Madrasta ou boadrasta? Desconstruir mitos e redefinir relações familiares
As famílias recompostas estão a aumentar em Portugal, mas a visão sobre madrastas e padrastos continua presa a preconceitos. Este artigo reflete sobre como podemos mudar esta narrativa, valorizando estas figuras e reconhecendo o seu papel nas vidas das crianças e dos jovens.
Inês Neves Rosa | 19-11-2024O meu sonho é ser madrasta.
Soa estranho, não é? Talvez porque não seja propriamente o sonho de ninguém (ao contrário do desejo de ser mãe/pai), mas que se torna a realidade de tantas mulheres (e de homens, no caso dos padrastos).
De acordo com os dados mais recentes disponibilizados pelo Instituto Nacional de Estatística, nos Censos de 2021, existiam em Portugal 124 717 famílias recompostas, mais 17,9% do que em 2011, o que, naturalmente, significa que existem cada vez mais madrastas e padrastos. No entanto, apesar do aumento significativo destas figuras na nossa sociedade, a verdade é que pouco se fala delas e, quando se fala, principalmente em relação às madrastas, é para destacar o tom depreciativo que lhes está associado.
Vida madrasta. Madrasta só o nome lhe basta. Tantas e tantas expressões que acentuam exclusivamente o tom pejorativo de um papel e que empurram tantas mulheres (sobretudo as mulheres) para um lugar de vergonha, de medo e até de indefinição. Não me revejo nestas descrições. Afinal, qual é o meu papel?
Se nos anos 90 era pouco comum haver nas salas de aula crianças com pais separados, atualmente já não é assim, e arrisco dizer que quase todos os dias nos deparamos com crianças e jovens cujos pais se separaram e voltaram a refazer a sua vida. Então, pergunto: porquê manter esta narrativa das madrastas bruxas e más? Não será já tempo de contarmos uma nova versão?
É urgente mudar este contexto e dar visibilidade a tantas mulheres (e homens) que, ao contrário do significado do dicionário e de tantas histórias e filmes, se dedicam a crianças e jovens que, apesar de não serem seus biologicamente, são também parte da sua família.
Como podemos fazer isto?
Em primeiro lugar, não tendo medo de usar a palavra madrasta (ou padrasto). É frequente ouvirmos boadrasta ou mãedrasta, na tentativa de conferir um significado positivo à palavra ou reconhecer um papel positivo à pessoa a quem nos referimos. Mas será que precisamos disto? O início da palavra madrasta não deriva da palavra «má». Na verdade, madrasta tem origem na palavra latina mater, matris, que significa mãe. Dito isto, não, não precisamos de mudar a palavra, mas, sim, mudar o significado que imediatamente lhe associamos. Para isso acontecer, precisamos não só da participação ativa de madrastas e enteados na normalização destas figuras, mas de toda a sociedade.
Em segundo lugar, mudando também em nós a forma como habitualmente vemos estas figuras. Quantos de nós já repetimos, “mas a X não é tua madrasta, trata-te tão bem!”? Foram muitos anos a ouvir sempre a mesma narrativa. Serão precisos outros tantos para a mudar. Acredito que lá chegaremos sobretudo porque as nossas crianças e jovens terão um papel preponderante nesse sentido porque também elas quererão arrumar nos seus corações aquelas pessoas com quem também vivem e criam laços e far-nos-ão cada vez mais pensar sobre este tema. Afinal, se madrastas e padrastos são pessoas que vêm somar à vida deles, porque têm de as subtrair quando têm de nomear as pessoas da sua família?
Contribuiremos, sem dúvida, para a mudança se abordarmos o tema com as nossas crianças e jovens, convidando, desde logo nas escolas, à reflexão sobre as várias composições familiares. Sim, existem as famílias a que comumente chamamos “tradicionais”, mas existem também (e entre tantas outras configurações) as famílias recompostas, onde aos pais e mães se juntam madrastas e padrastos e, tantas vezes, os filhos destes. Mesmo que o sangue os separe, há certamente outros laços que os unem.
Sejamos todos parte desta mudança porque todos fazemos parte de uma Família (independentemente da sua configuração)!
SUGESTÃO DE LEITURA
Nos contos infantis as madrastas são sempre más. E na vida real, será que são assim? Através da uma linguagem escrita e gráfica simples e familiar, A minha madrasta ajuda a quebrar preconceitos e a aprofundar laços entre madrastas, padrastos e enteados/as.
A pequena Teresa está confusa e apreensiva por reconhecer que nos contos infantis as madrastas são sempre más. Afinal, a Teresa tem uma madrasta, chama-se Joana. Será que a Joana também é má? Com ajuda da mãe e da Joana, Teresa liberta-se desta preocupação e decide contar a sua própria versão da história sobre as madrastas. No nosso coração há sempre lugar para mais alguém. E no teu também lá cabe a tua madrasta, mais uma pessoa na tua família que te dará colo, carinho e amor. Mais amor só pode ser uma coisa boa, não é?