Como educar na era da Inteligência Artificial?
O grande desafio da educação não é competir com a IA, mas formar pessoas capazes de pensar para além dela.
Joana Gonçalves de Sá | 14-06-2026No passado mês de Abril, participei numa mesa-redonda sobre “Equidade digital – garantir oportunidades na era da Inteligência Artificial (IA)”, integrada na Grande Conferência da Educação e Transformação. A visão predominante no painel defendia que devemos preparar os alunos para usar ferramentas de IA e modernizar as escolas e os currículos em função das exigências do mercado. E algumas perguntas colocadas por estudantes na audiência reflectiam precisamente essa preocupação: para que serve estudar textos escritos há 500 anos ou aprender factos que se encontram online em segundos? Dir-se-ia que quem não dominar estas tecnologias ficará para trás.
O meu entendimento foi outro: num mundo acelerado e em que teremos acesso a ferramentas de IA em idades cada vez mais jovens, a desigualdade mais relevante irá surgir, principalmente, entre quem desenvolva a capacidade de pensar de forma profunda e quem dela abdique. Por isso, defendi que a escola deve resistir à lógica imediatista que caracteriza o ambiente digital e que esta ideia é amplamente acolhida por quem desenvolve estas tecnologias: muitos dos “donos” de Silicon Valley evitam expor os próprios filhos a ecrãs, a redes sociais ou a IA generativa. Viver num mundo digital é óptimo, sobretudo para os filhos dos outros.
Esta posição assenta em três razões principais.
Não devemos repensar a educação para competir com os modelos de linguagem em velocidade ou memória, mas para ampliar as nossas capacidades humanas de compreender, relacionar e criar.
A primeira prende-se com a motivação por trás do ensino. Quando alguém pergunta para que serve aprender coisas que “não servem para nada”, uma resposta é que a educação não tem (apenas) como objectivo acumular informação, mas sim treinar o cérebro. Ler textos difíceis, resolver problemas exigentes, memorizar, escrever: tudo isto expande capacidades cognitivas e cria estruturas mentais sólidas. Ou seja, tal como não fazemos exercício para sermos mais rápidos do que um automóvel ou mais fortes do que uma grua, não devemos repensar a educação para competir com modelos de linguagem em velocidade ou memória, mas para ampliar as nossas capacidades humanas de compreender, relacionar e criar. Existe uma utilidade real no conhecimento “inútil”, e penso que quanto mais profundo for o conhecimento, mais valioso será.
Em segundo lugar, é importante preservar a “fricção” e o esforço. Uma estudante perguntava porque é que as professoras não tornavam as aulas mais animadas, mais adaptadas a quem vive no mundo rápido dos vídeos do TikTok. Não tenho nada contra aulas estimulantes (muito pelo contrário), mas aprender implicará sempre trabalho, repetição, erro e, não raras vezes, frustração. Este processo é importante para consolidar competências e, como diria o pai do Calvin, formar o carácter.
No entanto, não só os sistemas de IA generativa tendem a eliminar essa fricção, oferecendo respostas imediatas e frequentemente alinhadas com aquilo que queremos, como a sua utilização é… fácil.
Imaginemos dois percursos. Num, uma jovem lê regularmente, faz desporto, estuda matemática, filosofia, talvez música. Noutro, privilegia a utilização de plataformas digitais, faz o trabalho de casa rapidamente e sabe preparar relatórios em várias línguas. Alguém acredita que a primeira jovem parte de uma posição de desvantagem? Assim que for confrontada com a necessidade de usar IA de forma avançada, no mercado de trabalho ou durante a universidade, aprenderá em pouco tempo. No caso da segunda, dificilmente recuperará anos de esforço e de treino intelectual exigente.
Estes exemplos são caricaturais, e a virtude dificilmente estará nos extremos. Mas, no início da sessão, quase toda a plateia levantou o braço quando a moderadora perguntou quem já tinha usado ferramentas de IA, e suspeito que o número teria sido bem menor se a pergunta fosse quem tinha lido um livro de 200 páginas no último mês, simplesmente porque ler exige mais esforço.
Não defendo que se rejeite a IA e aceito que cada vez mais jovens a irão utilizar, que é útil e que pode até ter um papel equalizador. Mas é precisamente por ser tão acessível que não precisamos de a deixar invadir a escola.
A terceira razão é a equidade. Após a sessão, houve quem argumentasse que uma educação exigente é um luxo dos privilegiados, e partilho a preocupação com uma escola elitista que deixa tantas crianças para trás. Mas é precisamente por causa das grandes desigualdades de base que a escola não pode abdicar de expor as crianças a conteúdos e competências que não surgem espontaneamente noutros contextos. Para muitas, é o único espaço de contacto com a literatura, outras línguas, o pensamento abstracto e referências culturais comuns. É muito importante assegurar métodos personalizados de ensino, mas também é essencial garantir uma experiência partilhada, algo que nunca irá emergir no espaço cada vez mais fragmentado das redes sociais ou através de tutores robóticos individuais. Para além disso, não podemos privar as crianças e os adolescentes da satisfação que se segue ao esforço, por conseguirem fazer ou perceber algo que lhes parecia difícil ou até impossível.
Em suma, não só não defendo que se rejeite a IA, como aceito que cada vez mais jovens a irão utilizar, que é útil e que pode até ter um papel equalizador. Mas é precisamente por ser tão acessível que não precisamos de a deixar invadir a escola: os estudantes aprenderão como a utilizar sozinhos e uns com os outros. O que é importante é garantir espaços de contraposição, e se a tendência dominante é a da superficialidade e gratificação imediata, então a escola (tal com a universidade) deve afirmar-se como um espaço de exigência, de reflexão e de profundidade.
A autora
Joana Gonçalves de Sá
Licenciada em Engenharia Física Tecnológica (IST-UL) e doutorada em Biologia de Sistemas (ITQB-NOVA), tendo desenvolvido a sua tese na Universidade de Harvard, EUA.
Foi investigadora principal no Instituto Gulbenkian de Ciência e diretora do Programa de Pós-Graduação Ciência para o Desenvolvimento, programa doutoral dirigido aos PALOP.
Coordena, desde 2020, o grupo de investigação multidisciplinar «Social Physics & Complexity — SPAC», do Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas.
A autora escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.