«Chorar um lugar é ainda mais difícil do que chorar uma pessoa.»
Na cidade ucraniana de Poltava encontra-se um edifício conhecido como a Casa dos Galos, uma imponente estrutura arquitetónica com dois voluptuosos galos vermelhos a flanquear a porta. Não tem de todo um ar ameaçador. No entanto, a autora, Victoria Belim, recorda-se bem do temor da bisavó, que fazia de tudo só para não atravessar aquela rua.
Em 2014, enquanto o Estado russo anexava a Crimeia – e após uma acesa discussão com um tio, defensor acérrimo do seu passado soviético –, ela decide visitar Valentina, a avó, em Berig, uma aldeia próxima de Poltava, de onde Victoria guarda as mais doces memórias da sua infância. Consigo leva um propósito: seguir os passos daqueles que constituem a sua árvore genealógica. Leva ainda o desejo de dar resposta a uma questão: quem foi Nikodim, o homem cujo nome descobriu no diário do bisavô e de quem ninguém – sobretudo a avó Valentina – está disposto a falar?
Obcecada pelo segredo que envolve esta figura e por recuperar o seu próprio passado, Victoria regressa uma e outra vez àquele país, calcorreia as pequenas aldeias devastadas, fala com sobreviventes envelhecidos, procura reconstituir os passos dos antepassados, mas essa busca acaba por levá-la ao lugar onde sempre soube que estariam escondidas as verdades mais sombrias: a Casa dos Galos, o majestoso lugar que durante décadas serviu de sede dos serviços secretos e onde ainda permanecem os temíveis arquivos do KGB.
Livro de memórias e romance com traços de policial, A Casa dos Galos é, em simultâneo, uma viagem fascinante à complexa história de um país ferido e um comovente tributo à esperança e à recusa do desespero.
Ana Luísa Calmeiro
Editora