O meu filho anda a dizer asneiras… devo castigá-lo?

Há uma idade em que as crianças começam a falar… e, mais tarde ou mais cedo, vão encontrar-se com o léxico do dia a dia, expresso muitas vezes em palavras “menos próprias”, proferidas, geralmente, por pessoas do seu círculo mais íntimo: pais, irmãos, tios, educadores, avós… Se as palavras existem, pois haverá sempre uma ocasião em que nos saem da boca, seja quando o trânsito está infernal ou quando alguém é malcriado connosco ou nos desilude.

As crianças observam e estudam os pais, e até pela forma de os pais interagirem entre si (“Merda!” “Não digas isso, não digas essas coisas à frente dele!” “Mas é uma merda!” “Sim, OK. Mas não digas com ele a ouvir.”) percebem que há palavras e palavras… e algumas são fortes e não devem ser ditas “em dias normais”.

Quando surgem surtos de autonomia e afirmação da identidade, como, por exemplo, por volta dos 3 anos, largar um palavrão que se sabe de antemão ser “proibido”, mas com a segurança de já o ter ouvido da boca, por exemplo, dos progenitores, é uma forma de crescer e, ao mesmo tempo, “entalar” os pais, ou pelo menos tentar fazê-lo.

Muitas vezes, os pais ignoram e fingem que não ouvem, mas, quando é assim e a criança está mesmo numa de provocar, irá elevando o tom de voz e dizer as palavras “feias”. Aliás, nesta fase, muito “coprolálica”, dizer “cocó-chichi” e outras coisas bem piores dá um certo gozo – o gozo do interdito e da transgressão… e sempre é uma forma de avaliar o que os pais vão fazer e o seu grau de tolerância à asneira.

Aquelas cabecinhas são tão sinuosas (leia-se, inteligentes) que me recordo de um caso em que uma criança de 3 anos chamou à mãe “filha da p-u-t-a”, e, ao ver os olhos da mãe maiores do que a lua cheia, exclamou, com uma voz muito cândida: “E seu disser filha da porteira, posso, mamã?”

Claro que os pais não podem ficar indiferentes, porque a provocação pode degenerar rapidamente em insolência da pior e a criança sentir-se com liberdade para crescer a desrespeitar os outros; por outro lado, ainda é demasiado pequena para entender que cada palavra tem o seu significado e a sua adequação ao contexto da ação e humano. Aliás, a maioria das crianças nem percebe o que está a dizer, só sabe que não deve dizer.

Perante vários avisos e a repetição da asneira, há que castigar, porque, asneira à parte, o que se passa é uma tentativa de desafiar a hierarquia e a autoridade dos pais. Uma maquiavélica tentativa de tomada do poder.

Castigar não quer dizer bater. Mas apenas censurar, de alguma forma, um comportamento que passou dos limites. No apontar caminhos em que a educação consiste, é necessário semáforos e coimas. Uma criança só entenderá que não pode dar largas à sua vontade e que tem de se autocontrolar se tiver reforço positivo para os comportamentos adequados, mas também alguma forma de sentir os comportamentos errados.

Cada família terá os seus limiares para castigar e também a escala de castigos. Há, no entanto, limites também para os castigos. Estes evoluem com o tempo e com as sociedades; inclusivamente, algumas práticas aceites há escassas décadas são agora criminalizadas.

É necessário, quando os pais se sentem agredidos, que passem da situação de vítimas para a de juízes. A justiça das vítimas baseia-se na humilhação e exterminação da pessoa. A justiça “justa” assenta na análise dos atos e do grau de responsabilidade de quem os praticou, considerando as atenuantes e agravantes, mas não relevando se a pessoa é gorda ou magra, alta ou baixa.

 

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Analisar a situação

A primeira coisa a analisar é a intenção: se a criança fez de propósito ou não. Seguidamente, há que ver se já deveria saber que era asneira ou se a mensagem ainda não estava suficientemente integrada e metabolizada. Depois, se houve algum fator de força maior (na perspetiva da criança) que a fez relegar a regra para segundo plano (se bateu com o pé numa cadeira pode soltar um “porra!”, que, apesar de não ser bonito, é perfeitamente ajustado).

Deve também dar-se sempre uma oportunidade de a criança se explicar, mesmo que ela demore algum tempo (porque está assustada e a tentar compreender o que se passou). O “Cala-te!”, quando ela tenta explicar-se, é castrador e não a entusiasma a pensar porque é que as coisas aconteceram e como a sua versão pode não ser a mais certa.

fatores atenuantes que devem ser considerados, como a fome, o sono, a excitação, o cansaço ou a presença de outras crianças que fazem ciúmes ou inveja, e a consequente necessidade de “dar nas vistas”.

 

Castigar ou não castigar?

Se após esta análise se considerar que se deve castigar, para além de um aviso sobre o comportamento e de o descodificar, há que sublinhar, sem qualquer margem para dúvidas, que o que está em causa é o ato e nunca a pessoa. Tem de se dizer com convicção: “És querido, adoro-te, mas o que tu fizeste não está certo”. Só assim a criança entenderá que é castigada pelo seu ato, que a sua pessoa não está em causa (não esqueçamos que, nesta idade, impera o medo do abandono e de que os pais não gostem dela) e que os pais a querem corrigir por gostarem tanto dela. Por outro lado, será mais provável mudar um comportamento do que uma pessoa inteira!

O castigo deve ser imediato, depois desta fase de ponderação. Castigos dilatados no tempo perdem o significado, e as crianças podem pensar que estão a ser punidas pelos seus atos mais recentes, o que leva a incompreensão.

Todavia, se estivermos constantemente a dizer “não” e a humilhar a criança (“és mau, és feio”), além de criarmos grande insegurança, que a fará tentar “dar nas vistas” (e a melhor forma de chamar a atenção é fazendo patifarias, nomeadamente dizendo asneiras), estamos a dizer-lhe que perdemos a esperança de ela melhorar. Além disso, o seu processo de aperfeiçoamento será feito no sentido de “ser cada vez pior”, já que o destino de um “mau” é ser mesmo “muito mau”.

Há que graduar os castigos e reparos, utilizando os vários elementos de que os pais dispõem. Se não se esgotarem logo os de nível mais alto, poder-se-á repreender a criança com um levantar de sobrancelhas ou uma alteração no tom de voz. Gritar não nos dá razão, pelo contrário, amedronta a criança e fá-la perder qualquer possibilidade de escutar o que se lhe está a dizer. Falar baixo, aliás, tem mais impacto, porque revela a seriedade do momento. As gritarias só servem para abandalhar.

Finalmente, devemos tentar evitar que a vitimização, cólera ou frustração que trazemos de fora (do emprego, do trânsito ou seja do que for) não tenham qualquer influência na avaliação da situação, na decisão de castigar e na veemência do castigo. As crianças não são bodes-expiatórios nem culpadas pela desorganização do mundo em que vivemos (e que, em certa medida, fomos nós, adultos, que construímos sem consultar as crianças).

O que os outros possam pensar não deve ser um critério para castigar. Os atos valem por si, não pelo que os mirones pensam. Finalmente, há que ter criatividade nos castigos – parar para pensar, fazer pequenos “serviços cívicos” em casa, por exemplo, podem ser maneiras de evitar confrontos e escaladas de gritos, berros e violência.

Passada a crise e cumprido o castigo, há que sublinhar que as contas estão saldadas – não se pode amanhã ir buscar o que ontem já foi sancionado (isto acontece sobejamente nas discussões entre adultos, que “perdoam” o outro mas aproveitam para atirar à cara esse comportamento na primeira discussão), e é também fundamental um jogo comum entre os dois pais ou dos pais e restantes pessoas presentes.

As estratégias para uma educação saudável e positiva, que infunde respeito por si e pelos outros, devem dar alento e ânimo para que se opte pelo comportamento desejado. Deve colaborar-se e apoiar a criança nesta tomada de decisão e proceder de forma gradual, com pequenos objetivos, oferecendo modelos coerentes e ensinando e desenvolvendo as capacidades e habilidades necessárias à tarefa.

É necessário mostrar sinais graduais que regulem e orientem a ética dos comportamentos e extinguir as condutas inadequadas, sendo firme e coerente. E mostrar bem que dizer palavrões, mesmo que até os digamos aqui e ali, não é uma forma “estética” de estar na vida.

 

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