O poder da literatura na vida das crianças
A leitura na infância pode ser a chave para transformar o medo da diferença numa ponte para a empatia e a aceitação.
Marta Ramalho da Costa | 30-05-2025A infância é o lugar onde o mundo começa, por dentro e por fora. Nesta fase, cada sotaque, cada cor de pele, cada aparelho auditivo pode tornar-se motivo de curiosidade… ou de afastamento. Para que a primeira seja vitoriosa, precisamos de oferecer às crianças e aos adolescentes uma bússola interna que orienta no sentido de que a diferença não fere. Contudo, as explicações tão bem-intencionadas dos adultos soam, muitas vezes, a sermões chatos e, como resultado, o coração fecha-se antes de escutar.
Nesta lógica, fará total sentido que um livro se abra e que, nessa folha, caibam todos os medos, assim como todos os sonhos: o Estranhão de ideias cintilantes, um gigante que descobre que ser diferente é o que o torna verdadeiramente especial, uma professora que ensina a cair antes de voar. À primeira vista pode soar disperso, mas é a metáfora que adoça o que seria duro de compreender. Por esta via, de súbito, o que metia medo tem a potencialidade de se transformar num convite a furar a bolha do familiar (o conhecido) e a navegar por mundos, até então, invisíveis.
A leitura oferece um palco seguro onde as crianças ensaiam emoções, vestem a pele do outro, descobrem que até a parte “estranha” dentro delas pode ser amiga. Assim, certamente que, quanto mais cedo esse ensaio acontecer (antes dos seis anos, quando o “nós” e o “eles” começa a fixar-se) mais natural se torna acolher a diversidade no recreio, em casa e na vida.
As potencialidades dos livros são imensas, mas sublinho as três abaixo:
Treino sem risco
Ao encontrar um troll que afinal só queria ser ouvido ou um gigante com pés de princesa, a criança faz um ensaio emocional num palco protegido, isto é, observa o estranhamento inicial, sente a mudança para a aceitação e, no fim, percebe que nada de mau lhe aconteceu. Esse “laboratório” simbólico permite-lhe testar reações, desmontar medos e, mais tarde, aplicar a mesma serenidade quando surgir alguém diferente no recreio ou na rua.
Espelho e janela
O “espelho” acontece quando a criança se vê reconhecida numa personagem (tom de pele, uma deficiência, um modo de falar) e recebe a mensagem silenciosa de que pertence. Por sua vez, a “janela” compreende a existência de vidas diferentes das suas e mostra que há inúmeras formas de existir. Quando espelho e janela convivem na mesma história existem dois ganhos, por um lado cresce a autoestima de quem se vê e, pelo outro, outro origina-se o respeito pelo que é novo e nunca pensado.
Empatia em ação
Durante a leitura em voz alta, o adulto deve brincar com a voz. Se a emoção é a de tristeza, abranda-se o tom, se é a alegria salta num riso energético, por exemplo. Assim, cada palavra ganha corpo e a criança sente a história a acontecer-lhe por dentro e passa a reconhecer empaticamente melhor as pessoas à sua volta. Por esta via, pode descobrir que compreender o outro pode ser tão simples como ouvir o coração que se esconde por trás da voz.
Onze sugestões de leitura para que os mais pequenos compreendam o valor da diferença:
1. Troll
Debaixo da ponte, um troll solitário grita insultos ao mundo até que um coelho surdo lhe mostra, com empatia e gentileza, uma nova forma de comunicar. A história mostra que o que nos parece “monstruoso” pode guardar bondade.
Ajuda a criança a integrar a própria parte “assustadora” e transformá-la em ternura (do medo ao recurso).
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2. Um Cão Singular
Esta história fala-nos de um cão-salsicha que decide abandonar a sua matilha para procurar quem o ame tal como ele é.
Reforça a mensagem de que não precisamos aparar as nossas arestas para pertencer ao grupo, ser fiel a nós mesmos traz paz.
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3. Ai! Ai!
Este livro fala-nos de um rugido que atravessa a savana assustando todos os moradores que fogem do “monstro”. Todavia ele não existe!
Este livro ensina as crianças a desconstruírem os boatos e a confirmarem antes de rotular.
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4. O Estranhão
Conta a história do Fred que é cheio de ideias loucas e tenta esconder-se em normalidades. Contudo, quando se revela, contagia a turma.
Este livro sublinha a importância da autenticidade e dá permissão para mostrar as excentricidades que cada um guarda.
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5. O Muro
Este livro conta a história de um rei que ergue uma muralha para manter “os de fora” à distância e acaba preso no seu próprio castelo.
Esta história demonstra a importância da cooperação para que a vida possa funcionar tão favoravelmente.
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6. As Princesas Mais Corajosas
Princesas existem por todo o lado: no metro, no supermercado, na escola. Corajosas, reais e surpreendentes, mesmo sem coroa.
Proporciona reflexão sobre quem pode ser herói além dos estereótipos de género.
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7. Só
Estar só pode ser difícil. A Terra sente-se diferente, até que algo inesperado se aproxima. Será uma ameaça ou o início de uma amizade?
Uma história em rima que celebra a empatia, a aceitação e a beleza de sermos únicos.
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8. A Professora de Voo
Esta história é sobre a Zita que descobre que não pode voar. Todavia, aprende outras formas de o fazer.
Boa reflexão sobre a aceitação das “imperfeições” ou vulnerabilidades.
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9. Pequenos Monstros
Conta a história de um lobisomem meigo que se sente estranho numa escola de monstros ferozes.
Este livro auxilia na redefinição do que é ser forte e no respeito pela diferença dentro do próprio grupo.
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10. O Gigante com Pés de Princesa
Este livro fala do Tobias que tem três metros de altura e passos delicados. Por esta razão, ele é ridicularizado e transforma a sua “contradição” em força.
Este livro impulsiona a quebra de rótulos sobre o corpo e sobre o género.
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11. Gosto de Ti Quase Sempre
Este livro conta a história da Rita e do Rui que se irritam, afastam, reconciliam, aprendendo que gostar do outro inclui aceitar diferenças de ritmo, humor e gosto.
Esta história ensina as crianças a tolerar os conflitos, demonstrando que o afeto não morre com eles. Ademais, celebram-se as diversas personalidades que têm ideias e ideais distintos, mas que podem convergir em bens comuns.
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Queridos pais, um livro, feito apenas de papel, tinta e desenhos, tem o dom de tocar corações. Cinco minutos de leitura antes de adormecer podem valer horas de aconchego emocional. Entre as páginas, a criança escuta verdades que mil explicações não saberiam dizer. A título exemplificativo, a criança descobre que o “estranho” pode ser amigo, que o “monstro” guarda gentileza, que há lugar para vozes de todas as línguas e para passos de todos os tamanhos.
E, quase sem darmos por isso, aquilo que parecia um puzzle caótico começa a encaixar: peça a peça, surge a imagem nítida de uma comunidade onde cada diferença encontra o seu lugar e onde todos cabem, inteiros, na mesma história.
A autora
Marta Ramalho da Costa – Psicóloga
Instagram: martadacosta_psic
Contacto: 937442094
Consultas: Viviere Medical Clinic – Braga e no Rizehealing – Vieira do Minho