"De onde vêm os bebés?": Como responder às perguntas difíceis das crianças

Entre dúvidas sobre o mundo, a vida e as emoções, há questões que exigem dos pais mais do que uma resposta certa: pedem disponibilidade, escuta e sensibilidade.

| 23-06-2026

Todos conhecemos a fase dos “porquês”: “Porque é a Lua redonda?”, “Por que razão é branca?” ou “Porque fica tão longe?”. No meio de tantos porquês, os pais ficam inúmeras vezes embaraçados, sem saber muito bem o que responder, como responder e, sobretudo, até onde responder.

Quando as crianças perguntam, de algum modo, já trazem consigo uma resposta ou, pelo menos, uma hipótese. 

Para ser muito honesta, acredito que haja questões que nem os pais, mesmo que quisessem, conseguiriam responder com rigor, quando apanhados desprevenidos. Lamentavelmente, não existem respostas infalíveis, e talvez o mais importante nem seja oferecer uma explicação milimétrica, mas estar emocionalmente disponível para pensar com a criança. Cada criança é um universo em permanente evolução, que vai juntando peças ao seu puzzle através daquilo que ouve na escola, com os tios, com os avós e, sobretudo, com os pais. 

Na minha perspetiva, as perguntas das crianças trazem algo de muito precioso: interesse, curiosidade, criatividade e capacidade de sonhar. Quando as crianças perguntam, de algum modo, já trazem consigo uma resposta ou, pelo menos, uma hipótese. Por isso, talvez valha a pena devolver-lhes a pergunta: “Que achas tu que acontece?”. E, partindo da sua compreensão, construir uma resposta simples, mas verdadeira, para que possa ser integrada mais facilmente.

Assim, deixo três questões que costumam inquietar os pais, não apenas pelo que exigem como resposta, mas também pela forma como os levam a reagir quando surgem.

 

Mas para onde foi o avô?

Os adultos, muitas vezes, estremecem perante esta questão. A previsibilidade deste acontecimento inevitável contrasta com a imprevisibilidade do momento em que acontecerá, e, talvez por falta de controlo, continuamos a falar da morte como se fosse um tabu. Todavia, as crianças apercebem-se claramente da sua existência, por exemplo, através dos olhos vermelhos do pai ou das conversas que ficam sem continuidade quando se menciona o nome daquela pessoa que já não está presente.

As crianças pensam de forma concreta, e os eufemismos, ainda que bem-intencionados, podem produzir o efeito contrário ao desejado.

Acredito que muitas famílias se percam em explicações simultaneamente amorosas e confusas, recorrendo a expressões como “foi para o céu” ou “foi para um sítio melhor”  neste último caso, a questão seguinte da criança será: “Como foi para um sítio melhor, se nem sequer me telefona?”. As crianças, sobretudo as mais pequenas, pensam de uma forma concreta, e os eufemismos, ainda que bem-intencionados, podem produzir o efeito contrário ao desejado. 

Neste sentido, considero que se deve ouvir as questões da criança e explicar-lhe que o avô morreu e que, por isso, o corpo parou de funcionar, já não consegue respirar, mas também já não sente dor ou frio, e já não consegue voltar. Perante esta informação dolorosa, importa oferecer segurança, independentemente das crenças familiares ou religiosas, explicando que ele permanecerá vivo nas memórias da família, nas histórias partilhadas, nas fotografias e nos vídeos de momentos felizes.

Não sou, de todo, apologista de que as crianças devam frequentar funerais ou cemitériosContudo, também não me parece justo excluí-las automaticamente, como se a despedida fosse, por si só, traumática. Assim, considero que a linha vermelha esteja na obrigatoriedade de ir — e isto aplica-se a qualquer idadeCaso a criança manifeste vontade de ir ao funeral ou ao cemitério, poderá fazê-lo, ainda que por breves momentos, desde que compreenda previamente o que irá encontrar, saiba que pode fazer perguntas e, sobretudo, que poderá sair a qualquer momentoNa minha perspetiva, o que pode ser verdadeiramente assustador é a criança ficar sozinha com aquilo que imagina e que ninguém a ajuda a compreender.

 

Como são feitos os bebés?

 

Uma resposta demasiado complexa não será facilmente assimilada por crianças pequenas, que ainda estão a construir a noção de corpo e de intimidade.

Acredito que esta pergunta incomode muitíssimo mais os pais, que a têm de responder, do que propriamente as crianças, que, com a sua curiosidade natural, a colocam. Tantas e tantas vezes os pais, num embaraço compreensível, procuram ser excessivamente realistas e recorrem a uma folha de papel para explicar tudo ao pormenor. Contudo, não me parece que uma resposta demasiado complexa seja facilmente assimilada por crianças pequenas, que ainda estão a construir a noção de corpo, de intimidade e da própria origem da vida.

Reforço a importância de devolver a pergunta à criança, de forma a perceber o que já sabe, construindo, a partir daí, uma resposta verdadeira, simples e adequada à idade dela, que não se sobreponha à sua compreensão. O mais importante, parece-me, é que a criança sinta que nasceu de uma história com lugar para si mesma. A título de exemplo, podemos começar por dizer que o pai e a mãe se amavam muito e que desse amor nasceu a criança. Com as crianças mais velhas, poderemos acrescentar que, para um bebé se formar, é necessário que uma célula chamada óvulo se junte a outra célula, o espermatozoide, e, a partir desse encontro, começa a formar-se o bebé no útero, isto é, dentro da barriga da mãe.

Admito que, no que concerne a este assunto, talvez os detalhes não sejam o mais importante. Em particular, os detalhes relativos à intimidade dos próprios pais, uma vez que a sexualidade do casal lhes pertence e não deve ser descrita à criança, que se deve sentir segura no seu lugar de filha.

 

O Pai Natal e a Fada dos Dentes não existem?

Para mim, estes elementos do imaginário infantil são deliciosos! O Pai Natal e a Fada dos Dentes surgem no desenvolvimento das crianças não como uma mentira cruel, mas como personagens simbólicas de um mundo em que a bondade, a espera e a magia ainda têm um lugar reservado. Assim, a fantasia, quando vivida com bondade, e nunca como uma ameaça, pode fazer parte de um desenvolvimento saudável. As crianças precisam de brincar ao faz de conta, de imaginar e de transformar o concreto em simbólico.

Escrever a carta para o Pai Natal não é (ou não deveria ser) apenas uma forma de pedir presentes. Na verdade, pode ser um pequeno ritual de família, no qual a criança faz, à sua maneira, uma espécie de balanço bonito desse ano.  

As crianças, por si só, acabarão por descobrir que estas figuras não existem da forma como as imaginavam, seja através da escola, dos irmãos ou até das suas próprias questões — afinal, como é que a Fada dos Dentes entra em casa com o alarme ligado? 

Não acredito que estas fantasias sejam, por si só, traumáticas, embora defenda que a diferença está na forma como os adultos as utilizam. Quando estas efabulações são vividas com encanto, tornam-se ainda mais mágicas; quando são usadas como ameaça ou chantagem, perdem precisamente aquilo que as torna especiais. Por isso, enquanto durar, que seja lindo!

Responder às perguntas difíceis das crianças não implica saber tudo.

Numa breve nota final, acredito que responder às perguntas difíceis das crianças não implica saber tudo. Implica, isso sim, escutar, comunicar a verdade possível e assegurar-lhes a nossa presença enquanto o mundo vai ganhando contornos mais reais, sem perder precocemente a magia.

 

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A autora

 

Marta Ramalho da Costa – Psicóloga

 

Realizou o Mestrado Integrado em Psicologia na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação na Universidade de Coimbra (FPCE-UC), especializou-se em Psicologia Clínica e da Saúde na sub-área das Psicopatologias e Psicoterapias Dinâmicas. É ainda Pós-Graduada em Medicina Psicossomática.

Instagram: martadacosta_psic

Linkedin: marta-ramalho-da-costa

 

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