E, de repente, o meu filho já vai para o 3.º ano!

Ainda há pouco se faziam os preparativos para a entrada na escola e, num instante (assim nos parece!), já está no penúltimo ano do 1.º ciclo. Como o tempo passa!

A verdade é que, entretanto, já cresceu de tal maneira... Parece até que vai deixando de ser criança…

Mais racional, mais reflexivo, mais crítico em relação a tudo — às vezes, quase rebelde — mais preocupado com as reações e com os juízos dos outros, vai-se tornando, agora, mais responsável e independente.

E embora vá conseguindo, até, períodos maiores de concentração e de trabalho, parece ter uma energia física inesgotável. Salta, corre, dança, brinca, até cair de exausto!

E, a verdade, é que o currículo escolar acompanha este salto que vamos notando nele.

Há, com efeito, neste 3.º ano de escolaridade, um salto considerável. Muitos consideram, aliás, este, o ano mais difícil do 1.º ciclo. É um ano de um grande salto em termos, sobretudo, de formalização.

No Português, textos maiores, com linguagem e vocabulário mais elaborados — até nos enunciados o formalismo aumenta – questões mais difíceis, menos diretas, apelando mais ao pensamento próprio, à opinião e à expressão dos sentimentos da criança.

Dos textos produzidos espera-se que sejam mais longos, mais cuidados, com uma estrutura mais complexa, mais criativos, passando pelos diferentes géneros. E a gramática? Sim, um enorme passo na reflexão, categorização e sistematização sobre a língua.

Caminho semelhante é seguido na Matemática. Há também, claramente, nesta área, um aumento de abstração e formalismo: a entrada em força dos números fracionários e decimais, um peso maior dado às técnicas de cálculo (operações e respetivos algoritmos), abstração crescente relativamente à geometria, problemas a complicar-se, exigindo a leitura e interpretação de enunciados cada vez mais complexos e de raciocínios cada vez menos diretos.

No Estudo do Meio, o âmbito alarga-se, os temas são também mais complexos e ganha sentido o “estudo” — há, agora, mais coisas a saber de cor, informação a ser retida e relacionada.

Em termos gerais, a intuição continua a ter uma importância grande na aprendizagem da criança, mas não tem já o papel tão central — quase exclusivo — que teve nos primeiros dois anos de escolaridade. A dedução e o formalismo vão ganhando o seu terreno.

Cuidados e preocupações a ter, tanto na escola como em casa, relativamente ao percurso da criança

Em primeiro lugar, não excluir e abandonar, nesta fase, a educação e as expressões artísticas. É também uma fase produtiva nesse campo – podem dar-se saltos qualitativos importantes em termos, nomeadamente, do desenho (desenho com muito mais detalhes e pormenores), das construções, da música (tanto em termos do uso da voz como do recurso a instrumentos), da dramatização — e são áreas fundamentais numa perspetiva de desenvolvimento global das habilidades e competências dos alunos e do equilíbrio emocional que daí resulta.

Um segundo cuidado a ter é o de evitar que o aumento de formalismo se transforme em aumento de desinteresse e em puro aborrecimento. É importante que se continue a apostar em atividades e tarefas desafiadoras, que se incentive a sua criatividade, que se aproveite o gosto que as crianças manifestam pelo jogo, que se canalize de forma positiva e rentável a tendência natural para a competição, que caracteriza também esta fase.

Em terceiro lugar, e de forma complementar ao ponto anterior, é muito importante que se cultivem e alarguem os interesses culturais da criança, nesta idade. Primeiro, porque os seus interesses se alargam efetivamente: para campos mais longínquos e para temas mais complexos — será só cuidar de alimentar essa curiosidade natural, em lugar de a abafar. Depois, porque, em princípio, dominam já os instrumentos básicos de acesso à informação — em especial, a leitura e a escrita — e são, portanto, mais capazes de aceder por si próprios à informação de que necessitam. Finalmente, porque é um fator fundamental de motivação para o esforço escolar que lhes é solicitado.

Ganha, também, nesta fase, um outro sentido a criação de alguns hábitos e regras de trabalho e estudo. Não quer isto dizer que as crianças devam estar tempo demais, para além das horas de aulas, a trabalhar, em espaços fechados, quietas e paradas. Recordemos, que é uma fase caracterizada pela necessidade de uma grande atividade motora.

Assim, o mais importante, para além da alternância entre esses dois tipos de atividade, é que a criança se habitue a distinguir a necessidade desses diferentes momentos e tipos de atividade, que os separe e que crie condições para que, de cada um deles, tire o máximo proveito. Quando brinca, brinca, quando estuda e trabalha, concentra-se nessa tarefa.

Continua a fazer todo o sentido, igualmente, um mínimo de regras, essencial para o tempo de trabalho escolar: deitar cedo, fazer refeições calmas e partilhadas, ter horas definidas para diferentes atividades, como brincar/trabalhar, ver televisão, estar no computador e jogos, etc.