2017-07-29

OPINIÃO | Reutilizar sem utilizar?

Diretor da Porto Editora lembra que os manuais já têm período alargado de vigência.

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Parecerá paradoxal um editor escolar escrever sobre algo que, à partida, surge como uma ameaça à sua atividade. Mas então quebre-se já o mito: a reutilização existe há muitos anos e os editores têm sabido conviver bem com essa realidade, ou não se desse o caso de, desde o início da década de 90 do século passado, os manuais terem um período alargado de vigência, por proposta dos próprios editores - e assim se quebra mais um mito, o da mudança de livros todos os anos.


Com o que não convivo bem é com a desvalorização do manual escolar enquanto instrumento de aprendizagem, da importância que subjaz à sua utilização efetiva por parte do aluno para um percurso sólido e de sucesso. Porque sei o contributo relevante que os livros assumem no crescimento e na formação dos nossos jovens.

O princípio da reutilização não pode, não deve, impedir que os alunos usem livre e plenamente os manuais, que tirem o melhor partido do trabalho científico e pedagógico realizado pelos autores e editores. O desenvolvimento educativo, pessoal e social do aluno assenta, também, na relação que estabelece com os manuais e demais recursos pedagógicos. Criar barreiras artificiais a essa relação vai dificultar todo o processo de aprendizagem.

ntes de reutilizar, o manual é para usar. Todos os dias. Para estudar, ler e reler, consultar as vezes que forem necessárias, anotar, sublinhar, relacionar com outros recursos didáticos. Faz sentido querer impedir um aluno de usar técnicas de estudo tão eficazes como o sublinhar e o anotar? Quantos de nós não o fizemos nos tempos de estudantes e o temos feito ao longo da vida, mesmo nas nossas leituras de pura fruição? Não é por acaso que mesmo os livros em formato digital têm como principais funcionalidades sublinhar e anotar...

A propósito do digital, há quem defenda a substituição dos manuais por soluções tecnológicas. Pois bem, se amanhã essa opção fosse tomada, os editores escolares - e a nossa editora em particular - estariam bem preparados para esse cenário. Contudo, está por provar que esse caminho seja o mais benéfico para as aprendizagens dos alunos. O que se tem tornado evidente - e a realidade em vários países prova-o - é que o digital per si não assegura o mesmo grau de eficácia e de solidez nas aprendizagens que é oferecido pelo manual; e que será na complementaridade entre o digital e o manual em papel, na junção do melhor dos dois mundos, que se encontrará no futuro próximo o melhor caminho.

Respeitar o livro passa por usá-lo, explorá-lo, tê-lo como companheiro de aprendizagem e crescimento intelectual e social. Num país com fracos índices de leitura, e numa época em que os ambientes tecnológicos e virtuais consomem a atenção das crianças e jovens, estamos a dizer-lhes para não tocarem nos livros - é essa a mensagem que queremos passar?

Transformar os valores de partilha num dogma absoluto é desvalorizar objetivos que todos encaramos com primordiais: promover o gosto pela aprendizagem, pelo conhecimento, contribuir para uma educação responsável e eficaz. Haja o bom senso de se pensar primeiro no desenvolvimento dos nossos alunos.


Vasco Teixeira
Administrador da Porto Editora


Artigo publicado no semanário Expresso, no dia 29 de julho de 2017.

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