Guia prático para lidar com as crianças doentes

Não é geralmente preciso esperar muito tempo. Mal chegam o frio e as primeiras chuvas começam as deserções dos infantários, os pedidos de dias para assistência à família e os SOS lançados aos avós.

Começaram as febres, os ranhos, as tosses, os resfriados e, aqui e ali, as diarreias. «São vírus» – dizem os médicos, para desespero dos pais, para quem esta resposta, mesmo que verdadeira,  «não atrasa nem adianta».

Dizem os livros que há uma probabilidade dez vezes maior de as crianças se infectarem, se frequentarem uma creche, infantário ou jardim de infância. Não que as crianças que ficam em casa sejam diferentes, mas o contacto com outras pessoas, designadamente crianças «ranhosas» e mesmo doentes é maior, os ambientes mais fechados e os ritmos da criança são diferentes dos das crianças que ficam em casa, as quais podem dormir quando querem, comem segundo a sua vontade e estão, de forma geral, mais protegidas.

Estas infeções tratam-se, afinal, de «vacinas naturais» que os nossos filhos vão fazendo ao longo da estação fria, embora os «de casa» também não estejam totalmente protegidos (e ainda bem, caso contrário não desenvolviam a sua imunidade), porque são os próprios pais e irmãos que se encarregam de partilhar com eles «a bicharada».

O tempo frio e chuvoso provoca instabilidade das defesas a nível local (nariz, boca, garganta), especialmente nas crianças que, por exemplo, têm o nariz obstruído, ou que usam chupeta e, por isso, têm uma má oclusão dentária.

O facto de as crianças (e os adultos também, nos empregos, por exemplo) estarem mais tempo «dentro de quatro paredes» aumenta a probabilidade de transmissão de doenças infeciosas. Finalmente, muitos micróbios desenvolvem-se mais com o frio e a humidade do inverno.

Como diminuir a transmissão de doenças

Por um lado, é importante arejar bem os lugares, abrindo as janelas de par em par, a menos que esteja muito frio. O ar não faz mal a ninguém! O aumento do preço da eletricidade foi um fator que contribuiu para não se abrirem tanto as janelas dos infantários, o que se compreende mas tem como consequência um pior arejamento. Há creches e jardins de infância onde a política é «quanto mais quente melhor», esquecendo-se, os educadores, que esse excesso de calor pode levar a sudação, variações térmicas e… doenças. As crianças e as pessoas em geral são, aliás, enormes «caloríferos».

Se se deve proteger as crianças do frio, não é menos verdade que elas podem brincar à vontade ao ar livre, desde que não esteja muita chuva ou vento, porque enquanto correm e desenvolvem atividade muscular não se constipam.

De igual modo, é importante detetar as crianças que estão doentes, não os levando no dia seguinte e sendo rígidos nas regras de admissão no infantário após doença. Muitos pais, pressionados pelos fatores laborais, administram um antipirético à criança e mandam-na para a escola… entende-se, mas também é bom que saibam que estão a contribuir para infetar os outros… outros que podem, depois, infetar o seu próprio filho.

O mesmo se aplica aos funcionários doentes, os quais devem ficar em casa ou, se vêm ao serviço, usar máscara quando estão constipados, especialmente se estiverem a espirrar.

O combate ao pó, através da escolha de materiais, limpeza, arejamento e armazenamento de brinquedos, bem como a escolha destes, pode ajudar bastante a reduzir o risco respiratório e alérgico.

Se o seu filho ou filha ainda usa fraldas, a higiene na mudança das fraldas é fundamental – sempre, mas com particular realce quando há surtos de gastroenterites –, e os cuidados em geral podem ser facilmente promovidos: para lá das máscaras, o uso de luvas e, sobretudo, a simples lavagem de mãos (bem executada) permitem diminuir, em muito, as infeções, especialmente no primeiro ano e meio de vida, quando as crianças não contactam ainda muito umas com as outras, mas sim através das mãos dos educadores e auxiliares.

Finalmente, sobra o tempo em que não se está no infantário: fazer uma vida ao ar livre, mesmo no inverno, evitando sítios fechados com muita gente, é uma boa medida de prevenção. A praia, no inverno, nos dias bons, é um bom «seguro».

Assim, quando se coloca uma criança num infantário, é bom saber que haverá alturas em que estará doente e que precisará dos cuidados dos pais ou de alguém próximo. E que precisará de convalescer (palavra que, cada vez mais, perde o significado no nosso quotidiano), o que significa que, se os enviarmos para a escola mal deixam de ter febre (ou ainda com febre mas sob a ação de um antipirético), eles vão continuamente adoecer, causando grande instabilidade no dia a dia deles e dos pais.

Às vezes, mais vale fazer uma semana ou duas fora, do que andar cá e lá, cá e lá, infetando-se e infetando outras crianças.

Aos infantários compete também velar para que tal não aconteça.

Aos empregadores, finalmente (e ao Estado) cabe pensar que a assistência na doença, aos filhos, só promove o país e não é um capricho dos pais, ainda mais quando a natalidade atingiu níveis perigosos para a coesão e o futuro do tecido social e, consequentemente, do próprio país.