O seu filho gosta da escola?

Depois do dilema (que, infelizmente, muitas vezes nem se coloca) entre escolher a ama, a casa com alguém, os avós ou o infantário, e para os pais que têm de optar por esta última solução, surge um outro: será que os nossos filhos se estão a dar bem na escola? Como poderemos avaliar? Que parâmetros? A escola será boa? E se eles andam infelizes e não damos conta?

Para lá do que se pode dizer sobre a escolha da instituição, desde o ambiente afetivo, a segurança, a comida, as regras, o programa de atividades, o projeto educativo, o ambiente da sala e do recreio, se há a possibilidade de dormir a sesta ou não, etc, há um aspeto essencial: se eles se sentem bem na escola.

Não me refiro ao dizerem «não quero ir para a escola!». Essa expressão é mesmo isso: «não querem ir», mas gostam de lá estar, o que é diferente, porque a primeira é equivalente a dizer «não quero sofrer esta agonia, esta dúvida, de estar com os pais mas já “com um pé” na escola, ou de estar na escola mas ainda com os pais lá dentro». É estar, mesmo. É não ter pressa em sair quando os pais chegam e depois de dado o beijinho da saudade. É falar da escola, mostrar os desenhos, arrastar os pais para a sala de aula, é falar do que aconteceu (mesmo que seja para dizer que o João ou a Maria roubaram um lápis ou não deixaram brincar com os legos).

   
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Algumas perguntas para outros tantos parâmetros

Para as crianças que começaram a escola (e porventura também para as outras), valerá a pena os pais refletirem sobre as seguintes questões: 

Os vossos filhos estão a gostar da escola? 
A pergunta é simples mas essencial, e esperemos que a resposta seja «sim». O sinal mais importante de que se estão a adaptar bem é, repito, quererem ir logo de manhã e não estarem aflitos na altura em que os vão buscar (embora seja bom que gostem de ver os pais ao fim do dia). Deixem-nos gostar da escola. É um primeiro passo para gostarem de aprender.

A segurança da escola é suficiente? 
Já pensaram nisso? Acaso visitaram já a sala de aula, o recreio, as instalações sanitárias? Já deram uma vista de olhos crítica às entradas e saídas? Avaliaram o risco de acidentes? Se não o fizeram, façam-no e transmitam as vossas dúvidas e inquietações aos professores, ao delegado de turma ou ao Conselho Diretivo. Muita coisa pode mudar para melhor se os pais colaborarem ativamente na escola, como é seu dever, mas sem ser apenas para, nas escassas reuniões de pais, se queixarem de que «o Tomás só comeu meia banana».

Já houve passeios e visitas de estudo?
Se não houve, é melhor começar a perguntar se vai haver e quando. As competências sociais que devem ser ensinadas na escola — muito mais do que a simples aprendizagem da escrita, da leitura e da aritmética —, têm de incluir saídas para o mundo real: jornais, museus, fábricas, clubes... ou tão somente conhecer melhor a terra onde se vive. Sugiram locais, dentro dos vossos conhecimentos e profissões. Deem uma ajuda aos professores, abrindo portas e deitando abaixo barreiras. Os alunos agradecem e a sociedade também.

Os vossos filhos já fizeram novos amigos?
Embora não seja obrigatório ter uma quantidade muito grande de amigos («poucos, mas bons!»), é conveniente que tenham alguns para não se sentirem isolados. Será que eles falam desses amigos? Tratam-nos pelo primeiro nome? Contam histórias passadas com eles? Foram já convidados para alguma festa de anos? Sem entrar em «interrogatórios de polícia» tentem saber o que se passa para melhor compreenderem a integração escolar e a personalidade do vosso filho.

O vosso filho demonstra prazer em aprender?  
Fala com entusiasmo das matérias que lhe são ensinadas e, também, do gozo que tem em aprender? Quer mostrar os seus conhecimentos e a sua sabedoria? Embora nem todas as crianças tenham o mesmo ponto de partida e o mesmo ritmo de aprendizagem, convém estar atento (sem ansiedade ou exigências exageradas) a eventuais dificuldades, muitas delas ultrapassáveis em casa com apoio dos pais, sendo, porém, necessário averiguar a existência de alguma causa orgânica ou psicológica para o insucesso educativo e o desinvestimento na aprendizagem — em caso de dúvida, depois de analisarem o assunto com os educadores, consultem o médico assistente do vosso filho.

Como vão as atividades desportivas? 
O exercício físico e o desporto devem fazer parte do dia a dia da criança. Para lá da atividade constante que têm na sala e no recreio, é bom que as escolas proporcionem atividades de tipo mais organizado, sejam aulas de ginástica, seja de dança, saltos, judo… Infelizmente, muitas escolas são ainda muito deficientes no que respeita a este tipo de atividade, seja nas instalações, seja na programação, pensando que basta correrem o dia todo. Falem com os professores acerca disto, designadamente com os professores de educação física.

Sabem o nome de todas as educadoras que intervêm no quotidiano dos vossos filhos?
Esperemos que sim, pois será sinal de que eles falam nelas. Conheçam-nas. Perguntem-lhes regularmente como é que o vosso «rebento» se está a dar na escola e se podem contribuir para melhorar alguma coisa. O diálogo entre pais e educadores é essencial para todos, pois a escola não é (não pode ser) um mero «depósito de meninos», mas um local de descoberta de talentos e de exercitação de competências, bem como de ensino e de aprendizagem, prazer, desenvolvimento afetivo e lúdico, físico e intelectual, psicológico e emocional.

Idem para o nome dos auxiliares.
Os vossos filhos sabem o nome deles? E os «pais dos vossos filhos»? É bom que conheçam bem as várias pessoas que convivem e trabalham na escola, para além do educador principal. É sinal que as crianças vivem a escola plenamente.

E as atividades artísticas?
A escola providencia e estimula a criatividade e este tipo de atividade? Escultura, pintura, leitura, música, teatro? Estejam atentos a estes aspetos pois o desenvolvimento do espírito artístico e de hobbies é um dos fatores protetores mais importantes, e a criatividade e a sensibilidade são facetas que têm de ser desenvolvidas e estimuladas desde sempre.

Pais: querem saber se os vossos filhos se sentem bem? Façam esta reflexão e conversem com eles e com os educadores. A vida é, para a maioria das pessoas «um molho de brócolos», mas há que dar prioridade a certas coisas e gerir o tempo de forma a não perder o essencial no meio do que é acessório - e a escolarização dos vossos filhos é um fenómeno a acompanhar com gosto e atenção.

Se, pelo contrário, eles andam constantemente de «cara amarrada», tristes, não gostam da escola, mostram desinteresse, fazem birras para ir para a escola que se mantêm mesmo quando os pais saem, se nem olham para a sala quando vocês chegam e só querem é enfiar-se no carro e fugir, ou se relatam, especificamente, algum evento traumático, doloroso, violento, para lá das quezílias e tricas normais entre crianças, então não fiquem a duvidar do vosso filho, mas tentem saber se, realmente, ele tem razões para se sentir tão de costas voltadas para o local que, por definição, o deveria acolher e proteger.

NOTA: outro assunto, que não tem que ver com o sentirem-se bem na escola, é adoecerem ou andarem «ranhosos»… Esse aspeto preocupa mais os pais do que os filhos! Leia aqui o artigo sobre esta temática.