Um Natal em palácios separados

O Natal também é celebrar a infância, e não há dúvida de que há qualquer coisa que se perde quando o amor dos pais acaba. As festividades estão a aproximar-se, e o clímax desta época é o dia de Natal, em que, habitualmente, toda a família se reúne e celebra junta. Mas e se, ao invés de marcar o nascimento de Jesus, o Natal enaltecer o nascimento de uma nova família, porque agora os pais já não estão mais juntos?

Viver em palácios separados (como diria a autora Virginia López no seu livro E viveram felizes para sempre… em palácios separados) já é difícil no dia a dia para qualquer família. Conseguem imaginar como será para as crianças encarar a desilusão sentadas à mesa da consoada? Um gélido arrepio percorre-lhes a espinha com o confronto do que se partiu e nunca mais voltará a ser igual.

As crianças estarão habituadas a determinados rituais que já não serão possíveis.

Talvez sejam as memórias e os rituais os que mais atraiçoam o coração na hora de celebrar o Natal. Decerto que as crianças estarão habituadas a determinados rituais que já não serão possíveis e serão inundadas de memórias, muito sensoriais até, que as farão torcer o nariz perante a realidade à sua frente – seja o cheiro do peru confecionado pela avó paterna, o sabor e a textura do arroz-doce da mãe, a estética da árvore de Natal montada pelo pai ou a gargalhada do avô materno.

Como não ficar triste por deixar para trás algo que vivemos a nossa vida inteira? Mesmo que essa vida inteira sejam apenas 6 anos. É importante validar essa saudade e ajudá-las a reconhecer esses sentimentos, e garantir-lhes que não ficamos desiludidos por saber da sua tristeza ou por ampararmos a sua zanga.

A zanga tende a estar tão ou mais presente do que a tristeza nestas celebrações, porque, no final de contas, estar zangado tende a ser mais fácil do que estar triste. Ora, esta zanga é muitas vezes dirigida ao outro, àquele que traz o novo, que parece querer reescrever uma história que as nossas crianças nunca quiseram que fosse reescrita. É importante salvaguardarmo-nos enquanto novo elemento da família, mostrando que, de modo nenhum, procuramos tirar o lugar daquele que parece que vimos substituir.

 

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No que diz respeito à família, não há substituições, só acrescentos, pelo que é importante reforçar, junto das crianças, que essas memórias do Natal ficarão para sempre guardadas dentro de si (como acontece com as linhas que ficaram guardadas no fio do papagaio no livro O pescador de Nuvens) e que é normal ficar triste por saber que não se irão repetir.

Sendo um dia em que se sente tanto a falta de quem não está, poderá ser importante não a evitar no nosso discurso. Ter presente quem falta durante a noite, nas histórias que contamos, na comida que fazemos, na prenda que sorrateiramente está debaixo da árvore de Natal e que dá presença à sua ausência, é uma forma de tirar as nossas crianças dos inevitáveis conflitos de lealdade e de lhes dar permissão para viverem a sua saudade connosco.

Integrar diferentes rituais é uma oportunidade de potenciar a identidade da (nova) família.

Os rituais das famílias mantêm a familiaridade, transmitem segurança e ajudam cada elemento a sentir-se integrado. Se, por um lado, essa familiaridade está inevitavelmente ameaçada pela separação dos pais, por outro, é também através desses rituais que se pode criar um novo “familiar”. Integrar diferentes rituais é uma oportunidade de potenciar a identidade da (nova) família e criar memórias coletivas. Isto é, admitir que não será possível fazer um arroz-doce igual ao da mãe, mas que podem procurar uma receita online e fazê-la em conjunto; admitir que não costumam ter bolo-rainha na mesa, mas que podem integrá-lo, já que era habitual na outra casa; saber que há quem abra as prendas às 00:00 e quem o faça logo a seguir ao jantar, mas encontrar um horário intermédio, pode ser a solução.

O Natal é também celebrar a infância, e não há dúvida de que há qualquer coisa que se perde quando o amor dos pais acaba. Há qualquer coisa da inocência de uma criança que não será mais igual e há, provavelmente, um desejo que o Pai Natal nunca poderá realizar.

Esta que é uma ilusão omnipotente das nossas crianças, a de que há quem as conheça tão bem que consegue adivinhar e conceber todos os seus desejos, que é muito importante para o seu crescimento e que ficará para sempre um pouco mais aquém pela frustração de que nem todos os seus desejos poderão ser satisfeitos.

O Natal é uma época de família, e custa encarar a nossa quando ela não é aquilo que idealizámos.

Ainda assim, os pais e os novos elementos da família recomposta devem esforçar-se, uma vez que a troca de presentes tem este valor simbólico associado, que ganha ainda mais peso neste cenário. A troca de prendas permite criar este espaço intermédio onde se vai tecendo os laços afetivos. Não é um momento para “comprar” o amor das crianças, mas um momento para mostrar que as conhecemos, que as ouvimos e que elas continuam a ter um lugar dentro de nós ou que, pelo menos, estamos preparados para criar esse lugar para elas.

O Natal é uma época de família, e custa encarar a nossa quando ela não é aquilo que idealizámos. Não nos podemos esquecer que, apesar do casal amoroso ter terminado, serão para sempre um casal parental. É difícil para as nossas crianças viver este luto e encará-lo, e tudo aquilo que ele significa, mas para nós, adultos, também não é fácil, e decerto que despertará muitos sentimentos (contraditórios até!) dentro de nós. Todos os sentimentos são válidos e devem ser acolhidos, ainda que as palavras possam falhar, com um abraço. Lembremo-nos de que os lutos não se fazem, vão-se fazendo… e este é um que levará o tempo de cada um a sarar!

 

 Sugestões de leitura 

O divórcio pode ser um processo complicado. Conheça algumas sugestões de leitura para ajudar as crianças e os pais a lidarem com esta situação e com a nova estrutura familiar que daí possa surgir.

Para os filhos...

O novelo de emoçõesHistórias para adormecer em dias difíceisE viveram felizes para sempre... em palácios separadosA minha madrasta

 

Para os pais...

O seu filho precisa de siMente EntreabertaEducar com MindfulnessPequenos humanos, grandes emoções

 

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