6 sugestões para tornar a leitura em voz alta mais expressiva

A leitura expressiva consiste na interpretação oral de um texto realizada com convicção. Está para além da mera leitura em voz alta, pois pressupõe que o leitor encarna a(s) consciência(s) manifestada(s) no texto, assumindo como suas as vozes que nele falam.

Quem lê expressivamente pronuncia as frases como se estas estivessem a ser ditas pela primeira vez, criando, portanto, a ilusão de que não está a ler. A partir do 4.º ano do ensino básico, é suposto que os alunos sejam capazes de fazer leituras expressivas de textos literários, pelo que se torna importante que, ao lerem para eles, os pais forneçam bons exemplos a esse nível.

A leitura expressiva é muito importante no treino da competência leitora, pois solicita um maior envolvimento com o texto, um esforço mais consciente para o compreender (que normalmente implica a sua releitura), bem como a resolução de dúvidas de pronúncia, vocabulário, etc., uma vez que estas impedem uma interpretação oral adequada. Do ponto de vista do bem-estar emocional do leitor — desde que a leitura seja feita com tempo e sem pressões — permite “viver” o texto, sentindo o prazer da evasão. Trata-se de um modo lúdico e criativo de ler que favorece o despertar do gosto pela literatura.

Assim, é fundamental que as crianças possam contar com a ajuda dos professores e dos pais, que devem criar condições favoráveis à prática da leitura expressiva com frequência e proporcionar-lhes exemplos modelares, nos quais elas se possam inspirar. As sugestões seguintes pretendem, precisamente, ajudar os pais a lerem melhor para os seus filhos.

6 sugestões para tornar a leitura em voz alta mais expressiva

1 - Conheça bem a história

Só a familiaridade com o texto permitirá interpretá-lo como se tivesse sido escrito por si. Sem o ter lido todo, uma ou mais vezes, dificilmente terá segurança e à-vontade para dizer todas as frases sem hesitações e sem enganos, com entoação adequada à pontuação e aos estados de espírito subjacentes ao discurso. O próprio facto de saber como a história acaba ajudá-lo-á a decidir qual o tom com que deve começar a lê-la.

Para iniciar os mais pequenos na leitura em voz alta, escolha livros com textos curtos e acompanhados de imagens que ilustrem a narrativa. O novelo de emoções poderá ser uma boa opção! Para além de uma linguagem simples, permite trabalhar a gestão das emoções com as crianças.

 

2 - Defina as vozes das várias personagens e do narrador

Depois de conhecer bem o texto, decida qual será o timbre próprio de cada uma das vozes que nele falam. Inspire-se em filmes, peças de teatro, etc., para as vozes mais “convencionais”, ou opte por vozes mais originais, que se coadunem com a sua capacidade vocálica. Não se esqueça de ser coerente e fazer a mesma voz para cada personagem desde o início até ao fim do texto!

Conheça algumas histórias com diversas personagens e dê asas à imaginação!

O livro mágico do avô João  A Princesa da Chuva  O homem que engoliu a Lua

 

3 - Ajuste a velocidade de leitura ao texto

A velocidade da leitura deve estar de acordo com o tipo de texto (a aventura Está uma cobra na minha escola! de David Walliams, por exemplo, será mais impactante se for lida com um ritmo mais acelarado) e, claro, com as circunstâncias, os sentimentos e a personalidade de quem fala, no caso das narrativas. Por exemplo, é natural interpretar a fala de uma tartaruga com uma voz arrastada, que demora a acabar o que tem para dizer, e a fala de um ratinho assustado mais rapidamente, talvez mesmo “comendo” alguns sons pelo meio.

 

4 - Acompanhe a leitura com expressões faciais

Além de tornarem as histórias ouvidas mais divertidas e entusiasmantes, as expressões faciais que vamos fazendo enquanto falamos alteram a qualidade da nossa voz, podendo torná-la ainda mais ajustada ao que é dito. Um franzir de sobrancelhas com a boca semicerrada adequa-se a uma fala ameaçadora, dita “entre dentes”, enquanto um ar de espanto e a boca bem aberta são apropriados para uma fala surpreendida. A peça Os Piratas será um constante desafio à sua capacidade para “fazer caras”!

 

5 - Anime a leitura com alguns sons

Um bater de porta, um ranger do soalho, o uivo do vento ou de um lobo, uma explosão ou o pingar de uma torneira são exemplos de sons que podem ser referidos nos textos literários e que os pais, ao lerem para os filhos, podem tornar mais vívidos reproduzindo-os por meio de onomatopeias sugestivas. Não é preciso tornar a interpretação fiel dos sons uma constante, basta eleger alguns deles para introduzir alguma novidade na leitura.

 

6 - Dinamize a leitura usando objetos

O uso de alguns objetos, sem cair no exagero, é uma forma simples e eficaz de dar mais dinamismo à história lida. Não é preciso usar fantoches, marionetas ou sombras chinesas — recursos que poderá não ter à sua disposição. Se a história refere um objeto vulgar, como uma flor, uma colher ou uma sacola, tenha-o à mão para surpreender a criança e criar um efeito teatral mais envolvente. Os Contos de Andersen estão cheios de oportunidades para dinamizar a leitura através do uso de objetos, como a ervilha ou os sapatos vermelhos.

Quando não dispõe de objetos característicos da história pode ainda optar por livros com objetos e cenários pop-up.

Gosto de ti (quase sempre)

 

Pôr em prática estas estratégias constitui o caminho mais direto e simples para conseguir expressividade na leitura, mas é preciso não esquecer que esta também exige uma predisposição e uma vocação que nem todos os pais têm, ou nem sempre sentem no momento de ler.

E, para além de ser preciso vencer a resistência ao fingimento que a teatralidade da leitura expressiva implica, também é preciso ser um bom leitor — no sentido da fluência na descodificação e da competência linguística em geral — para ser um leitor expressivo. No entanto, esta é uma habilidade que os adultos também podem treinar e desenvolver, pois os benefícios que traz (a quem lê e a quem ouve) compensam largamente o trabalho que pode dar!