Dia dos Avós
Luísa Ducla Soares

É cada vez menor o tempo que os pais dispõem para dedicar aos filhos, com horários prolongados, tempos infinitos perdidos em transportes, o esforço do dia a dia. Quando as famílias nucleares se dissolvem, agrava-se o problema. Muitas vezes, uma creche e um jardim de infância abertos das sete e meia da manhã quase até ao anoitecer tornam-se a solução possível para colmatar ausências, promovendo simultaneamente a socialização e o desenvolvimento dos mais novos.

Mas, para bem de todos, é com frequência possível contar com os avós, esteios firmes em todas as ocasiões. Muitos criam os netos. Outros vão buscá-los à tarde, brincam, passeiam com eles, tratam-nos quando estão doentes. Mais que isso, amam-nos inquestionavelmente.

Os avós continuam a ser os guardiões das histórias da família, os elos entre o passado e o presente, criando nos mais novos um sentido de comunhão, pertença, continuidade.
Não competem, nem devem competir com os pais ou com o jardim de infância, pois cada qual tem o seu papel.

Como avó, interrogo-me se será totalmente gratuito este amor total pelos netos…
E talvez não seja. Na idade madura, um neto é encarado de uma forma bem diferente daquela com que abrimos os braços para os nossos filhos. A experiência ensinou-nos a valorizar a magia de uma nova vida, a pureza da infância, a esperança que ela oferece. Eu exprimo-a assim:
É uma pequena fada
a voar no nevoeiro,
é a andorinha

que traz a primavera,
é o riso da papoila
a crescer da minha raiz.

Encontramos nos netos a única forma de renascer, preservando a identidade de quem abre os olhos para o mundo e procurando dar-lhes tudo o que temos, o que sabemos, o que sentimos.

Ontem perguntava eu à minha neta de 2 anos:
- Onde vai amanhã a Nonô?
- Para a praia. E a avó?
- Eu fico sozinha em casa, a escrever.
Então ela beijou-me e disse:
- A Nonô leva a avó para a praia.
Claro que hoje estou em casa, sozinha, a escrever. Mas estou ao mesmo tempo com ela na praia, rindo e procurando conchinhas à beira-mar. E, por isso, sou feliz.

Luísa Ducla Soares - Nascida em Lisboa e licenciada em Filologia Germânica, dedica-se especialmente à literatura infantojuvenil como autora, estudiosa, divulgadora. Tendo sido jornalista, adjunta do Ministério da Educação e trabalhando 30 anos na Biblioteca Nacional, tem realizado numerosas sessões de incentivo à leitura e conferências em escolas, bibliotecas, universidades.

Autora de cerca de 130 livros, recusou, por motivos políticos, o Prémio Maria Amália Vaz de Carvalho e foi por duas vezes galardoada pela Fundação Calouste Gulbenkian, uma delas pelo conjunto da sua obra.

 

 

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