Férias em tempos de COVID-19: não leve o medo na bagagem

Cautela, sim. Pânico, não. E atenção aos sinais – quer nas perguntas dos filhos quer nas coisas que só um pai ou uma mãe reparam. É isto que recomendam os especialistas quando se fala de férias em tempos de COVID-19, depois dos três meses e meio mais estranhos das nossas vidas. Falámos sobre isto – e muito mais – num webinar exclusivo para subscritores com a pediatra Joana Appleton Figueira, o pedopsiquiatra Pedro Strecht e o psicólogo Tiago Pereira.

Durante três meses e meio, a sala de aula passou para a sala de estar, para a cozinha, para os quartos. Durante três meses e meio, o trabalho dos pais saiu do escritório e mudou-se para casa, aquele local onde tentamos que as obrigações profissionais não entrem. E tudo se misturou. As famílias tentaram adaptar-se, as crianças tentaram adaptar-se, os pais tentaram adaptar-se, os professores tentaram adaptar-se. Mas, apesar dos grandes sacrifícios, do cansaço extremo e das enormes doses de paciência, poucos terão conseguido verdadeiramente adaptar-se.

 

A vida profissional, familiar e pessoal juntou-se à vida escolar dos filhos, e o resultado nem sempre foi pacífico. Tivemos de conciliar as tarefas domésticas com as obrigações profissionais, o apoio aos TPC enviados pelos professores com os relatórios pedidos pelo chefe, o teletrabalho com o ensino à distância, a vida que se vivia lá fora com o dia a dia que se passou a fazer entre quatro paredes. Tudo isto enquanto os números da pandemia nos iam entrando pela casa adentro e o medo se ia instalando.

E agora? Em tempo de férias, estamos sobretudo aliviados ou estamos preocupados? E conseguimos proteger os nossos filhos pequenos?

E os adolescentes, conseguimos não os alarmar mas evitar que desenvolvam comportamentos que coloquem a saúde deles – e dos outros – em risco?

 

“Muitos miúdos têm tendência para pensar ‘isto não me afeta a mim, eu nem conheço ninguém que tenha tido [COVID-19]’”, diz Pedro Strecht. “Mas cabe aos pais filtrar e organizar esta informação, para os ajudar.” O pedopsiquiatra falava no webinar “Acabaram as aulas. E agora?”, organizado pela Porto Editora e realizado no passado dia 3 de julho, pelo Pais&Alunos.

 

O evento, que contou também com a participação da pediatra Joana Appleton Figueira e do psicólogo Tiago Pereira, procurou dar algumas pistas de reflexão sobre os tempos que vivemos. “Férias em tempos de COVID: dúvidas dos pais, brincadeiras dos filhos” foi o mote para uma conversa em que os especialistas, moderados pelo jornalista Paulo Farinha, tentaram responder a algumas das preocupações dos adultos durante o desconfinamento:

Os filhos podem brincar com os primos? Podem fazer amigos na praia? E podem ficar com os avós no verão?

O que ensinámos aos pequenos durante estes meses é suficiente para os proteger na praia, na piscina, na terra dos avós, nas festas da aldeia e nos ATL?

É seguro irem para os ATL ou campos de atividades?

As crianças pequenas devem usar máscara? A partir de que idade?

E será saudável fazer isso tudo? Ou estamos nós, adultos, mais preocupados do que o necessário?

 

Joana Appleton Figueira responde com frequência a algumas destas questões aos pais que lhe chegam ao consultório – muitos deles com remorsos por se sentirem tão cansados de ter os filhos permanentemente em casa e por terem vontade de os “mandar para os avós”. A pediatra tranquiliza-os, ajuda-os a pensar, procura não criar mais alarme além do que já paira no ar. “É esse o meu papel”, diz. “Até porque todos os dias leio coisas contraditórias sobre a COVID-19. Um dia há um paper que diz uma coisa, no outro dia sai outro que diz o contrário. A pressão para publicar informação sobre a COVID-19 é tal que as coisas estão a sair com pouco filtro.”

 

O bom senso pode ser, por isso, um bom caminho para encontrar resposta a perguntas como estas. Evitar espaços fechados, contactos muito próximos e partilha de brinquedos, por exemplo, são dicas úteis de situações que os pais podem gerir facilmente. Em caso de dúvida, recomenda a pediatra, podem ligar para o médico assistente ou para a linha SNS 24 (808 24 24 24), em que profissionais de saúde competentes podem ajudar a acalmar um progenitor preocupado.

 

Mas há outras preocupações que os pais manifestam neste período de férias:

Como retomar a normalidade e o convívio com a família e os amigos?

Como trabalhar a socialização, a empatia, a ajuda ao próximo numa altura em que devemos evitar os contactos físicos?

Que impacto teve este confinamento (e o desconfinamento) na saúde mental dos nossos filhos? E como identificar os sinais de angústia, isolamento ou depressão?

Como nos podemos preparar emocionalmente para alguma coisa que possa correr mal nas férias?

 

“Uma das coisas que devemos levar para as férias é a capacidade de aceitarmos que este não é um tempo comum”, disse o psicólogo Tiago Pereira. “E por isso podemos aceitar que estamos mais ansiosos, e isso é natural. E podemos ter medo, e isso é natural.”

 

A aceitação de que estes sentimentos vão connosco e fazem parte destes tempos pode ajudar-nos a lidar com alguma ansiedade durante as férias, defende o psicólogo. E, nesse sentido, uma das formas que podemos ter para nos apaziguarmos é preparar vários cenários para os dias de descanso. Se não for possível ir de férias para o sítio A, o que faremos no sítio B? Se tivemos de ficar no nosso concelho, que atividades interessantes se poderão fazer?

 

Durante quase duas horas de conversa, os três especialistas falaram também sobre os adolescentes que desenvolvem comportamentos de risco (como ajuntamentos ou partilha de bebidas), sobre os sintomas (como perturbações no sono ou na alimentação) a que os pais devem estar atentos, sobre a necessidade de algumas crianças se sentirem seguras (nomeadamente utilizando máscaras), sobre a “vantagem” que a pandemia poderá ter trazido na mudança de hábitos sanitários úteis para o futuro, como a lavagem frequente de mãos ou a utilização de desinfetante. E, muito importante, falaram sobre a saúde mental de avós e netos e sobre os riscos acrescidos que a separação dos últimos meses pode trazer a longo prazo.

 

Joana Appleton Figueira, Pedro Strecht e Tiago Pereira falaram sobre isto e muito mais. Mas nenhum se atreveu a responder à pergunta do milhão de euros, que assusta tanta gente: e se o próximo ano letivo também for assim?

 

Mas sobre isso falaremos daqui a uns meses...