11 hábitos de pais que procuram ser conscientes

Ando na jornada da parentalidade há mais de 15 anos. Todas as fases pelas quais os nossos filhos passam têm o seu encanto, mas nada me fascina como a adolescência.

Quando a minha filha era muito pequena, às vezes imaginava como seria quando ela fosse adolescente: como seriam as nossas conversas, como seria a nossa relação, como seria ela… E cá estou, a ter aquelas conversas e aquela relação sobre a qual fantasiava. E não poderia estar mais feliz. Claro que eu e a minha filha temos os nossos momentos sombrios. Somos muito parecidas em imensas coisas, algo que às vezes parece uma maldição, pois todos aqueles aspetos que procuro esconder em mim são espelhados ¬- e nem sempre é fácil. Mas se parar, respirar e observar, alinho-me rapidamente com a minha intenção e sei o que fazer para reconectar e continuar a assumir responsabilidade pela nossa relação. E assumir responsabilidade pela relação é a melhor “ferramenta” que tenho para tudo que diz respeito à minha filha (e aos meus filhos). Para poder assumir essa responsabilidade, procuro ter alguns hábitos e pô-los em prática diariamente. Digo “procuro ter” e não “tenho”, porque se dissesse outra coisa estaria a mentir! Não sou uma mãe consciente a toda a hora, mas procuro ser uma, tenho essa intenção bem clara.

Ao escrever Educar com Mindfulness na Adolescência resolvi partilhar esses hábitos, e aqui vai esse trecho do livro, um sneak peak daquilo que vem aí:

1. CUIDAR DE MIM

Em primeiro lugar, cuido da relação que tenho comigo própria. A importância primária do meu autocuidado nem sempre foi óbvia. Mas a determinada altura percebi que, quanto mais consciência e conhecimento tiver em relação a mim mesma, melhor é a relação que estabeleço com o outro e maior será a minha capacidade de ajudá-lo a crescer e a desenvolver-se. Carl Rogers partilhou numa das suas obras algumas palavras que ressoaram imenso em mim e que me fizeram realmente entender como o autocuidado é um bom princípio, tanto a nível pessoal como profissional. Rogers falava em “relações de ajuda” (que podem ser, por exemplo, entre terapeuta e paciente ou entre pai e filho), dizendo que: “São aquelas criadas por uma pessoa psicologicamente madura. Por outras palavras, a minha capacidade de criar relações que facilitem o crescimento do outro como pessoa independente é uma medida do desenvolvimento que eu próprio atingi. De certa forma, esta é uma ideia perturbadora, mas é igualmente fecunda e estimulante. Isto mostra que, se estou interessado em criar relações de ajuda (ou relações conscientes, nota minha), tenho em mãos uma tarefa apaixonante para toda a vida que ampliará e desenvolverá as minhas potencialidades em direção à plena maturidade.”

2. ACEITAR

Procuro relacionar-me com os meus filhos tal como eles são, e não como gostaria que eles fossem. Procuro relacionar-me com o que são em cada momento, tentando ver para além do comportamento que estão a ter naquele instante. Mais uma vez, as palavras de Carl Rogers fazem todo o sentido para mim: “As pessoas são tão bonitas como um pôr do sol, se as deixarmos. Quando olho para um pôr do sol, não digo: menos laranja no canto direito, por favor. Não tento controlar um pôr do sol. Limito-me a observar o fenómeno, maravilhado.” Imagine que tem estas palavras na sua mente quando se relaciona com um jovem que o está a desafiar. É incrivelmente possibilitador!

3. MOSTRAR QUEM SOU

Mostro quem sou. Não procuro ser perfeita. Admito e peço desculpa pelos meus erros. Falo sobre as minhas emoções, necessidades, opiniões, pensamentos e limites. Permito-me ser vista pelos meus filhos tal como sou, sem máscaras.

4. VER INTENÇÕES POSITIVAS

Parto sempre do princípio de que as intenções dos meus filhos são positivas. Entendo que o resultado do comportamento que estão a ter possa ser negativo, mas sei que por detrás existe uma intenção positiva. Essa intenção, normalmente, tem que ver com as necessidades que estão a procurar colmatar naquele momento, e cabe-me ajudar a transformar a intenção positiva numa ação positiva nos momentos em que eles não o consigam fazer sozinhos.

5. ACREDITAR

Acredito que os meus filhos fazem sempre o melhor que podem com os recursos que têm disponíveis a cada momento. Se não estão a fazer o que eu acho que seria melhor, é porque naquele instante não conseguem fazê-lo. Este hábito e pressuposto pode ser difícil de integrar e entender à primeira, e às vezes “sabemos” que o nosso filho “sabe/consegue melhor” porque já o testemunhámos no passado ou porque temos expectativas sobre as suas capacidades. No entanto, acreditar ou não nesta ideia faz uma enorme diferença na relação que criamos com o outro. Acreditarmos que alguém faz sempre o seu melhor não quer dizer que concordemos com todo o tipo de comportamento; quer dizer que conseguimos ver novas estratégias e soluções para lidar com a pessoa, mais respeitadoras e possibilitadoras. Permite-nos sentir compaixão e amor incondicional e ter realmente a oportunidade de ajudar.

6. OUVIR

Das coisas mais valiosas numa relação é a capacidade de ouvir e a sensação de ser ouvido. Procuro ouvir mais do que falar. Penso muitas vezes no que um professor uma vez me disse a propósito de eu ser muito faladora: “Teres dois ouvidos e uma boca significa que deves ouvir o dobro do que falas!” Claro que, às vezes, esqueço-me desse facto. Mas sei por experiência que ouvir o dobro (ou mais) do que se fala é fundamental para criar a conexão e a confiança necessárias para uma relação saudável e consciente com o nosso adolescente. Recorrendo uma vez mais às palavras do mestre Carl Rogers: “Quando uma pessoa percebe que foi verdadeiramente ouvida, os seus olhos enchem-se de água. E acho mesmo que são lágrimas de felicidade. Como se dissesse: ‘Graças a Deus alguém me ouviu. Alguém compreende o que estou a experienciar’.”

7. NÃO JULGAR

Sei que os meus filhos não são o seu comportamento, logo não os julgo por isso. Não tenho a intenção de gerir ou mudar o comportamento deles, pois sei que assim não estaria a influenciá-los, mas a manipulá-los. E a manipulação não é um ingrediente a incluir numa relação consciente. Procuro antes entender o comportamento, ver o que está por detrás do mesmo para identificar as necessidades e as emoções que estão a exprimir, e é aí, com essa informação como base, que escolho a minha ação e me foco em ajudar a preencher as necessidades e reconhecer as emoções.

8. SER FLEXÍVEL

Sei que a melhor forma de influenciar positivamente os meus filhos (de acordo com as minhas intenções como mãe) é ser flexível na minha forma de ser, estar e agir. Ser flexível significa ter a capacidade e a vontade de levar em conta tanto o desenvolvimento do seu filho como o seu próprio desenvolvimento, em vez de estar preso à ideia de ser “consistente” e fazer sempre igual. Quando sou flexível na minha comunicação, na minha forma de conectar, na minha forma de agir, nas estratégias que utilizo, aumento exponencialmente a possibilidade de influenciar e receber de volta a colaboração dos meus filhos. Este pressuposto pode ser muito difícil de aceitar, principalmente nas relações pais-filhos em que exista uma ideia fixa de autoridade e obediência. Se realmente quisermos ter uma boa relação, estas ideias antigas de pouco nos servem. A questão da flexibilidade tem que ver com a ideia da teoria sistémica de que a pessoa com mais opções e escolhas de comportamento vai controlar/ter mais influência no sistema. Cada vez que limito as escolhas do meu comportamento (cada vez que insisto no mesmo comportamento/na mesma estratégia) perco a minha influência. Quanto mais opções houver, maior será a probabilidade de criar um bom encontro. Também me lembro, muitas vezes, das palavras de Albert Einstein, que dizia algo como: “Fazer a mesma coisa várias vezes e esperar um resultado diferente é a definição de insanidade mental.”

9. CRIAR UM BOM ENCONTRO

A minha intenção, quando comunico e interajo com os meus filhos, é criar um bom encontro. Um bom encontro significa um bom diálogo, em que haja espaço para todas as emoções, necessidades, opiniões e pensamentos. Num bom encontro não estou a tentar conseguir algo por parte do outro, não quero mudá-lo, alterar o seu comportamento ou conseguir que ele me obedeça ou faça algo em particular. Podem acontecer algumas dessas coisas, mas apenas como consequência natural desse bom encontro. Quando não consigo criar um bom encontro, utilizo a informação que obtenho através da observação do meu filho e do contexto para modificar a minha comunicação e o meu comportamento.

10. CONFIAR

A confiança é a chave. Quero confiar e não controlar. Começo sempre por confiar nos meus filhos: nas suas capacidades, nas suas competências, no seu desenvolvimento, no seu comportamento, na sua comunicação, nas suas emoções e sentimentos… Existe a possibilidade de perder a confiança numa determinada situação. Mas essa primeira perda é temporária. Há sempre uma segunda oportunidade com a confiança, e só a partir daí é que considero algum tipo de consequência diferente. Muitos pais são viciados no controlo. Mas o controlo é sempre a última escolha. Faz parte da natureza humana resistir ao controlo, e é precisamente por isso que, mais cedo ou mais tarde, ele se torna completamente ineficaz.

11. SER GENEROSA

Procuro ser generosa na relação com os meus filhos. Isso significa que quero dar sem esperar nada em troca. Obviamente nem sempre consigo fazê-lo, mas é essa a minha intenção. Ser generosa significa que entendo que todo o investimento que faço na relação com os meus filhos é feito por eles e pela nossa relação, não para obter alguma coisa. Não utilizo os meus filhos para preencherem os meus sonhos. Não espero nenhum comportamento em particular nem que seja demonstrada gratidão. Praticar a generosidade nem sempre foi fácil para mim, mas posso dizer que o resultado tem mudado a minha vida. A consequência mais importante não tem que ver com o comportamento dos meus filhos, tem que ver com a minha saúde emocional e a autoestima dos meus filhos. Quanto mais generosa consigo ser, melhor me sinto. Quanto melhor me sinto, mais capacidade e recursos tenho para criar bons encontros e boas relações.

Convido-o agora a tirar alguns minutos para refletir sobre estes onze pontos. Para continuarmos, esta reflexão é realmente importante. Principalmente se sente, no seu diálogo interno, que o que leu esbarra com ideias antigas, com argumentos opostos e desculpas para não agir de forma diferente. Se sente que necessita de entender melhor o que estes pontos significam, como implementá-los na prática, então o Educar com Mindfulness na Adolescência é definitivamente para si!