Dormir sozinho: quem sai beneficiado?

Dormir na cama dos pais cumpre algumas funções emocionais, mas é necessário perceber quem está a beneficiar com esta prática: os progenitores ou a criança?

| 20-04-2026

Quando falamos sobre uma criança dormir sozinha ou com os pais, não existe certo ou errado. O problema surge quando o facto de a criança não dormir sozinha passa a ter um impacto negativo nas dinâmicas familiar e social.

Há, durante o período de desenvolvimento, necessidades diferentes: na fase neonatal, o sono ocupa, em média, 16-17 horas por dia; aos 2 anos, 13 horas diárias; dos 3 aos 6 anos, o sono diurno – sestas – vai diminuindo progressivamente; e, até aos 10 anos, as crianças precisam de dormir cerca de 9 horas. Os adolescentes apresentam mais sonolência durante o dia, deitam-se mais tarde (por motivos sociais) e, por isso, podem apresentar mais dificuldades relativas à higiene do sono.

Ao longo da infância, as crianças apresentam medos característicos de cada período do desenvolvimento, mas a maioria das crianças supera-os. As que não superam podem apresentar medos durante a rotina do sono: não querer ficar sozinhas quando se deitam, acordando frequentemente durante a noite e não conseguindo voltar a adormecer.

Os pais devem ajudar os seus filhos nesta jornada: caso a criança chame durante a noite, é importante atender ao seu pedido.

Há estudos que sugerem o papel dos pais como muito importante na evolução positiva ou negativa dos problemas de sono durante a infância, uma vez que as dificuldades que a criança apresenta têm, também, impacto no sono dos pais. O processo da regulação emocional dos pais, que é, por si só, fulcral para o desenvolvimento da autorregulação da criança, aplica-se de forma igual no desenvolvimento saudável de rotinas do sono.

Mas porquê dormir sozinho quando pode dormir a noite toda com os pais (sem qualquer tipo de interrupção)? Dormir na cama dos pais terá, efetivamente, múltiplas funções para cada elemento, mas é necessário compreender quem é que este comportamento está a beneficiar: os pais, que não precisam de enfrentar a luta do não-quero-dormir-sozinho, ou a criança, que se sente mais segura na cama dos pais? Pensando neste cenário a curto prazo, cumpre o que é pretendido: o conforto de que todos tanto gostamos. A longo prazo, e à medida que a criança vai crescendo, pode ter um impacto diferente: os pais já não dormem tão bem, e os filhos já não querem dormir com os pais, mas surge o medo de deixar os pais tristes e, com isto, uma certa renitência no abandono deste comportamento.

Na infância, principalmente no pré-escolar, a criança pode já ter competências de autorregulação. Durante a idade escolar, dormir sozinho é sinónimo de autonomia e independência. É uma oportunidade para pôr em prática essas mesmas competências de autorregulação: acordar com um sonho e poder voltar a dormir sem a ajuda dos pais (fomentando uma sensação de segurança emocional interna); ter um espaço que é seu (facilitando o desenvolvimento de competências cognitivas); e, na pré-adolescência e adolescência, o desenvolvimento sexual saudável (possível para um adolescente que tenha o seu espaço e a sua privacidade).

 

Como devem os pais atuar?

 

Estudos indicam que pais que garantam tais níveis de acolhimento e limites apropriados, assim como um balanço entre cumprir ou não as urgências noturnas dos filhos, ajudam no desenvolvimento da autorregulação da criança.

Os pais devem, por isso, ajudar os seus filhos nesta jornada: caso a criança chame durante a noite, é importante atender ao seu pedido – ir até ao quarto e ajudar a criança a acalmar-se, permitindo que volte a dormir sozinha na sua cama, é uma maneira de o fazer. Assim, é garantido o conforto, mas, acima de tudo, o desenvolvimento de autorregulação.

É de reforçar que não existe, de todo, uma verdade absoluta sobre este tema; não há formas certas ou erradas de se lidar com esta situação, pelo que é, também, importante que se considere o bem-estar da família. O que funciona para uns não tem necessariamente de funcionar para os outros. Porém, há fatores positivos para o desenvolvimento emocional e cognitivo no que concerne à independência do sono.

 

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A autora

 

Maria Guerreiro 

Psicóloga clínica de crianças, adolescentes e jovens adultos

Instagram: mariaguerreiro.psi

Consultas: Psinove

 

 

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