Sete dicas de leitura para o pré-escolar

A casa é a primeira escola da criança. Está provado que um ambiente familiar em que existam livros, se contem histórias desde cedo e se promova uma comunicação livre e profunda, é a base dos melhores alicerces cognitivos, emocionais e morais. Não se deve descurar a importância da leitura partilhada entre pais e filhos, quando a voz se transforma num poderoso elo afetivo capaz de alimentar futuros leitores – seguros, curiosos e imaginativos. Talvez para toda a vida.

1. O vínculo às palavras e sons começa na voz da mãe

Investigações científicas demonstraram que os bebés ouvem desde o quarto ou quinto mês de gestação, dentro da barriga da mãe. É essa a primeira forma de interação com o mundo exterior que depois irão encontrar. Nesse sentido, é fundamental que o bebé ouça rimas, lengalengas, poemas e canções de embalar; ou mesmo pequenas histórias em que estejam ausentes emoções negativas e perturbadoras. Na fase da primeira infância, a musicalidade e o ritmo do texto são fundamentais na leitura em voz alta.

2. Os primeiros livros são para comer

Nos primeiros dois anos de vida, a criança apropria-se do livro ou do brinquedo levando-o à boca: mordendo, roendo, sugando e explorando-o com o tato. Prefira os livros-objeto almofadados ou de pano simples, que se possam levar para todo o lado. As cores devem ser vivas e primárias (vermelho, azul, amarelo), ou com imagens a preto e branco, um padrão de contraste que os bebés apreendem facilmente. Escolha livros pequenos, adaptados às mãos da criança, com cantos redondos e de manuseamento confortável.

3. A aprendizagem faz-se por repetição e imitação

Na etapa pré-escolar, nomeadamente entre os 3 e os 6 anos, a criança guia-se pelo pensamento simbólico, mágico, intuitivo e animista. É a época das leituras partilhadas em momentos ritualizados e livres de pressas, como a hora de deitar ou de comer. Quando a criança pede para ler a história uma e outra vez, não só está a organizar o seu raciocínio como a querer prolongar – se possível, para sempre – aquele intervalo de tempo em que sente que é importante para o adulto. As boas memórias criadas nesta época não têm preço.

4. Uma criança não é um quadro em branco

Na obra The Secret Spiritual World of Children (O Mundo Espiritual Secreto das Crianças, não traduzido em português), o autor, Tobin Hart, psicólogo e professor universitário de Psicologia, afirma: «O desafio para os pais, educadores e amigos passa por aprender a respeitar e a trabalhar com o que a criança já conhece, em vez de assumir que está a escrever sobre um quadro em branco.» A desvalorização do mundo interior da criança e, pior do que isso, a repressão das suas fantasias pelo adulto são um veneno para o ser humano. Nesse caso, os livros podem constituir um refúgio e um consolo.

5. Das lengalengas aos álbuns e contos de fadas

Até aos dois anos, os primeiros livros, ou livros-objeto, propõem imagens simples e figurativas, próximas do quotidiano do bebé (animais, rostos, objetos de casa ou da rua), muitas vezes com dispositivos que escondem as figuras ou que emitem sons, se pressionados. A partir dos 2-3 anos, está aberto o caminho para narrativas mais longas e sequenciais, com muita ilustração (o álbum), pouco texto e um amplo leque de temas que permite à criança exteriorizar emoções, projetando-se nas personagens (frequentemente, são animais). Faça perguntas sobre a história e explore as imagens, mas não transforme a leitura partilhada num exame.

6. Todos os pais são contadores de histórias

As crianças gostam das histórias que os livros contam, mas também das que os adultos inventam. Pode ser apenas um devaneio da imaginação, uma história curta: «Sabias que, quando eu era pequena(o), morava uma família de ratinhos atrás do televisor?» Isso despertará de imediato o interesse da criança: «A sério? E como eram? Conta...». Talvez sinta que não tem «muito jeito» para inventar, mas essa é apenas uma crença limitadora e um julgamento que impõe a si mesmo. As crianças têm, por natureza, uma mente livre e aberta.

7. Faça da leitura uma atividade sem TPC

A leitura partilhada entre pais e filhos (ou outros educadores) é uma experiência tão rica que dispensa atividades extras, como fichas ou questionários. Não associe a leitura a «trabalho de casa», mas sim ao tempo livre, ao jogo e ao brincar ao faz-de-conta. Um dos maiores obstáculos à fruição leitora reside na imposição de desafios de interpretação mental que obscurecem o calor afetivo necessário à incubação de um futuro leitor. O ato de ler a dois, só por si, já pressupõe o que é necessário para estimular a curiosidade da criança.