A dor do Natal
O Natal pode ser um momento de celebração difícil quando enfrentamos a ausência de alguém especial. Este artigo explora formas de lidar com o luto nesta época, seja com crianças, adolescentes ou adultos, destacando a importância da empatia e da partilha.
Marta Ramalho da CostaO luto não tem resolução porque não é um problema para ser resolvido, mas sim uma experiência para ser vivida.
A ideia do Natal transporta-nos até às luzes cintilantes, às árvores tão delicadamente decoradas que nos convidam à magia e aos sonhos. Para muitas pessoas, o Natal é a antecipação dos presentes e a esperança de que alguém adivinhe exatamente o que o coração deseja. Para as crianças, há o encanto das cartas ao Pai Natal, escritas com a certeza de que a magia tornará possível o impossível. Todavia, o Natal, na sua essência, não é feito apenas de luzes, presentes ou mesas maravilhosamente adornadas. O Natal é amor… o Natal é família… e quando a ausência de alguém que amamos pousa sobre esta época, o coração enfrenta um paradoxo doloroso: como celebrar o Natal com um amor que partiu?
Não há perfeição de mesa ou melodia que apague o vazio deixado pela ausência. A dor preenche os espaços entre as decorações brilhantes e os risos nos encontros familiares. A sociedade, com as suas respostas prontas e impessoais, pese embora com boas intenções, tenta empurrar-nos para longe deste sentir: “O tempo cura.”; “Não penses nisso.”; “Talvez tenha sido melhor.”, mas a dor não desaparece quando é ignorada. A dor silencia-se socialmente, mas espreita por todos os cantos enquanto procura empatia num mundo que muitas vezes só nos oferece simpatia.
Crianças
Para as crianças, o luto é como o som repentino de um alarme num lugar interno até então tranquilo. O mundo, que para elas era feito de presenças e certezas, estilhaça-se quando alguém que se ama parte. Neste contexto, compreende-se até a inexistência de vocabulário capaz de expressar a dor e as emoções sentidas. Muitas vezes, os mais pequenos aprendem a reconhecer a saudade como uma forma de amor através dos olhos atentos dos pais, que vão traduzindo e legendando os seus estados emocionais, assim como as suas atitudes – e é nesta dinâmica que as crianças conseguem atribuir um significado ao sentir e possibilitam uma melhor integração da experiência. Através deste processo de partilha e validação, a criança compreende que os sentimentos não são algo que devemos temer, mas sim viver. Eventualmente, as crianças vão fazer muitas perguntas, algumas delas até repetitivas, podem comportar-se de formas inesperadas, como se estivessem a montar todas as peças de um puzzle sem solução. Contudo, as crianças não expectam que os pais saibam tudo! As crianças não precisam de pais perfeitos, precisam de pais reais que as escutem e as acolham nas oscilações que poderão encontrar. Sobretudo, precisam de pais que validem o que estão a sentir, mesmo que isso implique muita tristeza, muito choro ou atividades como criar um álbum de fotografias ou escrever num papel aquilo que a pessoa que partiu desejaria neste Natal.
Adolescentes
No que concerne aos adolescentes – estes que já são conhecedores da complexidade das emoções –, ainda se demonstram muitas vezes despreparados para lidar com elas (assim como acontece também com os adultos).
Perante a perda, também os alarmes do mundo interno do adolescente tocam com uma força avassaladora, mas muitas vezes escolhem o silêncio como refúgio. Esboçam sorrisos que não refletem a sua dor, dão respostas curtas para esconder as saudades e tentam manter uma estabilidade forçada durante o Natal. No entanto, por detrás desta figura “planeada”, a saudade e a confusão misturam-se e fervilham. Os adolescentes desejam alguém que seja capaz de ouvir o que não é dito, de interpretar os gestos e criar um espaço onde a dor possa ser expressa com segurança e, sobretudo, sem pressa. O que, deva referir-se, não é muito distante dos adultos/pais, que, muitas vezes, ficam presos nos seus alarmes internos e tentam transmitir uma imagem de que está tudo bem. Muitos pais carregam a dor em silêncio, como se expressá-la fosse um ato de fraqueza ou algo que pudesse “estragar” o Natal. Todavia, a verdade é que a dor partilhada é um sinal de amor. Chorar por quem partiu é a prova de que o amor persiste. A expressão da dor e a vivência do luto são próprias de cada um e não existem maneiras corretas ou erradas de sentir, embora seja muito mais saudável vivê-la em relação e nunca em solidão.
A comunicação empática parece-me um imperativo essencial em todo este processo. Embora seja difícil dar nome ao que sentimos, essa é uma das formas mais poderosas de integrar a experiência do luto. Assim, torna-se relevante reconhecer que existe alguém que, apesar de muito amado, partiu e não voltará fisicamente. Para os mais pequenos, essa perda instala um vazio que precisa de ser compreendido e acolhido sem nunca ser ignorado. É igualmente importante reforçar que o riso e a saudade podem coexistir sem que tenhamos de estar psicopatologicamente doentes. Dentro do nosso coração cabem todas as nossas emoções, mesmo as mais paradoxais.
Não existem formas corretas ou erradas de (sobre)viver à perda de alguém.
Numa breve nota final, sob a minha perspetiva, o luto não tem resolução porque não é um problema para ser resolvido, mas sim uma experiência para ser vivida. Embora sejamos sistematicamente ensinados a ser socialmente simpáticos, é importante encarar a verdade: a vida nunca será a mesma sem a pessoa que perdemos. E, ainda assim, essa é a magia da vida. Todos os dias marcamos as pessoas com quem convivemos e somos, naturalmente, também marcados. Dito de outro modo, em cada relação deixamos um pedacinho nosso dentro da pessoa e levamos, inevitavelmente, um pedacinho da pessoa dentro de nós. Por isso, mesmo quando alguém parte, há sempre algo que permanece vivo: nas memórias, nos gestos, nos cheiros, nas manias…. Fisicamente somos efémeros, mas, no coração de quem nos ama e priva connosco, somos eternos. Não existem formas corretas ou erradas de (sobre)viver à perda de alguém. Sigam o coração, sejam empáticos e abordem o sentir. Afinal, o Natal não se resume a quem está fisicamente presente, mas também aos laços que nos unem através do tempo!
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A AUTORA
Marta Ramalho da Costa – Psicóloga
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