A importância da Educação Pré-escolar: que escolhas devo fazer

Se durante muitos anos se pensava que a passagem pelo pré-escolar era uma possibilidade apenas acessível a uma certa classe média informada, hoje assume-se que o direito a uma educação pré-escolar é para todas as crianças. Reconhece-se o seu papel determinante no início de um processo de educação que se desenvolverá ao longo de toda a vida.

Se quisermos consultar investigações longitudinais ficamos a saber que uma boa experiência de educação pré-escolar, para além das vantagens na transição para a escolaridade básica e nos processos de socialização da criança tem, a longo prazo, efeitos positivos na prevenção do abandono escolar, da exclusão social, na prevenção de delitos na juventude ou idade adulta, do abuso de drogas.

A inserção positiva da criança no 1.º ciclo da escolaridade básica é um dos objetivos da educação pré-escolar. Durante décadas pensava-se que esta passagem se fazia através de processos diretos de inserção, nomeadamente usando fichas de iniciação à escrita ou exercícios gráficos feitos em papel quadriculado. Ainda temos o mercado inundado desse tipo de fichas e exercícios. Até aos anos 80 a investigação afirmava que os fatores indicativos de uma inserção positiva no 1.º ciclo se prendiam com indicadores de sucesso escolar nas aprendizagens finais (ler, escrever, contar...).

Os estudos mais recentes apontam para um número muito mais amplo de competências à frente das quais se encontra a capacidade de aprender a aprender. Em seguida surgem as competências sociais de cooperação, isto é a capacidade de a criança se inserir num grupo de pares e de cooperar com eles no desenvolvimento de tarefas comuns.

Para atingir estas competências as crianças devem demonstrar a capacidade de fazer amigos e de serem aceites no grupo de colegas – é no pré-escolar que se iniciam as grandes amizades e se aprende a cooperar.

A autoconfiança e o autocontrolo são também competências decisivas na integração escolar

Uma criança com baixa autoestima dificilmente se interessa pelos processos de aprendizagem mais elaborados que lhe vão ser exigidos. Criar situações em que a criança ganhe autoconfiança, se descubra a si própria como capaz de exercer o seu poder sobre as coisas e os objetos e, mesmo, sobre as situações de modo a modificá-las, é o papel da experiência pré-escolar.

A capacidade de autocontrolo é uma competência básica para a inserção no 1.º ciclo. Quer nas interações sociais que desenvolve, quer nos processos de gestão das atividades em sala de aula, a criança precisa de domínio pessoal, de concentração, de estar atenta aos outros, de prescindir da satisfação imediata das suas necessidades, de uma disciplina não apenas do corpo mas, também, interior. É no pré-escolar que se inicia este processo de forma progressiva e natural.

Decorrente desta competência, têm a capacidade de resiliência, isto é, a possibilidade de fazer face à frustração de forma positiva, de persistir apesar das adversidades, de aceitar as mudanças como desafios, enfim, de resistir. A capacidade de resiliência leva a criança a ser forte, otimista, com uma dinâmica criativa face às contrariedades, incorporando-as positivamente no seu desenvolvimento.

Uma educação pré-escolar de qualidade promove este conjunto de competências que se têm tornado vitais para uma inserção positiva no 1.º ciclo da escolaridade básica. Se a educação pré-escolar não for de qualidade, dificilmente promove estas competências. Daí a necessidade de estarmos atentos à escolha de jardins de infância de qualidade.

Eis alguns critérios que podem ajudar os pais na escolha:

  • qualidade das interações sociais;
  • relação adulto-criança;
  • projeto educativo explícito;
  • atividades estimuladoras do desenvolvimento intelectual global e não apenas de indução ao 1º ciclo;
  • envolvimento parental;
  • habilitação superior das(os) educadoras(es) de infância.

 

Aos pais compete:

 

  • pensar atempadamente no jardim de infância que desejam para os seus filhos;
  • exigir coerência no projeto educativo;
  • dialogar com educadores e direções pedagógicas;
  • participar ativamente nas atividades da instituição;
  • conversar em casa sobre o que se passa no jardim de infância;:
  • preparar uma transição positiva entre a família ou a creche e o jardim de infância;
  • tornar a transição um momento ritualizado, significando para a criança uma nova etapa no seu crescimento, um desafio às suas potencialidades, uma aventura emocional e intelectual que irá acontecer na interação com os seus pares e os educadores.

 

Talvez os pais possam ainda pensar como é que em casa podem promover na criança as competências acima enunciadas, de modo a potenciar o papel do jardim de infância e garantir coerência na articulação família-escola.