Um relato de como dar mais autonomia ao seu filho
Não será decerto necessário um grande esforço para reconhecermos que, nalgum momento, o desenvolvimento dos nossos filhos terá de implicar a sua crescente autonomia — independência seria aqui um termo muito forte, não?
Maria Natália CabralDe facto, a vontade do nosso filho ou da nossa filha de se afirmarem autónomos não é, de todo, um desejo de um momento em particular, de uma idade definida, mas a consequência de todo um processo que terá começado, anos atrás, talvez naquele desajeitada tentativa de apertarem sozinhos os cordões das sapatilhas. Um processo no qual os pais e as mães têm um papel de importância maior. Educar é, também, conceder autonomia, e, na circunstância deste meu escrito, ir concedendo autonomia nas questões menores, e depois maiores, do seu percurso escolar.
Não, ainda não estamos a falar na escolha do curso que pretendem seguir, mas em escolhas mais simples que, sem dúvida, criarão condições para futuras escolhas bem mais complexas. Até porque a autonomia caminha de braço dado com a responsabilidade e esta etapa do crescimento nenhum pai e nenhuma mãe recusa.
E, então, como podemos, pais e mães, ir fomentado essa autonomia, que acompanharemos criticamente?
Fomentando-lhes o direito à escolha — não, naturalmente, a escolha absoluta, entre tudo e mais alguma coisa, mas uma escolha mais contida, limitada, seletiva, que teremos naturalmente de construir.
A preparação da mochila/pasta e dos materiais a levar para as aulas poderá e deverá ser, por exemplo, e desde muito cedo, uma tarefa da responsabilidade dos nossos jovens estudantes. Sem nunca recusarmos a nossa responsabilidade na avaliação e correção da tarefa.
Se viável, poderemos também oferecer aos nossos filhos a possibilidade de escolherem o local da casa onde estudar — de entre, por exemplo, dois locais que tenhamos elegido e que cumpram os requisitos mínimos.
Não nos parece igualmente despropositado oferecer-lhes a construção responsável do seu “horário de trabalho”. O que fazer primeiro após chegar a casa: iniciar os deveres da escola ou ver aquela série de televisão preferida? Ganhar o direito a escolher será para eles uma vitória importante, cabendo-nos a nós garantir que eles entendem a responsabilidade decorrente da escolha.
Incentivemo-los igualmente a estudar sozinhos. Sentem dificuldades em manterem a concentração? O que elegem sublinhar das primeiras vezes não é o mais importante? Deixam por tratar partes importantes da matéria? Lá estaremos por perto, acompanhando o processo, e, se necessário, intervindo se de nós necessitarem.
A própria organização mais particular do estudo — que tarefas escolares fazer primeiro, que disciplina começar a estudar — pode e deve ser um aspeto a incluir nas escolhas dos nossos filhos, corrigido, naturalmente, se o acompanhamento que sempre teremos de fazer do sucesso da escolha nos ditar que alguma correção haverá a promover.
Ganhar autonomia é adquirir uma competência que está na base do saber percecionar uma questão, entender a sua natureza, fazer escolhas, tomar decisões.
De qualquer modo, todo este processo de concessão de maior autonomia a um filho ou a uma filha é sempre um processo lento, de construção contínua e de sucessivas adaptações, na base da observação e avaliação.
Como naquelas primeiras vezes em que ele ou ela pretenderam começar a comer sozinhos… Lembram-se como foi? De como essas experiências exigiram de nós presença, atenção, supervisão? De como teremos sentido que agora nos era exigido mais de que quando lhes levávamos a comida à boca… e pronto?
Pois, esta é também mais uma dor de crescimento que exigirá o melhor de nós, para bem do crescimento dos nossos filhos como seres inteiros.