Num mundo onde tudo toca, como se foca?

Num dia a dia cheio de estímulos, esperamos que as crianças consigam parar, escutar e concentrar-se. No entanto, a atenção não tem um on e off imediatos. Na verdade, ela constrói-se no tempo, no corpo, na relação e, sobretudo, na repetição.

| 13-03-2026

Tenho, por diversas vezes, a sensação de que hoje se olha para as crianças e para os adolescentes com um olhar cansado e, por vezes, pouco esperançoso. Tantas vezes se exige atenção, foco e autocontrolo, mas raramente os adultos se questionam, de forma honesta, sobre as condições que estão a ser proporcionadas para que essas competências possam, efetivamente, desenvolver-se. Será justo esperarmos das crianças respostas semelhantes às que nos foram exigidas, quando partimos de contextos tão diferentes? Acredito que, muitas vezes, estamos diante de verdadeiras “cláusulas contratuais” pouco favoráveis para os mais novos, mantendo, ainda assim, cobranças desproporcionais. 

Se poupamos a criança a todos os momentos difíceis, não é expectável que aprenda a regular-se de forma autónoma.

Com frequência, os pais referem que os filhos têm baixa tolerância à frustração e dificuldade em lidar com o “não”. No entanto, observa-se uma tendência para intervir rapidamente em tarefas, conflitos ou desconfortos que a criança precisaria de experimentar e elaborar sozinha. Metaforicamente, é como oferecer uma bicicleta estática, isto é, o movimento existe, mas não há equilíbrio. Se poupamos a criança a todos os momentos difíceis, não é expectável que aprenda a regular-se de forma autónoma. Sublinho que isto não significa que devemos deixar a criança sozinha nas suas emoções, pelo contrário, devemos estar disponíveis para as conter, sem resolver por ela. 

Diariamente, tanto os adultos como as crianças vivem rodeados de agendas preenchidas, com pouco espaço para respirar. As atividades sucedem-se, os jantares são apressados, e os silêncios rapidamente preenchidos por ecrãs, como se o aborrecimento fosse algo perigoso. Neste cenário de excesso de estímulos, esperamos, quase por milagre, que as crianças consigam parar, escutar e concentrar-se. No entanto, a atenção não tem on nem off imediatos. Na verdade, ela constrói-se no tempo, no corpo, na relação e, sobretudo, na repetição. 

 

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Pré-escola 

Nesta fase, a atenção constrói-se na repetição, no brincar e, sobretudo, no tédio.

Nesta fase, a atenção é, sobretudo, uma possibilidade e ainda não constitui uma escolha. Esta desenvolve-se gradualmente, como quando se aprende a andar de bicicleta: primeiro, perde-se o equilíbrio; depois, recupera-se e tenta-se de novo. E é justamente neste movimento que a capacidade atencional se começa a formar. 

Naturalmente, a criança vai permanecer algum tempo na brincadeira, seguidamente afasta-se e, eventualmente, regressa. Este vaivém inquieta, muitas vezes, os adultos, mas traduz a organização do mundo interno da criança, uma vez que, nesta fase, a atenção se constrói na repetição, no brincar e, sobretudo, no tédio, que se constitui como um intervalo fértil a novas ideias. 

Por isso, o adulto precisa de estar presente sem controlar, isto é, segurar a bicicleta, mas não pedalar por ela. Não faz sentido exigir tolerância à frustração se não permitimos que a criança a experimente, e é precisamente quando não apressamos a resposta que a atenção começa a ganhar forma. 

 

 1.º ciclo 

As crianças concentram-se melhor quando existem rotinas.

No 1.º ciclo, a atenção começa a ganhar contorno, mas ainda não é uma escolha consciente. A criança consegue permanecer mais tempo numa tarefa, mas continua a precisar de se mexer, de parar e de apoio na autorregulação. O corpo mantém um papel central na forma como a aprendizagem se organiza. 

Assim, a estrutura do dia é fundamental, uma vez que as crianças se concentram melhor quando existem rotinas e uma alternância clara entre o trabalho e a pausa. Por sua vez, os intervalos são absolutamente indispensáveis para sustentar o foco.  

Neste contexto, não podemos pedir às crianças uma concentração contínua, num ritmo acelerado e com pouca espera, porque isso seria como retirar as rodinhas da bicicleta antes de a criança saber equilibrar-se. 

 

 2.º ciclo 

A distração demonstra, muitas vezes, que estamos perante crianças que ainda estão a aprender a gerir a atenção.

No 2.º ciclo, a atenção passa a ser pedida de forma mais constante, na medida em que se expecta organização, planeamento e permanência, numa fase em que ainda coexistem, saudavelmente, a curiosidade, a necessidade de movimento e a inquietação interna. 

O esforço para que a criança esteja atenta tende a aumentar, mas nem sempre é acompanhado pelo tempo necessário para integrar a aprendizagem. A distração, geralmente lida como falta de interesse ou de esforço, demonstra, muitas vezes, que estamos perante crianças que ainda estão a aprender a gerir a atenção num contexto mais exigente. Nesta fase, a atenção consolida-se com o contexto, o ritmo e a compreensão, nunca com a pressão! 

 

 3.º ciclo 

O cérebro ainda está a aprender a regular as emoções, as prioridades e o esforço mental.

Nestas idades, a atenção começa a ser exigida como um sinal de maturidade, isto é, espera-se que os adolescentes se organizem sozinhos e mantenham o foco, numa fase de grande reorganização desenvolvimental. Por sua vez, o cérebro ainda está a aprender a regular as emoções, as prioridades e o esforço mental. 

Quando fornecemos um ambiente desorganizado a um adolescente com estas competências em construção, contribuímos para a ruína da casa. As notificações, as mensagens e as interrupções obrigam a atenção a sair da tarefa e a recomeçar. Na verdade, mesmo quando o telemóvel não é usado, está presente como uma possibilidade, e o resultado não é o desinteresse, mas sim o cansaço de quem foi esgotando, ao longo do dia, a bateria em sucessivos recomeços atencionais. 

 

 Ensino secundário 

Pedir foco no final do dia é pedir esforço a um cérebro já esgotado.

No ensino secundário, a atenção é tratada como uma obrigação, e, por isso, exige-se foco prolongado, autonomia e resistência ao cansaço, como se o crescimento já estivesse concluído (como se os próprios adultos também conseguissem manter consistentemente este registo). 

As exigências aumentam entre disciplinas, exames, decisões inadiáveis sobre o futuro que se avizinha em passos ligeiros, e muitos jovens recorrem aos jogos ou às plataformas online como uma pausa rápida para uma mente saturada. A questão é que esta pausa raramente descansa, porque é uma troca de estímulo. 

A atenção funciona como a bateria de um telemóvel: gasta-se ao longo do dia, com sucessivas exigências e interrupções. Naturalmente que, sem pausas verdadeiras, não há forma de recarregar. Pedir foco no final do dia é pedir esforço a um cérebro já esgotado. Nesta fase do desenvolvimento, os adolescentes não precisam de pressão, necessitam de limites às interrupções, de espaço para pensar e de tempos protegidos. 

 

Numa breve nota final, gostaria de realçar a palavra EMPATIA. Não podemos exigir às crianças aquilo que nos foi exigido a nós quando as condições em que atualmente crescem são tão distintas das nossas. A atenção constrói-se em contextos que respeitam o tempo do desenvolvimento individual. Naturalmente, as crianças precisam de se frustrar para aprender a gerir a frustração, de cair e tentar de novo, sabendo que há um adulto disponível para as amparar, mas não para resolver tudo por milagre. 

Dar estrutura não é limitar em excesso. É como oferecer um desenho para pintar, ou seja, existem linhas que dão contorno e segurança, mas, dentro delas, a criança pode escolher as cores e criar. Assim, neste equilíbrio entre contenção e liberdade, as crianças crescem mais seguras, mais criativas e mais capazes de se sustentar no mundo. 

 

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