2023-03-06

Entrevista a Rafael Gallo

Vencedor do Prémio Literário José Saramago 2022, «Dor Fantasma» narra a angústia de um pianista virtuoso, tragicamente caído em desgraça

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 «A ânsia de alcançar a perfeição cruza-se com todas as fragilidades humanas», define Pilar del Río sobre Dor Fantasma, obra de Rafael Gallo. Aquele que foi o último manuscrito a chegar às mãos do júri do prémio, em quase meio milhar de candidaturas, celebra a estreia no panorama literário português do autor paulista já com dois romances editados, por sinal, ambos galardoados no Brasil. Uma voz que promete reverberar com igual intensidade deste e do outro lado do Atlântico. 

 

 

 

Dor Fantasma é a obra vencedora do Prémio Literário José Saramago. Que importância tem para si tal distinção? Que expetativas tem? 

Tenho uma relação afetiva muito forte com ele. Em primeiro lugar, porque alguns dos meus livros e autores preferidos foram vencedores do Prémio. A inscrição «Vencedor do Prêmio José Saramago», nas capas dos livros, é uma marca que sempre me causou uma espécie de assombro. Mas um assombro bom. Além do mais, o próprio Saramago é dos meus escritores preferidos, então tudo se conecta. É uma corrente da qual sempre participei como leitor e à qual sonhava ligar-me como escritor. O Prémio é, acima de tudo, esse sonho realizado. E as expectativas, para além desse sonho, são de que o livro faça jus quando encontrar seus leitores.    

 

«A inscrição “Vencedor do Prêmio José Saramago”, nas capas dos livros, é uma marca que sempre me causou uma espécie de assombro. Mas um assombro bom.» 

 

 

 

O livro narra a história de um pianista, professor. Qual é a relação do Rafael com a música? 

Desde criança tenho alguma proximidade com a prática musical, em especial na igreja que frequentava. Foi na adolescência que essa relação se intensificou, por ser daqueles garotos que adoravam bandas de rock e queria ter a minha própria [banda]. Aprendi a tocar, compunha minhas canções e levei a brincadeira um pouco mais longe, ao deixar outros cursos universitários para me formar na faculdade de música. Trabalhei um tempo com bandas sonoras para o audiovisual, mas depois mudei de profissão. Hoje a música é só um hobby no âmbito prático, mas, para além disso, é sempre uma companhia. Ouço música quase o tempo todo (sim, inclusive para escrever). E, de certa forma, sinto que a minha escrita é pensada de uma forma “musical”. 

 

O protagonista Rômulo Castelo desperta no leitor sentimentos antagónicos: tanto sentimos pena como antipatizamos com ele. Esse misto de emoções foi uma intenção sua? 

Sim, e é um desafio sempre intimidante escrever com um protagonista que não será um herói por quem se torce o tempo todo. Para mim, Dor Fantasma é como ver o negativo de uma fotografia, no que se refere à empatia. São as outras personagens, ou o que Rômulo perde quanto a elas, o possível alvo de empatia maior. Como se torcêssemos pelo que o Rômulo deixa de fazer, em vez de torcer pelo que ele faz.    

 

O livro fala da necessidade de perfeição e, por outro lado, da aceitação generalizada de uma certa mediocridade em diferentes planos da sociedade. Podemos ler tal com uma crítica social? 

Sim. Essas ambiguidades e tensões são o que dão força à conexão com Rômulo, em algum grau. Quer dizer, ele pode representar um excesso de certos valores, mas os valores em si podem ser razoáveis. De um lado, é um extremismo (e nenhum extremista parte de valores absurdos, apenas os distorce e agutiza até o absurdo), mas de outro lado, tais valores podem ter alguma ressonância com nossos próprios pensamentos (o que também funciona no caso dos extremistas, infelizmente). Na cena com o motorista e o protesto dos professores, por exemplo, Rômulo exagera ao pensar somente no sublime, porém, a baixeza do motorista, ao olhar inclusive para a violência como mero entretenimento, é o outro extremo, provavelmente até mais perigoso.   

 

A vida familiar e profissional de Rômulo Castelo não é exatamente aquela que ele ambicionava, esperava, o que o desilude e faz sofrer. É perigoso sonhar ou, pelo contrário, é importante sonhar? 

Sonhar é perigoso e é também importante, como costuma acontecer com as coisas mais significativas. Creio que o Rômulo une as duas pontas dessa dicotomia: por um lado, busca algo mais elevado, algo que nos tira, como humanos, do ordinário. E grandes feitos, invenções ou mudanças, necessitam sempre de um sonho que os anteceda, que os impulsione. Por outro lado, o sonho pode ofuscar a visão, se não se mantém um olho também nas realidades que se apresentam. Rômulo, e outras pessoas, condenam-se ao colocarem o sonho como a única possibilidade de vida, como uma espécie de redução do que enxergam, em vez de ampliação.   

 

«As nossas sensações, em geral, extrapolam o caráter objetivo das coisas: aquilo que tememos parece maior do que uma régua mediria, por exemplo.» 

 

A relação pai-filho é um dos pilares do livro. Crê que os homens têm mais dificuldades de comunicação entre si, que lhes é mais difícil, até por imposição da sociedade, verbalizar certas confidências e sentimentos? 

Acho que sim, mas por conta de construção social mesmo. A Inês Pedrosa usa, num dos seus livros, uma expressão que adoro: o «analfabetismo afetivo» dos homens. E eu acho que há essa falta de formação, não só como falha, mas como projeto mesmo. Na nossa organização social, fundada no capitalismo e no patriarcado, interessa que os homens sejam força de trabalho, que produzam mais e mais capital. Por isso, há uma forte inclinação a educá-los para não se atentarem às próprias emoções, aos vínculos afetivos, aos diálogos. Somos educados para o desempenho, para a competência nas tarefas. Interessa mais ao sistema um homem que aceite, sem empecilhos, ficar meses fora de casa, a trabalho, do que um homem que diga: «não, vou ficar com meus filhos». Essa construção do universo masculino é um dos temas do livro. 

 

Este é um livro muito visual, cinemático. A Sétima Arte é uma influência na sua escrita? Ao escrever pensou numa eventual adaptação cinematográfica?  

Sim, é uma grande influência, e não só o cinema, mas também a pintura. E, claro, a literatura com a qual pude aprender também o potencial dessas construções imagéticas. Porque, no fim, creio que todas essas artes tentam encontrar maneiras de expressar o mundo de forma mais próxima a como o percebemos. As nossas sensações, em geral, extrapolam o caráter objetivo das coisas: aquilo que tememos parece maior do que uma régua mediria, por exemplo. Acho que essa busca é o que tento com as palavras também; a construção de imagens como algo mais expressivo do que o «real». E não pensei exatamente em uma adaptação cinematográfica. Quando escrevo só penso na escrita em si.   

 

 

 

 

 

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