Esta é uma boa altura para explicar o conceito de crédito planeado ao seu filho
O crédito não é um bicho-papão. Existem dívidas “más”, imprevistas e incontroláveis, sim, mas também ha dívidas “boas”, planeadas e administradas. Os jovens dos 2.º e 3.º ciclos têm de perceber esta diferença, num contexto de gestão de orçamento familiar, preparação da reforma e proteção à saúde.
Paulo AlcarvaGerir o dinheiro para poder consumir e poupar tem como pressuposto de base saber para onde vai o dinheiro que se ganha. Para responder a esta questão, nada melhor do que partilhar com o seu filho o conteúdo do recibo de vencimento.
Para onde vai, então, o dinheiro que se ganha, para além dos consumos imediatos de alimentação, casa e transporte? Para os cuidados de saúde ou sistemas de proteção à saúde (seguros de saúde), para preparar a reforma, através de descontos para o Sistema Nacional de Segurança Social ou para um plano privado de poupança para a reforma (vulgo PPR), e para o pagamento de vários tipos de impostos, que permitem aos governos garantir a todos segurança, acesso a cuidados de saúde e educação, justiça e vias de comunicação.
Depois da construção de um orçamento para gerir a mesada, no 2.º e 3.º ciclos faz sentido que os jovens comecem a colaborar na elaboração do plano/orçamento familiar, não ponderando apenas as suas despesas, mas tendo também em consideração os gastos estruturante atrás referidos que, na maior parte dos casos, já se encontram no recibo de ordenado a deduzir ao salário.
Receber e pagar juros: depósito e crédito
Nestas idades (2.º e 3.º ciclos) o banco já não é um lugar estranho para os alunos. Mas será que o entendem verdadeiramente como local onde as pessoas colocam o dinheiro para o guardar e para o remunerar?
Para o efeito importa explicar a existência de dois tipos de contas bancárias: as contas de depósito à ordem para o dinheiro necessário para pagar as contas correntes, comprar comida e o bilhete de cinema; e as contas poupança para o dinheiro que não se necessita no imediato e que, pelo facto de estar imobilizado no banco, recebe um juro que faz o dinheiro crescer.
Ele cresce mas não é por artes mágicas. Os juros que recebemos nas contas poupança decorrem do facto de estarmos a emprestar ao banco o nosso dinheiro, que, por sua vez, o vai emprestar a outras pessoas. Se formos essa pessoa a quem o banco empresta, então, em vez de recebermos, passamos a pagar juros pelo dinheiro que nos foi concedido em crédito.
O crédito é um produto bancário útil, mas que pode rapidamente transformar-se num quebra-cabeças. Através de cartão, para compras mais do quotidiano, ou de empréstimos para a compra de uma casa, de um carro ou mesmo de um curso, o crédito permite às pessoas ter acesso a bens com um valor superior ao dinheiro que se tem num determinado momento. O problema existe se não se acautela que a dívida, o dinheiro do empréstimo mais os juros, tem de ser paga nos prazos definidos no contrato de crédito. Nessa circunstância, tal como os Estados e as empresas, também as pessoas entram em incumprimento (o famoso “default”) e mesmo em insolvência.
Em conclusão, deve estar sempre presente que existe uma grande diferença entre dívidas “boas”, planeadas e administradas, e dívidas “más”, imprevistas e incontroláveis.
O dinheiro online
A visita a uma agência bancária pode, a muito breve prazo, passar a ser uma experiência de exceção, isto porque a relação entre o banco e as pessoas está a mudar muito rapidamente. As agências/balcões continuam a existir, mas a ida ao banco via internet está a ganhar cada vez mais espaço.
A relação da tecnologia com os bancos foi sempre muito próxima – levantamos dinheiro em caixas automáticas (ATM – “Automated Teller Machine”), pagamos através de cartões bancários (apenas de pagamento e/ou de crédito) em postos automáticos (TPA – Terminal de Pagamento Automático) e transferimos, consultamos e pagamos através de sites – mas cada vez é maior. A comunicação móvel permitida pela internet faz com que cada vez mais o banco se desmaterialize e esteja em qualquer dispositivo móvel.
Mas não nos preocupemos, pois se há temática financeira que não vai exigir aos educadores um grande esforço de explicação é esta revolução tecnológica em curso.