E se na escola também se falasse de afeto?

Lembra-se dos seus tempos de escola? Muito semelhantes aos dos seus filhos, não? Verdade que agora têm quadros interativos em vez de lousas e paus de giz; mas no restante, tudo parece ter estagnado no tempo. Quando se fala de inovação na educação, meio mundo faz as malas e dirige-se a terras escandinavas. Vão investigar, testar e até copiar o sistema educativo da Finlândia, considerado dos mais avançados do mundo. Enquanto isso, pouco ou nada se sabe de um exemplo precursor que há 40 anos funciona em... Portugal.

A professora entra na sala, sobe o degrau do estrado, pousa a mala na secretária. À frente dela estão os alunos, sentados em mesas individuais, alinhadas ao longo de várias filas; atrás dela está o quadro branco onde escreve a marcador ou, nas escolas mais “modernas”, um quadro interativo. Há alunos que gostam de estar nas filas do fim, para conversarem mais à vontade. Há alunas que preferem ficar à frente, onde se ouve melhor a aula expositiva prestes a começar. Ao longo dos minutos seguintes, haverá certamente várias desatenções e bocejos. Depois, dali a uns dias, soa o alarme: “Amanhã é dia de teste!” E toca de estudar tudo o que não se ouviu ou não se compreendeu antes. Se não fosse o quadro interativo, este cenário podia ser de há vinte anos. Ou trinta. Ou cinquenta. Até cem. A educação, curiosamente, tem sido das áreas que menos evolução têm conhecido. Não falamos de evolução tecnológica, embora também pudéssemos questionar como é que a Internet ou os telemóveis não são uma ferramenta crucial das aulas atuais. Falamos de métodos, de princípios, de objetivos, até de valores. Falou-se em aulas, não foi? E se os alunos de agora, em vez de ouvirem a voz monocórdica do professor durante uma hora, tal como acontecia no tempo dos seus pais ou dos seus avós ou dos seus bisavós, aprendessem por si próprios? Pedimos desculpa mas o voo para estudar a educação na Finlândia está lotado. Em vez dessa longa viagem, propomos uma deslocação mais curta até ao norte de Portugal, a S. Tomé de Negrelos, para ver o que se faz há 40 anos na Escola da Ponte. Sim, leram bem: há quatro décadas que a Escola da Ponte ensina de forma diferente. Mas então porque é que pouca gente a conhece? Porque é que é mais famosa no Brasil do que em Portugal? Porque é que não fez escola no nosso país? Porque é que nunca a fui visitar se ela está sempre de portas abertas para receber qualquer pessoa? Pois bem, assumimos a nossa ignorância e fomos visitá-la. Não apenas por umas horas, mas sim por vários dias, ao longo de várias semanas. Andámos pelos espaços que não tinham fileiras de mesas mas sim várias ilhas onde trabalhavam grupos três a quatro alunos, auxiliados por três ou quatro professores; fomos ao ginásio ver as aulas de educação física; comemos na cantina e fizemos tempo no recreio; assistimos a coisas estranhas e extraordinárias como as assembleias de alunos, as reuniões de tutorias, os tempos de expressão artística; acompanhámos visitas, falámos com professores, bebemos café com os elementos do conselho de gestão; pedimos testemunhos aos alunos; e até acabamos a pintar as unhas dos mais pequenos para uma atividade festiva... Ao longo do tempo, enchemo-nos de dúvidas. Como era tudo tão diferente da escola do nosso tempo. Como era tudo tão diferente da escola dos nossos filhos. As perguntas geraram respostas. E as respostas geraram outras perguntas, numa espécie de questionamento permanente. A experiência foi tão enriquecedora que por lá ficaríamos, eternamente, a observar, a estudar, a reconhecer, a sentir.

Sim, a sentir. Além das dúvidas, a imersão que fizemos na Escola da Ponte também nos proporcionou sorrisos e ternuras. Por isso, na parte da escrita, prezou-se a dimensão desse sentir, dessa experiência do que é ensinar e aprender na Escola da Ponte. Procurámos perceber e transmitir o que aquela instituição, e o seu método de funcionamento, representa para um aluno, para um professor, para um assistente, para um encarregado de educação, para uma visita. Fomos sem preconceitos e encontrámos gente grande novamente apaixonada pela profissão e gente pequena a experimentar o exercício da cidadania. Fomos testemunhas da importância da relação entre os seres humanos, independentemente do papel que ocupem numa escola. Fomos alertados para o conceito de comunidade de aprendizagem. E fomos impregnados pelos afetos que se ouvem, veem, leem e sentem, por vezes até na forma de abraços ou festas na cabeça, naquela escola que devia ser na Finlândia, mas que afinal é em Portugal.

Não será altura de a conhecermos?
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