A IA na educação: ameaça ou oportunidade?

Integrar a IA nas escolas exigirá continuidade, formação séria para os professores, avaliações que valorizem o raciocínio e não apenas o produto final, transparência no uso da tecnologia.

| 20-01-2026

Discutimos hoje a inteligência artificial (IA) como quem observa um visitante que já entrou antes de ter sido convidado. Sentado à mesa, mexe no caderno dos alunos, oferece respostas prontas e levanta perguntas que a escola portuguesa ainda não decidiu se quer ouvir. Alguns acreditam poder travar a sua entrada, mas a verdade é que a IA já está dentro da sala de aula, invisível apenas para quem insiste em não a ver. E, como tantas vezes acontece entre nós, discute-se mais depressa do que se pensa, como se a urgência bastasse para substituir a prudência.

Qualquer integração da IA que não seja ponderada, gradual e testada corre o risco de ser prejudicial.

Outros países têm caminhado por vias menos agitadas e mais consequentes. A UNESCO publicou orientações internacionais que sublinham a necessidade de uma integração regulada e humanista da tecnologia, levando-nos a concluir que o professor não pode ser substituído por nenhum algoritmo. No Reino Unido, o Ministério da Educação procura aliviar a carga administrativa dos docentes e garantir a integridade das avaliações num tempo em que a autoria se tornou um território incerto. A OCDE tem insistido que a introdução da IA exige visão de longo prazo, preparação docente e estabilidade de medidas, porque nenhum sistema educativo sobrevive à sucessão apressada de entusiasmos legislativos.

Em Portugal, acumulámos durante décadas reformas que pareciam urgentes e que se revelaram extenuantes. Professores e alunos vivem num ciclo contínuo de adaptação, onde cada mudança chega antes de a anterior ter sido compreendida. Por isso, qualquer integração da IA que não seja ponderada, gradual e testada corre o risco de ser prejudicial. A prudência aqui não é medo: é defesa da dignidade de quem ensina, de quem aprende e da eficácia do processo de ensino-aprendizagem.

A neurociência ajuda-nos a perceber o que está verdadeiramente em causa. Investigadores como Maryanne Wolf, uma das oradoras do último Book 2.0, organizado pela APEL, lembram-nos que a leitura profunda obriga o cérebro a abrandar, a estabelecer ligações, a fazer perguntas internas antes de avançar. É uma construção lenta, quase artesanal, que depende da repetição e do treino constante. O cérebro adapta-se à leitura criando circuitos complexos que só se consolidam quando o tempo e a atenção lhes dão espaço para se formarem. Quando a leitura é apressada ou fragmentada, esses circuitos ativam-se de forma superficial: privilegiam a rapidez, mas sacrificam a análise, a inferência, a memória e a capacidade de projetar sentido para lá das palavras.

Se os jovens substituírem sistematicamente esse esforço pelo atalho instantâneo oferecido pela IA Generativa, diminuirá não apenas a qualidade do que produzem, mas também a força dos próprios circuitos cognitivos que sustentam a compreensão profunda. Um texto lido devagar permite ao cérebro construir relações semânticas e emocionais, mas um texto recebido pronto, por seu turno, impede essa construção, como uma ponte que se atravessa sem nunca se perceber como foi feita. Fica-se com a resposta, mas perde-se a formação do pensamento. O cérebro humano precisa de tempo para pensar devagar, enquanto a tecnologia necessita de velocidade para responder depressa. E é nesta fricção entre o ritmo da máquina e o ritmo da pessoa que viverá o desafio essencial da integração tecnológica nas escolas.

A tecnologia, usada com critério, pode reforçar a missão da escola e não enfraquecê-la.

No entanto, seria um erro concluir que a IA é apenas uma ameaça. Pelo contrário: ela pode ser instrumento de inclusão e de personalização, ajudando alunos com dificuldades específicas, adaptando ritmos de trabalho e oferecendo explicações alternativas que ampliam o acesso ao conhecimento. A tecnologia, usada com critério, pode reforçar a missão da escola e não enfraquecê-la. O que não pode é servir de substituto ao pensamento, reduzindo-o a prompts e a respostas automáticas.

E não podemos deixar de falar do que raramente admitimos, talvez porque nos obriga a confessar uma certa impaciência estrutural: Portugal não pode continuar a pensar a educação como um jogo finito. A escola tem sido tratada como uma corrida, orientada para resultados imediatos e metas que caibam num mandato governativo. Pequenas reformas que se anunciam com solenidade e se medem em calendários, programas que mudam de nome quando muda o executivo, orientações que prometem resolver em dois ou três anos problemas que sabemos não ter resolução rápida.

Cada geração aprende para que a seguinte possa aprender melhor.

Simon Sinek (autor do famoso Primeiro Pergunte Porquê) descreve esta diferença de forma simples: há jogos finitos, que têm começo, meio e fim, regras estáveis e vencedores claros; e há jogos infinitos, que não se destinam a vencer, mas a continuar. A educação pertence, inequivocamente, à segunda categoria. Não há vitória final na educação, não há linha de chegada nem momento em que possamos declarar missão cumprida. Cada geração aprende para que a seguinte possa aprender melhor. Cada decisão tomada hoje produzirá efeitos quando os decisores já não estiverem em funções, quando os ministros tiverem mudado de pasta e quando os slogans tiverem sido esquecidos.

O paradoxo é este: sabemos que a educação é um jogo infinito, mas continuamos a geri-la como se fosse finito.

Introduzimos mudanças sem dar espaço à sua sedimentação, como se o simples ato de legislar fosse suficiente para transformar práticas enraizadas. Professores e alunos tornam-se, assim, peças de um tabuleiro que muda constantemente, obrigados a reaprender regras antes de dominarem as anteriores.

O que ensinamos hoje não serve o país de amanhã, mas um país que ainda não existe, cujos contornos só podemos imaginar.

A educação, porém, não se constrói por acumulação de medidas, mas por continuidade de sentido. Exige estabilidade para que o esforço tenha direção. O que ensinamos hoje não serve o país de amanhã, mas um país que ainda não existe, cujos contornos só podemos imaginar. Um país que dependerá, em grande medida, da capacidade crítica, da autonomia intelectual e da maturidade cívica dos jovens que hoje estão nas escolas.

Talvez por isso a introdução da IA na escola nos confronte com uma escolha tão clara. Podemos integrá-la como mais uma medida apressada ou podemos assumi-la como parte de um percurso exigente. Se aceitarmos que a educação é um jogo infinito, então teremos de aprender a decidir com menos ansiedade e mais responsabilidade.

Integrar a IA nas escolas exigirá continuidade, formação séria para os professores, avaliações que valorizem o raciocínio e não apenas o produto final, transparência no uso da tecnologia. Exigirá também projetos-piloto bem acompanhados, tempo para reflexão e decisões consequentes. Se falharmos nisto, falharemos na própria essência da escola: a de ser um lugar onde se aprende a pensar.

E, apesar de tudo, escolho terminar com otimismo. Se soubermos integrar a IA como aliada, e não como ameaça ou solução milagrosa, poderemos fortalecer a relação entre todos os elementos da comunidade educativa. Se agirmos com prudência, visão e serenidade, a IA não roubará lugar nenhum, limitando-se a acompanhar-nos. E talvez, um dia, possamos dizer que o futuro não chegou para substituir a educação, mas para a ampliar, nesse jogo infinito de construir, passo a passo, o país que desejamos ser.

 

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