É possível ter tempo para os filhos sem precisar de superpoderes

Os pais, nos dias que correm, têm uma vida atarefada. Pouco importa se mais ou menos do que nas gerações anteriores. Esse debate levaria a ter de fazer muitas "definições de caso" sobre o que é viver em polo adrenalínico, ou seja, em atividade.

Podemos argumentar com o trânsito, a azáfama matinal, a pressão dos empregos e o ter de acudir a mil e um fogos, o que nos traz, ao final do dia, a sensação de que somos bombeiros de uma pequena corporação, a ter de lutar com incêndios de grandes proporções… E com muito pouco apoio dos “meios aéreos”.

Todavia, em gerações anteriores também se trabalhava, e muito. Homens e mulheres, para que não restem dúvidas. A ideia mítica, por exemplo, de que as mães não tinham trabalho e só se ocupavam dos filhos é… mítica. As mulheres cuidavam da casa, de mais um sem-número de coisas, como a “criação”, as pequenas hortas, colaboravam nas vindimas ou na apanha dos frutos, tratavam da roupa, faziam o pão e cozinhavam, e ainda geriam a chamada “intriga da aldeia”, que nos faz hoje sorrir, com um certo ar condescendente, mas que foi (e ainda é) a garantia da manutenção do tecido social. São as pessoas que lhe dão a firmeza e consistência, e não as redes sociais ou a Internet.

Seja como for, hoje a vida “puxa” por cada um de nós e sentimos na pele a exigência de sermos pais perfeitos, cônjuges perfeitos, amigos, familiares, trabalhadores, cidadãos e pessoas perfeitas. É muito.

Quando parece que o dia nunca mais acaba...

Deslocamo-nos em grandes trajetos e gastamos muito tempo em transportes. Estamos horas e horas no emprego (e as crianças na escola) e ao chegar a casa o dia não acabou, no que toca a trabalho, porque a gestão da vida doméstica — cozinhar, arrumar, lavar, passar a ferro, limpar, aspirar e tudo o mais que os leitores conhecem e fazem — cai totalmente (ou quase) em cima de nós, mesmo que tenhamos algumas ajudas. Muito sobre as mulheres, embora cada vez mais, também, sobre os homens. E ainda há o supermercado, a revisão do carro, o pagamento dos impostos…

No meio desta azáfama e quando mal controlamos o nosso quotidiano, surge uma questão — uma ou mais, se quisermos assim designar os nossos filhos: como arranjar ainda tempo para uma “coisa” que exige, à partida, se quisermos ser minimamente eficientes enquanto pais, tanto e tanto tempo. Carradas de tempo.

Não apenas quando bebés, em que impera o reino das fraldas, biberões, papas e brinquedos, como depois, quando há que visionar um filme com os nossos filhos para os ensinar a descodificar as mensagens, dar apoio no adormecer, contar histórias, responder às mil e uma perguntas, proteger, educar, ensinar e, mais tarde, fazer sabatinas de estudo do meio, ajudar nos exercícios de Geometria ou de História e Geografia de Portugal, dar umas dicas para o trabalho de “OfCom” e ainda levar à ginástica, judo, taekwondo ou ballet e, não menos (até mais!) importante, ouvi-los, escutá-los, conversar com eles, ensiná-los, aprender com o que dizem, motivá-los a expressar sentimentos, verbalizarmos os nossos sentimentos, protege-los, prevenir os acidentes, evitar as doenças, promover a saúde e o bem-estar, formá-los enquanto pessoas e cidadãos… Ufa!

Gerir o "eu" em função do "eles"

Ter filhos exige um trabalho ciclópico e, contudo, são seres humanos e não super-homens ou seres de outro planeta que têm filhos e, melhor ou pior, os vão “gerindo”, nas suas múltiplas facetas, até que possam ser autónomos mesmo que sempre interdependentes.

Há pais que, quando têm filhos (e não importa muito o número) aniquilam-se e deixam de ter vida própria. O “eu” desaparece em função do “eles”. O “nós” conjugal fica também “para segundas núpcias” (muitas vezes as primeiras núpcias acabam antes de surgir a oportunidade destas) e a sensação que fica é de desalento, desânimo, um feeling de que algo de nós ficou incompleto, quando não um caos interno de quem não consegue dar resposta a tantas solicitações e vê a vida a fugir, dia após dia, mês após mês, e o quotidiano a esmagar projetos, sonhos e oportunidades, e sentindo nós que vamos perdendo o controlo do percurso de vida.

Sentir-se amado — o maior fator protetor

As crianças precisam de se sentir amadas e queridas e de verem respondidas as suas necessidades irredutíveis. Precisam de tempo com os pais para aprenderem — exigir que saibam intuitivamente é uma fantasia pueril. Precisam de tempo com os progenitores para os observarem enquanto exemplos e modelos. Precisam de tempo dos pais para poderem exercitar a dúvida, a questão, a argumentação, o debate, a troca de ideias e de sentimentos. Contudo, mais do que quantidades “industriais” de tempo, precisam de qualidade de tempo.

Pais presentes não são pais “cutchi-cutchi” que se põem de cócoras perante as crianças, desligando a televisão e desligando o seu cérebro cada vez que o menino exige atenção, tenha ele 6 meses ou 6 anos.

Pais eficientes são os que chegam a casa, depois de um dia de ausência mútua, em que as saudades são grandes de parte a parte, mas sobretudo de quem sente o dia como uma eternidade, e largam tudo para abraçarem os filhos, brincarem com eles e fazê-los sentir que são amados, ou seja, que estão primeiro do que ver os emails, arrumar os congelados ou ver as notícias no telejornal.

Depois de uns minutos de brincadeira, de abraços e miminhos, de “rebolar no tapete”, de ouvir as queixas que a comida da cantina é uma bodega e coisas similares, então, sim, cada um poderá ir à sua vida e balizar a relação interpessoal de modo a que os pais e os filhos não se atabafem mutuamente, não desenvolvam um relacionamento claustrofóbico e castrador da individualidade, do espaço íntimo de cada um e do desenvolvimento dos projetos pessoais.

Tempo para todos; mas o tempo da escravatura acabou

Temos de ter tempo para os filhos, mas o nosso tempo não é propriedade dos filhos, assim como o deles não é nosso.

À medida que crescem, a relação deve ser cada vez mais autónoma, o que não significa distanciarmo-nos, afastarmo-nos ou desinvestirmos, mesmo que a gestão da autonomia, fenómeno bidirecional, seja complicada e com margens ténues e melindres vários.

Os pais não são escravos dos filhos e não podem deixar de ser pessoas, com a sua identidade e individualidade. A vida relacional conjugal não é do foro dos filhos e não os pode incluir, nem deve ser sacrificada e eles.

Há momentos em que, sejamos francos e intelectualmente honestos, abjuramos o dia em que decidimos ter filhos. Todavia, se soubermos gerir bem as coisas, se estabelecermos prioridades, se começarmos a dizer “não!” a pessoas, situações e coisas que não interessam “nem ao Menino Jesus”, mesmo que corramos o risco de ser politicamente incorretos, então poderemos estar seguros de que os nossos filhos terão os pais de que necessitam: que os amam, securizam, presentes, eficazes, educadores, modelos, exemplos e faróis orientadores, mesmo que rosnem de vez em quando.

E os nossos filhos aprenderão, também, que um dia esta sorte e este desígnio também lhes vão caber a eles... Mesmo sorrindo e rosnando taco a taco.