Debaixo de Água, de Tara Menon, é uma das novidades publicadas este mês, pela Livros do Brasil. Através desta história, a autora convida-nos a mergulhar num enredo que oscila entre o presente e o passado, ao abordar a forma como as experiências vividas continuam a ecoar ao longo do tempo.
A ideia para o livro nasceu de uma experiência marcante da juventude de Menon, numa altura em que, nas palavras da própria, percebeu que «existia um "guião" para certos tipos de luto - como a perda de um pai, avô ou irmão -, mas não havia parâmetros claros para o luto por um amigo. Parecia que as pessoas achavam que era algo de que se podia, talvez até se devia, seguir em frente relativamente depressa.» Foi essa sensação que levou Tara Menon a escrever um livro que encara essa dor tantas vezes desvalorizada: «Queria levar a sério a ideia de que o luto por um amigo pode ser simultaneamente devastador e duradouro.»
No centro de Debaixo de Água está uma amizade feminina que foge aos clichés. «Queria escrever sobre uma amizade que fosse, na sua essência, de apoio, afeto e alegria. Não quero dizer que a relação entre Arielle e Marissa não tenha tensão, mas a competição não é a força motriz da relação delas. Queria escrever algo que parecesse mais fiel à amizade feminina comum e, ainda assim, profunda. Do tipo que eu tive e continuo a ter, do tipo que a maioria das mulheres tem», revelou.
Neste romance de estreia, a natureza surge como cenário e força viva, simultaneamente deslumbrante e implacável. Tendo vivido entre Singapura e Nova Iorque, a autora procura capturar essa dualidade: «Ao mesmo tempo, quis mostrar as formas como essa beleza é perturbada, tanto pela violência rotineira da natureza (como um falcão-de-cauda-vermelha a despedaçar e devorar um pombo diante de uma multidão no Central Park), como pela destruição causada pelo ser humano, como a poluição ou a caça furtiva, um tipo de destruição que pode passar despercebido se não estivermos atentos.»
«Quis chamar a atenção para os muitos tipos de perda silenciosa que estão a acontecer à nossa volta neste momento»
Um dos elementos presentes no livro são as jamantas, criaturas que fascinaram Tara Menon não só pela sua imponência, mas também pelo seu comportamento social: «O que me levou a colocá-las no centro do romance foi um artigo científico que demonstrava que as mantas formam amizades com outras mantas, sendo as fêmeas muito mais propensas a fazê-lo. Adorei a ideia de que, tal como Arielle e Marissa, também as mantas fêmeas deste livro tinham amizades duradouras.»
Apesar de ter como pano de fundo dois grandes desastres naturais (o tsunâmi de 2004 e o furacão Sandy), mais do que os momentos de catástrofe, à autora interessa aquilo que acontece antes, devagar e quase invisivelmente: «Quis chamar a atenção para os muitos tipos de perda silenciosa que estão a acontecer à nossa volta neste momento.»
Debaixo de Água é, assim, um romance que nos convida a olhar com mais atenção para a natureza, para os outros e para as emoções que tantas vezes deixamos submersas.