Escola e lazer: é possível encontrar o equilíbrio?

O 10.º ano é claramente um momento de transição muito exigente. No contacto que estabeleço com muitos alunos do 9.º ano, no momento em que escolhem o curso, sou confrontada com opções profundamente desajustadas.

| 28-04-2025

«No geral, penso que tive uma boa adaptação quer na escola nova, quer na minha nova turma. Escolhi a área de ciências socioeconómicas, uma área que ninguém do meu grupo de amigos escolheu e, por isso, estava “sozinha”. (…) No entanto, com o passar do tempo fui-me sentindo cada vez mais enturmada e criei bons laços com as pessoas da minha turma.

Em relação aos métodos de estudo, notei uma grande diferença do 9.º para o 10.º ano. Os professores são bastante mais exigentes, o que é bom por um lado, mas ao mesmo tempo muito cansativo.

O ensino básico dá-nos as bases das matérias que iremos seguir no futuro, ajuda-nos a aprender a gerir o nosso tempo e a gerir as nossas relações sociais.

No 10.º ano, houve semanas em que era mais complicado conciliar a escola com o tempo de lazer, devido à grande acumulação de testes, mas conseguia estudar e à noite, por vezes, sair para desanuviar da grande tensão escolar.

Percebi que obteria melhor rendimento se, para além dos estudos, desse também importância aos meus amigos e a essa parte da minha vida que, juntamente com a escolar, me fazem uma pessoa equilibrada (…)».

Este é o testemunho real de Maria Manuel, uma boa aluna que enfrentou, no ano letivo passado, o 10.º ano de escolaridade.

Esta jovem está inserida numa família que valoriza muito a escola e que luta permanentemente pela obtenção de bons resultados académicos. A escola nunca é colocada em segundo plano porque, nesta família, ninguém duvida que o futuro, sem habilitações académicas, é ainda mais incerto!

Os alunos que terminam a escolaridade básica têm, por vezes, expectativas muito irrealistas em relação ao futuro, pois pensam que o 10.º ano será a continuidade do básico. Pelo contrário, este ano de escolaridade exige um verdadeiro salto de gigante, pois o patamar de exigência é muito mais elevado do que o anterior.

 

Não podemos falar em transição, mas sim em transições

 

Cada aluno, com o percurso que foi tecendo até ao 9.º ano, poderá viver o 10.º ano de forma radicalmente diferente dos outros.

A Maria Manuel foi sempre uma boa aluna, com métodos de estudo consistentes e que, progressivamente, se foi tornando mais autónoma enquanto estudante.

Obviamente, este percurso, marcado por um grande envolvimento académico, deixava indiciar uma transição pacífica para o secundário. O seu testemunho vem confirmar aquilo de que já se suspeitava.

Pensando agora em muitos dos alunos que finalizaram o 9.º ano e que atendi no âmbito do seu processo de Orientação Escolar e Profissional, posso antecipar que, provavelmente, terão uma adaptação muito mais difícil.

Esta minha convicção advém, por um lado, de o seu envolvimento escolar ter sido sempre diminuto e, por outro, de ter havido conteúdos académicos que se foram perdendo, devido ao facto de a escola não ter sido convenientemente valorizada.

Desta forma, muito do tempo que poderia ser aproveitado no 10.º ano como tempo de lazer poderá ter de ser gasto com explicadores que ajudarão a “tapar os buracos do passado”.

 

Como poderão os pais ajudar os filhos a vencer os grandes desafios do 10.º ano e a encontrar um equilíbrio entre tempo de estudo e de lazer?

 

Ajudá-los a gerir melhor o tempo e a definir prioridades é uma das respostas possíveis para a questão colocada.

Para que haja tempo para a realização de todas as atividades e não apenas académicas, é fundamental estruturar muito bem e aproveitar na totalidade o tempo que é definido como sendo de estudo.

A realização de um horário, que contemple as diferentes tarefas, é fundamental. Na construção desse horário dever-se-á ir refletindo sobre o que deve ser priorizado em diferentes momentos.

Um outro aspeto muito importante é ajudar os filhos a identificar desperdícios de tempo que se torna urgente combater. Por exemplo, usar o telemóvel para enviar mensagens no tempo que deveria ser dedicado ao estudo ou acordar demasiado tarde, numa manhã em que não há aulas e que poderia ser usada para a realização de uma determinada atividade.

Frequentemente, os alunos terminam o ensino básico com uma capacidade deficiente de planeamento, pelo que é fundamental ajudá-los a, progressivamente, irem desenvolvendo esta competência. Este planeamento pode passar pela realização de uma lista das tarefas académicas e de atividades de lazer a serem distribuídas pela semana.

Certamente que, com este apoio dos pais, mais estudantes poderão concluir o mesmo que a Maria Manuel: «Penso que este foi um ano muito desafiante a vários níveis. Mas são estes desafios que nos preparam para o futuro e, quem sabe, que nos fazem descobrir a nossa verdadeira vocação.»

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