Como lidar com as birras durante as férias de verão
As birras não tiram férias. Com as rotinas alteradas, tornam-se, muitas vezes, mais frequentes. Saber como lidar com estes momentos, sem perder a calma nem ceder a tudo, pode fazer toda a diferença.
Marta Ramalho da Costa | 05-07-2026Antes de iniciarmos este tema, gostaria apenas de referir que acredito que as birras fazem parte do desenvolvimento e que, talvez, de algum modo, nunca desapareçam totalmente, apenas se modificam. Afinal, quantos adultos não amuam ou reagem exageradamente perante algo que querem muito?
Aplicando esta perspetiva nas crianças, entenda-se a birra como um momento em que a criança, ainda com poucos recursos para regular aquilo que sente, expressa a frustração, a zanga ou o cansaço através do corpo, do choro, da insistência ou da oposição. Contudo, contrariamente ao que se pensa, na maioria das vezes, a birra não é sinal de má educação nem de manipulação, mas a forma de expressão de uma criança que ainda está a aprender sobre limites, frustração e regulação emocional.
As birras podem intensificar-se quando as respostas dos adultos se tornam pouco previsíveis. Por exemplo, quando os pais, cansados, vão cedendo perante a persistência da criança e, num outro dia, com o pavio mais curto, explodem e fazem uma cena digna de Hollywood. Muitas vezes, isto acontece porque se foi varrendo a zanga para debaixo do tapete, e, quando esta se solta, o pó vem atrás, e ninguém consegue respirar convenientemente. Neste limite, a situação torna-se desorganizadora para a criança, que não reconhece os pais, e para os progenitores, que se perdem no que não queriam que acontecesse.
Quando a criança percebe que existe rigor, ou seja, que a regra não muda consoante o cansaço dos pais, o local onde estão ou quem está presente, tende a sentir-se mais segura e a escalar menos a birra.
A criança, naturalmente, não pode fazer tudo, por isso, deve existir espaço para a zanga, para o choro e para a frustração, mas também limites claros para os comportamentos que magoam e destroem. Dito de outro modo, a criança pode estar zangada, mas não pode bater; pode chorar, mas não pode destruir; pode não gostar da regra, mas precisa de perceber que ela prevalece.
Evidentemente, educar a gritar não é o ideal, todavia, os pais também não são robôs, e, após tantas tarefas do dia a dia, a bateria parental não está a 100%. Por esta razão, acredito que a solução não seja acabar com as birras durante as férias, mas atravessá-las, ajudando a criança a zangar-se sem que os adultos deixem de ser adultos.
Como proceder, então?
- Os pais devem ter linhas comuns
Adaptar-se a várias regras em simultâneo pode ser muito desorganizador para uma criança, sobretudo durante as férias, quando as rotinas já estão mais alteradas. A criança precisa de saber por que caminhos pode caminhar em segurança e quais são aqueles que escondem “bombas” capazes de deixar os pais furiosos.
Por esta razão, considero relevante que os pais tenham uma linha comum. Naturalmente, nem sempre vão pensar da mesma forma — até porque isso seria uma utopia —, mas não se devem anular perante a criança. Caso contrário, passam-lhe a mensagem de que, se insistir o suficiente, poderá convencer um dos progenitores e “ganhar” ao outro.
- As regras devem ser claras, coerentes e rigorosas
As regras devem ser claras, sem grandes discursos, mas com sentido. A título de exemplo: “não podes ir para a água sozinha; deve ir sempre um adulto contigo”, ou “o protetor solar aplica-se sempre antes de ir para a água”.
Naturalmente, não podemos querer mudar tudo de um dia para o outro, sobretudo se, até ao momento, existiram poucos limites. A coerência constrói-se ao longo do tempo e pressupõe manter a mesma regra em diferentes contextos, isto é, se ficou combinado sair da piscina às 19 horas, então é às 19h horas.
Ser bom pai ou boa mãe não é ser perfeito; é ser suficientemente bom e ajudar a criança a compreender que nem todos os desejos podem ser satisfeitos e que está tudo bem em zangar-se ou frustrar-se, mas com limites. Quando a criança percebe que existe rigor, ou seja, que a regra não muda consoante o cansaço dos pais, o local onde estão ou quem está presente, tende a sentir-se mais segura e a escalar menos a birra.
- Ser o exemplo
Gosto de pensar naquela frase tão comum: “Mentir é muito feio”. Todavia, como podemos defender esta tese se, depois, pedimos à criança para dizer à tia mais insistente que não estamos em casa?
As crianças observam mais do que ouvem e, por isso, captam facilmente as incoerências, aprendendo (mais) pelo exemplo. Se os adultos vivem em conflito constante, torna-se difícil pedir à criança que regule as suas emoções. Os pais devem assumir quando falham, pedir desculpa quando é necessário e voltar à relação.
O que evitar?
Não me parece útil ignorar a criança como quem desaparece emocionalmente. Mesmo que ela possa calar-se e cumprir o que lhe é pedido, esse silêncio não significa que tenha aprendido a regular-se; pode significar, antes, que se sentiu desamparada.
Também não ajuda negociar no auge da birra. Nesses momentos, será mais importante que os pais se mantenham como adultos saudáveis, capazes de conter a criança sem ceder ao pedido, mesmo perante o choro e a frustração.
A agressão e a destruição não devem ser permitidas. Quando a birra chega a esta fase, sobretudo se acontecer em público, acredito que o melhor será garantir a segurança da criança e das pessoas à sua volta, reduzir a estimulação e retirá-la do local. Um espaço mais reservado pode ajudar a criança a recuperar a estabilidade e a proteger os pais de uma exposição que, demasiadas vezes, apenas aumenta a tensão. Neste seguimento, não me parece útil humilhar a criança ou cobrar-lhe enquando esta ainda está desorganizada. Primeiro, ajuda-se a criança a acalmar-se; depois, explica-se o limite, nomeia-se o que aconteceu e repara-se a situação.
A tolerância à frustração é muito importante para o desenvolvimento da criança, por isso não receiem dizer “não”.
Em conclusão, gosto de pensar numa birra como uma dança; não numa dança exclusiva das crianças nem do verão, mas uma dança que acompanha todos, ao longo de todo o ano. No início, é natural que não se saiba muito bem dançar. Talvez até se pise, sem intenção, o pé do outro, com movimentos que ainda não encontraram o ritmo certo. Todavia, com treino e consistência, a dança vai-se tornando mais natural.
A tolerância à frustração é muito importante para o desenvolvimento da criança, por isso não receiem dizer “não” nem ser pais imperfeitos. Procurem, antes, ser pais suficientemente bons, capazes de manter a relação, mesmo nos momentos mais difíceis. A criança vai errar, testar limites e pisar a linha, e os adultos devem estar presentes para acolher, conter e ajudá-la a regressar a um lugar seguro.
Na vida adulta, quantas vezes erramos, pedimos desculpa e nos reconciliamos? Talvez crescer signifique aprender que podemos falhar, reparar e voltar a dançar.
Que este verão seja, para todos os pais, uma dança suficientemente boa.
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A autora
Marta Ramalho da Costa