A mesada como primeira prática de poupança

Planear, poupar e gastar. Ideias-chave para as crianças do 1.º ciclo que as acompanharão para o exercício permanente de uma cidadania responsável.

A noção de caro e barato, a distinção entre vontade e necessidade e a importância do controlo das despesas são faces da mesma moeda do que se chama consciencialização e compreensão financeira.

No 1.º ciclo, tópicos como porque existe o dinheiro, porque é que o dinheiro é diferente em várias partes do mundo, a ambivalência eu quero versus eu preciso, porque é que as pessoas põem dinheiro no banco e para onde vai o nosso dinheiro, são questões permanentes. Pais e professores têm um papel na consolidação destes conceitos de saber como ganhar, gastar, poupar e investir o dinheiro para se ter uma melhor qualidade de vida.

A compreensão dos assuntos financeiros nesta idade passa por três pilares essenciais: a distinção entre vontade e necessidade; a noção do que é caro e barato; e a gestão do orçamento pessoal, evidenciando a importância do controlo das despesas e a virtude da poupança.

Como pedra basilar, importará sempre retomar a história sobre a origem do dinheiro e a sua utilidade de troca, a identificação das moedas e notas de euro e as formas de troca que podem ser utilizadas em alternativa à moeda (cheques, cartões bancários e transferências bancárias).

Adquirido pelos alunos que o dinheiro resulta do pagamento de um ordenado ou do lucro de uma venda, que tem de se pagar aquilo que se compra e que o dinheiro é um bem escasso face às necessidades infinitas, a consciencialização financeira passa pela importância de se guardar dinheiro. Ou seja, pelo conceito de poupança.

Nesta etapa pedagógica, sugere-se como atividade prática uma visita a uma dependência de um banco, onde pode ser solicitado ao responsável da agência um enquadramento sobre como cuidar do dinheiro (poupança e investimento) e como o dinheiro se movimenta. A realização em conjunto de pagamentos através da banca eletrónica dos bancos ou a subscrição de um cheque bancário são também exemplos muito marcantes para a criança.

Mealheiro, Matemática e conta bancária

A independência crescente que as crianças vão ganhando ao longo do 1.º ciclo é um excelente momento para o reforço da consciencialização financeira. Neste quadro, a atribuição de uma mesada/semanada pode ser um evento-chave para a consolidação dessa compreensão financeira: planear, poupar e gastar.

Com um objetivo em mente para uma despesa futura, competirá à criança gerir os seus gastos correntes (um novo aguça, a senha de almoço, a carteira de cromos) para que possa poupar o suficiente que lhe permita, no espaço de tempo pretendido, comprar o bem desejado. Isso irá ajudá-la a tomar decisões e fazer escolhas, mesmo que em pequena escala.

Para este efeito,  o mealheiro continua a ser um bom suporte, contudo, aproveitando-se a visita ao banco, pode-se abrir uma conta bancária com o propósito de mostrar à criança o princípio da segurança e da rentabilização da poupança. Ou seja, enquanto no mealheiro o dinheiro não gera dinheiro, no banco existem soluções que permitem aumentar o valor do dinheiro depositado.

Com a introdução do conceito de poupança reforça-se mais ainda a necessidade de a criança calcular com dinheiro. Esta oportunidade coaduna-se com os objetivos escolares, nomeadamente na disciplina de Matemática; contudo, em ambiente familiar, deve ser promovida a comparação de preços, o ensinar a contar o troco e mostrar como funcionam os descontos.

Responsabilidade e ética social

Poupar passa também por ensinar a distinguir as coisas que se compram porque se quer daquelas que se compram por necessidade. Um bom exercício passa pela elaboração de uma lista de compras com a contribuição da criança, ensinando a controlar o consumo por impulso, ao mesmo tempo que permite mostrar as diferenças entre coisas “caras” e “baratas” durante uma ida (real ou simulada) às compras.

A ambivalência que se gera no ato de consumir versus poupar permite também reforçar a ideia de que a responsabilidade social e a ética devem estar sempre presentes no ganho e no uso do dinheiro. Ou seja, perante as diferenças de vencimentos entre os diversos grupos sociais, as decisões financeiras também têm uma dimensão ética, que deve fazer refletir a criança sobre o princípio da solidariedade para uma cidadania responsável.