Será conveniente que os alunos leiam textos literários que desrespeitam as regras gramaticais?

Se os escritores por vezes desrespeitam as regras que ditam o “bom” uso (isto é, o uso convencional) da língua, não será lícito pensar que, ao ler os seus textos, os jovens se sentirão convidados a fazer o mesmo?

Os pais podem legitimamente questionar-se sobre as eventuais (des)vantagens de os seus filhos serem aconselhados - ou, melhor dizendo, obrigados - a ler textos literários que se revelam claramente desviantes em relação às normas gramaticais. Se os escritores por vezes desrespeitam as regras que ditam o “bom” uso (isto é, o uso convencional) da língua, não será lícito pensar que, ao ler os seus textos, os jovens se sentirão convidados a fazer o mesmo? Esta preocupação parece tanto mais fundamentada quanto mais novos forem os leitores, uma vez que o processo de aquisição da língua materna só se consolida durante a adolescência. Porém, os pais têm menos razões para se preocuparem do que à primeira vista poderia parecer.

Os desvios à norma causam estranheza e a estranheza é... salutar.

As crianças têm uma capacidade que os adultos mais sensíveis invejam e lamentam ter perdido: a capacidade para se maravilharem com o mundo à sua volta, para ficarem surpreendidas e extasiadas com as mais pequenas coisas.
Os escritores, nas suas obras, também nos transmitem muitas vezes o espanto de viver através de uma linguagem que é surpreendente e “desviante” por isso mesmo: para nos provocar uma certa desfamiliarização com a língua, que é essencial para olharmos de novo o mundo, através das palavras, de modo a podermos vê-lo como que pela primeira vez.
Assim, podemos dizer que o espírito da criança está mais em sintonia com o espírito dos poetas do que o dos comuns adultos. E a estranheza que a literatura provoca é salutar, tal como a forma de ver o mundo das crianças também o é, porque convida a pensá-lo de forma crítica e criativa.

Os desvios linguísticos são detetados como tal desde cedo.

Com três anos, as crianças já acham graça aos “disparates” linguísticos, demonstrando que têm capacidade para discernir o que é correto e o que não é, em termos gramaticais. É claro que ainda confundem palavras, conjugam erradamente alguns verbos e constroem por vezes frases que não estão de acordo com as convenções linguísticas. No entanto, conseguem perceber quando alguém fala de forma estranha, acusando de imediato as incorreções que já reconhecem como tal. Desde cedo as crianças revelam-se capazes de corrigir os adultos, por exemplo chamando a atenção destes para usos menos apropriados do vocabulário ou da pronúncia (“Não são sapatos, mãe, são crocks!”; “Não é “tive”, é estive!”). Mas a reação mais comum de crianças de 3, 4 e 5 anos que ouvem combinações ilógicas de palavras (“A banana comeu o pai?”), flexões impossíveis (“Vamos chocolatar!”), rimas inesperadas (“Estás bem, ou vais para Belém?”) e palavras absurdas (“Mas que xiscofaripum!”) é normalmente o riso. Acham essas construções engraçadas. Isto significa que têm a capacidade para compreender e explorar a dimensão lúdica do uso da linguagem, que está intimamente ligada à imaginação criativa e à capacidade artística. O facto de os textos literários conterem formas de expressão alternativas permite-lhes desfrutar do prazer de brincar com a língua, que nem sequer é novo para a maior parte das crianças.

Ver não implica fazer.

O facto de certos textos fazerem uma utilização algo “extravagante” da língua não significa que os jovens leitores serão automaticamente influenciados, de tal maneira que começarão a adotar as mesmas construções no seu discurso corrente. Quando a literatura é lida e apreciada como tal, a sua linguagem é sentida como especial, precisamente por ser diferente da que é usada no dia a dia: não apenas pela sua qualidade estética, mas também porque nos transporta para um mundo paralelo, que definitivamente não é aquele em que vivemos.
Tal como não se esforçam por fazer rimas quando falam, embora apreciem os momentos em que, por acaso, a sonoridade de determinada frase é musicalmente harmoniosa, as crianças não têm tendência para utilizar formas de expressão alternativas à norma (quer tenham sofrido, quer não, a influência de textos literários pouco convencionais) quando comunicam em situações quotidianas. Desde tenra idade (5-6 anos) que são incentivadas a fazer variar o registo linguístico que utilizam consoante as situações, por exemplo, falando com mais cuidado e rigor quando é suposto fazerem “cerimónia” com os adultos e falando de forma menos cuidada entre pares. Assim, interiorizam que os desvios à norma só são admissíveis em certos contextos e devem ser evitados noutros.

Desrespeito pelas regras… mas não tanto!

Por mais desviantes e pouco convencionais que os textos literários possam ser, pela sua forma original de empregar a língua por meio dos mais diversos recursos, o seu grau de “incorreção” nunca é verdadeiramente elevado ou problemático.
Os desvios à norma são sempre, evidentemente, propositados. E o mais certo é que sejam identificados enquanto tal pelo professor que os lê e comenta junto dos alunos, pelo que estes não ficam com a sensação de que o escritor se “enganou” ou “não conseguia escrever melhor!...”. Depois, essas “incorreções” nunca ultrapassam um determinado nível - por exemplo, não apresentam erros ortográficos. Se o texto estivesse verdadeiramente mal escrito… não seria literatura nem a sua leitura seria, certamente, recomendada na escola.