazer nada e de não ouvir ninguém. Em adultos e em crianças.
Como te sentes quando tens febre? Sim, tu!
Talvez começando por aqui seja mais simples entender o conceito de febre. E depois já lá vamos aos tão esperados sinais de alarme e de doença.
Desmistificar a febre
A maioria dos cuidadores tem medo da febre porque tem receio da convulsão febril ou porque até quem é mais profissional demonstrou medo e insegurança. Não podemos continuar a assistir a recomendações baseadas no “achismo”: “não deu medicamento? Podia ter tido uma convulsão febril!” Errado! A evidência é muito clara: nenhum medicamento para baixar a temperatura corporal, o conhecido antipirético, tem a capacidade de prevenir uma convulsão febril.
O medicamento para baixar a febre tem também ação analgésica (e ainda bem!), mas demora o seu tempo a atuar. Eu posso administrar às 10h o medicamento e ele só vai começar a baixar a temperatura corporal dentro de 30-45 minutos. Até lá, a temperatura continua a subir. Então, será normal e expectável ter uma criança às 10h com 38,5ºC e às 10h30 com 39,2ºC. Ou mais ainda. Talvez dentro de 1h-1h30 a temperatura esteja nos 38ºC.
A febre é, sim, sinal de infeção, seja ela viral ou bacteriana. Simples ou mais complexa, não existe uma forma exata de descodificar a gravidade da situação a olho nu, mas sabemos que há sinais que nos deixam alerta. Explico-vos alguns deles mais adiante na leitura. Para já descodifico-vos o termo «infeção».
Ter uma infeção não tem de ser necessariamente mau. Esclareço-vos inclusive que, a maioria das situações de febre resultam da permanência no organismo daquela criança de um microrganismo há pelo menos 30h. Significa isso mesmo: há 30h que aquela criança está infetada e só agora aparece a febre.
O que nos deve preocupar na febre é o possível desconforto que esta possa causar àquele bebé ou criança. Então significa que, se temos uma criança com febre, mas bem-disposta e sem desconforto, não precisamos de lhe dar medicamento para a febre? Isso mesmo!
Por outro lado, se temos uma criança com desconforto, então vamos dar medicamento que vai atuar como analgésico e, por sua vez, baixar a temperatura corporal.
Sinais de alarme
Chegou uma das partes do artigo mais desejadas: os sinais de alarme ou de gravidade no bebé e na criança com febre.
1. Bebé/criança que, quando está apirética (sem febre) e não brinca, recusa o seu brinquedo favorito e, eventualmente, o colo e o carinho do cuidador de referência, é sinal de alarme!
Quantas vezes viste uma criança a saltar, a pular, a comer ou a beber e soubeste que estava doente? Os pais até comentaram que agora está assim, mas tem andado com febre… pois é! Temos uma criança que fica desconfortável na presença de febre, mas, quando a febre baixa, volta a ser ela mesma. O mais comum de acontecer é isto. E ainda bem!
2. Se a criança tem febre e menos de 3 meses de idade, é sinal de alarme!
Um bebé até aos 3 meses de idade com febre é sugestivo, em muitos casos, de uma infeção bacteriana com necessidade de antibiótico e que pode evoluir para gravidade. Por esse motivo, se surge febre no bebé, aconselha-se a avaliação por profissional de saúde de referência para despiste de infeção bacteriana.
3. Se a criança tem febre na semana que sucede o término de um antibiótico, é sinal de alarme!
Esta criança até à última semana cumpria antibiótico para uma infeção a determinada bactéria. Se no decorrer da semana seguinte a febre regressa, pode significar que a bactéria não morreu e a infeção permanece. Ou não. Pode significar nova infeção e até ser viral, mas a observação por profissional de saúde é imprescindível para despiste de gravidade.
4. Se a criança tem febre associada a:
- Respiração rápida/irregular;
- Vómitos constantes ou com sangue;
- Urina escura, com cheiro intenso;
- Diarreia ou fezes com sangue;
- Movimentos involuntários dos membros;
- Alteração do estado de consciência;
- Perda de força/função num ou em mais membros.
É sinal de alarme!
E ser sinal de alarme pode não significar a ida a um serviço de urgência de pediatria. Mas sim, a procura de consulta médica em consultório, em centro de saúde ou até em casa, ativando o seguro que tantas vezes fica esquecido. Estes são espaços de menor risco, já que entrar num serviço de urgência significa tantas vezes sair com mais uma infeção.
Facilmente entramos na triagem e tocamos na cadeira onde nos sentamos para avaliação pelo enfermeiro, levamos a mão à nossa cara ou à da criança, esquecemo-nos de lavar ou desinfetar as mãos e já somos portadores de um microrganismo. Podendo ele ser um vírus ou uma bactéria.
Não estou a agravar. Estou a ser realista. E mesmo tendo uma linguagem e pensamentos descomplicados, não posso, nem devo minimizar o risco que pode estar envolvido em práticas desaconselhadas.
Destaco ainda a importância de distinguirmos bem os casos emergentes dos casos urgentes para, desta forma, termos presentes os momentos certos para contactar a linha 112 ou a Saúde24. Reforço que é emergente o que compromete a vida no imediato e chamamos urgente aquilo que precisa de ser avaliado, sob pena de se transformar numa situação emergente e comprometer a vida.
Este caminho treina-se. Não pensem que fui sempre uma enfermeira tranquila e descomplicada! No início da minha caminhada em Pediatria, tive muitos momentos de angústia e stress.
Mas ainda não terminei! Sei bem que um dos maiores medos de cuidadores de bebés e crianças com febre é o risco de convulsão febril. Vamos falar sobre ela porque surge agora a questão comum: se não dermos medicamento para baixar a febre, não corremos o risco de acontecer uma convulsão febril? Não! A evidência é clara: medicamentos para baixar a febre não previnem a convulsão febril, o que significa que ela pode surgir com ou sem a administração de medicamento para baixar a febre.
Mas calma: a convulsão febril é inofensiva e a probabilidade daquela criança ter uma epilepsia no futuro é muito baixa. O risco da convulsão febril é minimizado com:
- Vigilância permanente de um adulto;
- Colocação da criança em posição lateral de segurança e livre de possíveis perigos (como cantos de móveis);
- Contactar o 112 para que a ajuda médica chegue rapidamente ao local.
Nunca pegar na criança e levá-la ao hospital na própria viatura! Adulto nenhum estará emocionalmente bem para conduzir perante todo aquele cenário e criança nenhuma fica bem fixa ao sistema de retenção automóvel depois de uma convulsão febril, num chamado pós-crítico. Podemos estar a aumentar a insegurança da criança e a prejudicar a situação!
Espero que, agora que acabei, vos seja possível respirar de alívio e lidar de forma mais simples com todos os bebés e crianças que passem por vós em contexto de febre. Juntos somos mesmo mais fortes e o papel do educador é também o de formar e tranquilizar as famílias que nele confiam o seu bem mais precioso. Que grande responsabilidade!
Sugestão de leitura
SOS MAMÃ
Descomplicar a vida com um filho não tem de ser difícil!
Neste guia prático, Andreia Amaral oferece respostas claras para as principais dúvidas dos novos pais. Aprenda a identificar sinais de alarme, prevenir acidentes e a adaptar-se à nova rotina. Descubra também como gerir as emoções e manter a harmonia no casal. Uma ferramenta essencial para uma parentalidade confiante e equilibrada.
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A autora
Andreia Amaral
Enfermeira especialista e autora do livro SOSMAMÃ: Descomplicar a vida com um filho – não tem de ser difícil.
Sou mãe, a minha principal profissão e que tanto me tem ajudado a encontrar estratégias e a conhecer ainda melhor o mundo infantil. Procuro diariamente em todos os canais onde me podem encontrar, empoderar pais e profissionais no cuidado aos mais pequenos e continuo a acreditar que é possível haver mais respeito pelo bebé e pela criança.