Quem são os amigos imaginários do meu filho?

A ideia inicial é que a criança está a gozar com os pais, a provocá-los. Depois, que está a mentir ou a querer enganá-los, ou a insinuar que eles, pais, o deveriam levar algures ou a casa de alguém. Finalmente, os pais têm receio de que seja um sinal ou sintoma de doença, nomeadamente de alguma perturbação mental ou psicose. Calma. Há uma explicação para tudo.

Muitos são os pais que se confrontam com este tipo de situações, que parecem surgir de repente, do meio do nada.

Uma coisa é certa: os amigos imaginários existem. E existem mesmo, não é apenas na cabeça da criança — ou, antes, claro que é, mas a dimensão do fenómeno tem um alcance muito superior a isso.

Antes dos 6 anos é difícil estabelecer uma fronteira clara entre a realidade e a fantasia, e quase que me atrevia a perguntar se isso chega realmente a acontecer e se nós, adultos, não nos agradamos também com uma certa confusão, em dados momentos, entre estas duas evidências.

Os amigos imaginários costumam «nascer» por volta dos 3 anos e podem manter-se até aos 6. Com largas variações. Mas sempre com uma constante: existem. E a negação da sua existência é um rude golpe para as crianças.

A função dos amigos imaginários

Um amigo imaginário é uma defesa. Se o pai ou a mãe partem, ele também parte com o amigo ou para «casa» dele. Como quem diz: «Não vou sofrer, não vou sentir a ausência, não vou chorar, porque também eu vou partir». A angústia é mais para quem fica do que para quem parte.

O amigo imaginário é, pois, um escape normal e saudável para o stress. Quando tem o seu lugar próprio e não interfere com os amigos reais — ou seja, quando a criança faz facilmente a clarificação das águas —, não há qualquer motivo para ter receios de que algo de «extraterrestre» se possa estar a passar.

Será que é normal ou ficção científica?

É normal! Não prejudica ninguém e é um excelente fator protetor, emocional e psicológico.

O aparecimento do amigo imaginário pode ter várias origens. O que importa é pensar que faz parte da fantasia e da imaginação e que a distinção entre este mundo e o da realidade será progressivamente feita — mas com calma, dado que, além de uma potencial confusão entre estes dois mundos, há um caminho de segurança a construir, o qual depende de cada um e do contexto em que vive.

O amigo imaginário ajuda a combater os medos. É forte e é amigo (como o seu nome indica) e protege. Não depende de outrem, se não da criança, e esta ainda não desenvolveu a parte de si mesma que pode servir de apoio e contraponto para os seus sentimentos.

As crianças começam a brincar ao «era uma vez» ou «faz-de-conta» desde muito cedo, por volta dos 2 anos. E fazem-no imitando frases e atitudes dos adultos, embora a reprodução desses momentos não seja fácil e fuja ao seu controlo. Os amigos imaginários são mais controláveis e estão sempre à mão.

Não faltam nem falham, como os adultos, os pais e os irmãos. São (para algumas crianças) um enorme fator protetor, sobretudo em momentos de stress, de separação, de ausência.

Os amigos imaginários também ajudam a criança a lidar com a solidão — é uma presença de conforto, securizante, que ajuda a lutar contra os medos.

Metade das crianças, a partir dos 2 anos, tem amigos imaginários. Até pode ser para colmatar o hiato de um irmão que não têm, ou um que perderam, para poderem ter um amigo que, no fundo, se forja um pouco à sua vontade. Às vezes os amigos imaginários ajudam a experimentar comportamentos que a sua ética diz não serem os melhores. Mais, o amigo sempre pode portar-se mal, dado que tem «as costas largas», coisa que uma criança não pode fazer — este «desafio à ética» é importante.

É recomendável que os pais reflitam sobre o assunto e tentem perceber o que a criança quer expressar através do amigo. O que é que o amigo diz? O que é que ele sente? Quais as suas frustrações? Tudo isso ajudará a entenderem melhor o vosso filho.

Nunca se deve ridicularizar a criança ou dizer taxativamente, do alto da nossa arrogância de adultos que «isso é tudo um disparate». Disparate será não perceber que os amigos imaginários existem mesmo. São imaginários, mas isso não impede que existam. Não são alguns dos nossos amigos mais fugazes e menos presentes e fiéis do que esses?

Como lidar com estes amigos?

O amigo imaginário é um assunto do foro íntimo da criança e deve ser gerido por ela. Por essa razão não deve ser trazido para a praça pública.

Os pais não devem dar demasiada importância ao assunto, embora o equilíbrio entre não desfazer o mito e não alinhar na novela seja por vezes complicado, mas é a única atitude eficaz e benéfica. Um dia a criança «matará» o amigo, mas apenas no momento próprio e sem dor.

A atitude dos pais deve basear-se em vários fatores:

• Ter a consciência de que é um fenómeno normal.

• Não negar a existência, tipo «Tu estás parvinho?», «O “não sei quantos” não existe.» Deve responder -se com «Hum», «Sim», «Que bom», «Ainda bem» «Ai sim?» — frases curtas de aprovação, mas não demasiadamente intrusivas.

• Não se deve, também, alimentar demasiado a ideia, procurando saber todos os pormenores do amigo.

• É bom dizer «Um dia era engraçado escreveres isso ou fazeres um livro de desenhos com o teu amigo» — no fundo, uma maneira de aproximar a criança da realidade, mas de um modo soft e sem prazo marcado.

• Os pais têm de sentir que este é um modo extremamente inteligente e criativo de a criança se defender e criar fatores protetores.

• As crianças podem também usar os amigos como objetos de descarga de sentimentos menos bons, como a raiva ou a angústia.

• As conversas tidas com os amigos imaginários, e toda a relação que têm com eles, deverão fazer com que os pais reflitam um pouco sobre o que os filhos expressam, os seus medos e o que eles, pais, poderão corrigir e apoiar.

• Se os amigos se mantêm após os 6 anos, se a relação com eles se torna demasiado intensa fazendo esquecer a realidade, então a ajuda de um psicólogo será bem-vinda.


O faz-de-conta, tal como a oposição, a sorte e o azar e a vertigem, são as quatro componentes de qualquer atividade humana. Do jogo à política. A capacidade de fantasiar, imaginar situações, progredir devagar preparando a realidade e tantas outras coisas mais fazem com que os amigos imaginários tenham um papel fundamental. Não é obrigatório tê-los, mas não faz mal nenhum tê-los.