Qual o papel dos avós na vida de uma criança do 1.º Ciclo?

A sociedade portuguesa mudou muito nas últimas décadas. Nem os avós de hoje são os avós de gerações anteriores, pelo menos no que se refere à larga maioria, nem os netos são os mesmos. Os tempos mudaram. Ainda bem! Mas há uma coisa que não mudou: o papel dos avós na vida de uma criança.

Quando falamos de crianças do 1.º Ciclo, que estão a aprender muito e a quem é dada, felizmente, informação sobre as mais variadas coisas, a convivência com os avós é fundamental.

Não apenas para ir buscar as crianças à escola, dado que a autonomia de a criança se deslocar sozinha ainda não existe, mas de consagrar horas e horas a apoiar as crianças, tendo-as em sua casa, mimando-as mas dando-lhes regras, ajudando-as a fazer os trabalhos para casa e conversando. Conversar, uma “atividade” que está a cair em desuso mas que as crianças gostam e os avós sabem – com o televisor desligado, para não ser um intruso, um elemento de distração. Estas conversas, aliás, podem ter lugar em casa dos avós mas também ocorrem, quantas vezes, no caminho de regresso da escola, parando ou não para lanchar. Os avós têm histórias para contar, e as crianças desta idade adoram ouvir histórias!

Mesmo que na escola se ensinem matérias que alguns avós desconhecem, mesmo que “o último grito da moda” esteja na televisão ou na Internet e não na cabeça dos avós, há uma coisa de que as crianças do 1.º Ciclo precisam e que não existe no ar nem nos caminhos que percorrem no quotidiano: o tempero, a sabedoria, a experiência de quem está cá há muitas décadas e que já viveu muita coisa, boa ou má.

Por outro lado, no 1.º Ciclo as crianças já têm sentimentos muito intensos e, por vezes, não sabem como os demonstrar e expressar, ou pensam que não vale a pena falar neles porque “ninguém as compreenderá”. Os avós são um magnífico “escutador” e também “airbag”. Sabem ouvir, sabem escutar, sabem “ligar as pontes”, sabem fazer despontar um sorriso mesmo quando falam de coisas sérias. Têm a vantagem de estar suficientemente perto, porque são avós, mas não tanto em cima, como os pais, libertando espaço para a criança se sentir mais individual e livre.

Outra atividade em que os avós portugueses são pródigos é levar os netos e acompanhá-los nas atividades extracurriculares, que são muitas nestas idades, do futsal à natação, do voleibol ao xadrez, vibrando com os sucessos dos netos mas sem os entusiasmar demasiado, em competição desenfreada, como fazem alguns pais.
 

É preciso respeitar os avós...

Apesar do inimitável papel que os avós podem ter na vida de uma criança dos 6-9 anos, ensinando-lhe a vida, eles não são os “bombeiros de serviço” para quando os pais têm de sair, a empregada faltou ou é preciso ir buscá-los à escola em SOS. Os avós são, ou devem ser, expoentes do saber, da calma e da sã convivência com os netos, no trabalho e na brincadeira, na aprendizagem e no ensino, nos códigos privados e nos jogos especiais. Podem ir buscá-los à escola, claro, podem estar com eles aos fins de semana, claro, e até podem ajudar a fazer os trabalhos de casa, mas essa relação deve ser independente dos desejos ou necessidades dos pais e respeitar o desejo dos avós e o seu ritmo de vida. Que os pais não sintam ciúmes nem queiram imiscuir-se nessa relação entre avós e netos, numa idade tão particular em que o “puzzle-pai” e o “puzzle-mãe” se alargam a outras pessoas e a outros horizontes que não apenas o pai e a mãe.

Avós e netos, sobretudo quando estes começam a “explodir” em termos de aprendizagem e de curiosidade, de calma relacional e de interiorização de regras – como é o caso das crianças do 1.º Ciclo –, são um “cocktail” essencial para a continuação da realização dos primeiros, em termos de pessoas e de cidadãos, e dos segundos, em termos de saber que a vida entre humanos não se vive em pesquisas em qualquer motor de busca virtual.