2015-10-27

Para um crescimento estético, informado e crítico das crianças

A propósito do lançamento da nova Coleção Luísa Ducla Soares, a Porto Editora dá a conhecer um texto da autoria da Prof. Violante Magalhães, uma estudiosa da obra da autora, que reflete sobre a influência positiva dos livros de Luísa Ducla Soares no crescimento dos jovens leitores.

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Ela é uma das mais importantes autoras portuguesas de literatura para crianças, com cerca de 150 títulos publicados. Publicada desde 2013 pela Porto Editora, Luísa Ducla Soares tem desempenhado um papel fundamental no incentivo à leitura, motivo pelo qual foi galardoada com diversos prémios e ocupa um lugar destacado no Plano Nacional de Leitura e nas preferências dos jovens leitores. A propósito do lançamento da nova Coleção Luísa Ducla Soares, a Porto Editora dá a conhecer um texto da autoria da Prof. Violante Magalhães, uma estudiosa da obra da autora, que reflete sobre a influência positiva dos livros de Luísa Ducla Soares no crescimento dos jovens leitores.
Por Prof. Violante Magalhães


1.        Em 2015, a Porto Editora publicou 14 livros da Coleção Luísa Ducla Soares(1). Congratulo-me com esta Coleção e espero que mais livros venham a ser ali integrados.

Sou leitora incondicional da obra literária de Luísa Ducla Soares para crianças e jovens. É uma obra que fascina pela qualidade formal, por assentar em intrigas estimulantemente inteligentes, consentâneas com uma preocupação ética, humanizante, cívica, e apresentadas de um modo irreverente, moderno. Considerando que historicamente o pendor editorial da Porto Editora tem privilegiado a educação e a preocupação com a nossa língua, não haveria melhor autor de literatura infantojuvenil para constituir uma coleção Porto Editora. É o ‘casamento perfeito’ entre uma escrita de qualidade inequívoca do ponto de vista linguístico, estético, irrepreensível do ponto de vista educacional, e uma editora qualificada no campo da língua portuguesa e da educação.

Gostaria de demonstrar que os 14 livros desta Coleção são já uma amostra representativa da extensa obra de literatura infantojuvenil da escritora. Refletir sobre essa representatividade implica uma visão de conjunto, o que não é tarefa fácil, mas passo a tentar cumpri-la.

2.        O percurso literário de Luísa Ducla Soares começou em inícios da década de 60 do século XX, com publicação dispersa destinada ao público adulto; em 1970, saiu um livro de poesia – Contrato.

No que respeita à literatura para a infância, o primeiro livro da autora data de 1972 (A história da papoila); até hoje, neste âmbito, foram publicados cerca de 140 livros. Publicou, ininterruptamente e desde aquela data, contos e poemas em numerosos jornais e revistas; foi organizadora e colaborou em antologias, bem como em obras colectivas. Teve ainda participação em publicações didácticas. Está entre os autores portugueses mais reconhecidos pela crítica. Recebeu vários e prestigiados prémios literários e alguns dos seus títulos foram traduzidos em diversos países.

Os volumes de literatura infantojuvenil de Luísa Ducla Soares foram publicados em diversas editoras. Saíram também em edições de Câmaras Municipais, de Ministérios (da Educação, da Cultura) ou de outros organismos sem fins lucrativos, o que abona da bondade da escritora em bem servir uma causa – a da literatura infantil. Essa causa é igualmente enobrecida com os persistentes encontros que mantém com crianças e jovens, em escolas, em bibliotecas, no âmbito de iniciativas várias. Assinale-se que a autora é também estudiosa e divulgadora da literatura infantil – e com que elegância o faz!, a começar na escolha e na grandiosidade dos autores que tem vindo a trabalhar: Antero de Quental, Guerra Junqueiro, Maria Amália Vaz de Carvalho, António Sérgio, Aquilino Ribeiro, Matilde Rosa Araújo, Rómulo de Carvalho, José Saramago.

Feita esta brevíssima incursão biográfica, debrucemo-nos sobre as principais características da obra infantojuvenil da autora.

3.        Luísa Ducla Soares escreve para públicos diferenciados – de crianças pequenas a adolescentes. Nesta coleção Porto Editora, temos desde Uma história de dedos, indiscutivelmente para crianças com idades de jardim-de-infância, a, por exemplo, Três histórias do futuro, livro destinado a pré-adolescentes, visto que a extensão do texto, a linguagem, os temas e problemas da sociedade atual (poluição, consumo, excesso de mecanização) e do relacionamento humano ali implícitos fomentam a reflexão e dão indício a um pensamento abstrato.

A obra da escritora é composta por uma diversidade de manifestações. A par dos textos de autoria – construídos com a mais distinta capacidade imaginativa, há recolhas da tradição oral (de rimas a lendas), há adaptações da literatura de expressão oral ou da literatura erudita, há recriações… A produção de Luísa Ducla Soares cultiva quase todos os modos (narrativa, poesia, texto dramático) e géneros literários (contos em prosa ou contos em verso, novelas, diário, biografias…).

A pretexto de adaptações e recriações da literatura de expressão oral, tomemos como exemplo Contos para rir e O Capuchinho Vermelho do século XXI, ambos publicados nesta Colecção da Porto Editora. O primeiro (e divertidíssimo) livro é composto por adaptações de dúzia e meia de facécias da literatura de expressão oral portuguesa. No segundo, é feita uma recriação: no século XXI, a Menina do Capuchinho Vermelho “salta” das páginas de um livro antigo e fica ‘desnorteada’ ao deparar com televisões, supermercados, carros a grande velocidade, campainhas nas portas, em substituição do tradicional “truz, truz, truz”.

Independentemente da idade do destinatário, de se tratar de adaptações, de recriações ou de produção autónoma, do género literário, na obra de Luísa Ducla Soares observam-se os seguintes aspectos gerais:

1.º)      No caso das narrativas, as intrigas tanto podem partir do mundo imaginário que, por norma, atrai a infância (em torno de histórias do ‘era uma vez’), como de uma qualquer circunstância banal e atual. É o que sucede, por exemplo, em Uns óculos para a Rita: uma menina precisa de auxílio dos óculos para ver melhor o que a rodeia, para ter êxito na aprendizagem da leitura e da escrita. Todavia, volumes como este mostram-nos algo mais do que uma circunstância quotidiana, prosaica. No final da narrativa, encontramos Rita a sonhar que “quando for grande há de trabalhar com um microscópio, que tem lentes muito fortes, para descobrir as mais pequenas coisas que existem e que ninguém vê a olho nu” (p. 31). E este descobrir ‘o que ninguém vê a olho nu’ é uma constante na escrita de Luísa Ducla Soares.

2.º)      De forma enganadoramente simples, o mundo representado nos textos existe sempre em função de (ou parte de, ou surge de) um labor sobre a linguagem. É ainda evidente a destreza e o domínio de formas poéticas, de técnicas narrativas. Ou seja, a elevada qualidade literária é outra constante na obra.

3.º)      Os textos como que indiciam a forma como poderão ser sujeitos a uma leitura animada, participada pelo público – e este é seguramente motivo que justifica a adesão das crianças à escrita da autora. Aliás, muitos títulos de Luísa Ducla Soares têm sido adaptados para teatro ou musicados. Tais textos como que sugerem ainda formas de exploração no plano didático.

4.º)      Temas e linguagem, bem como indícios de animação de leitura ou de exploração didática revelam um conhecimento aprofundado do que é a infância, deixando transparecer uma desocultação dos objetos, práticas e representações das crianças, dos meandros em que estas se movem. A empatia e este horizonte de projecção explicam também a agradável, franca e desafiante receção dos leitores mais pequenos a estes textos.

Antes de procurar demonstrar como estas características estão presentes na Coleção da Porto Editora, permito-me assinalar o cuidado editorial de fazer acompanhar os bonitos textos de Luísa Ducla Soares de um trabalho gráfico e de ilustração atraentes. Nesta nova colecção, cujos 14 títulos são quase todos reedições, os ilustradores não se repetem volume a volume. A ilustração reforça o que é contado/ dito nos textos e encontra-se próxima do imaginário dos nossos dias. Há igualmente um cuidado de atualização no que que se refere à linguagem, fruto de novos quadros simbólicos e hábitos culturais.

Pego no exemplo de O soldado João, história de um rapaz simples que só queria viver em paz e é obrigado a ir à guerra, mas que, chegado “à terra da guerra”, acha indelicado não começar por “cumprimentar os colegas da outra banda”. Na 1ª edição, de 1973, o enternecedor soldado João surgia “de espingarda ao ombro, mochila à cinta”; na presente edição, ele surge “de espingarda ao ombro, mochila às costas” (sublinhados meus). A ilustradora, Morena Forza, recorre a elementos culturais que hoje nos são próximos: da espingarda do soldado, assim como da corneta, saem… cravos (e malmequeres e outras flores).

4.        Há uns quantos anos atrás, tive o privilégio de escrever que na obra de Luísa Ducla Soares mais do que aceitar-se a diferença, abrir-se o coração à diferença, elogia-se a diferença, validam-se todas as formas de vida. E reitero-o. Na verdade, os textos da escritora acabam por confluir para uma posição relativista, dando especial ênfase à compreensão e harmonização de naturezas e objetivos de vida diferentes. Não são ali julgadas experiências, por mais estranhas que o sejam, não se cai no erro de pensar os outros segundo os parâmetros dos nossos hábitos, da nossa cultura.

Como exemplo de respeito pelo outro, pela natureza de cada um, escolho um dos contos em prosa de Seis histórias às avessas, protagonizado por um vampirinho de “uma família toda vampiresca”, assim retratada:

Todas as noites, ao soar distante das doze badaladas, os pais [do vampirinho] saíam para o trabalho, pois os vampiros ainda não inventaram as greves, nem as faltas por doença e a lei deles é o velho ditado ‘quem não trabuca não manduca’.

Não pensem que é fácil a vida de um vampiro, procurando na escuridão as vacas no prado, os pássaros nos ramos, os meninos que dormem de janela aberta para lhes sugar o sangue. Qualquer ruído ou descuido o pode trair; por isso, tem de trabalhar em silêncio, beber devagarinho mesmo que esteja a morrer de fome, não vá o jantar acordar. Vocês imaginam o que seria se uma omeleta se erguesse do prato e vos desse uma bofetada?

Perdido dos pais numa noite de tempestade, o vampirinho acaba por ser criado por uma mãe adotiva (a cabra). Mas, os genes do vampirinho impunham-se. Por isso, apesar de ter crescido “em tamanho e dentadura (…), não conseguia aprender a mastigar”. E por isso também, quando a mãe adotiva lhe recomendava “Escolhe as plantas mais verdes”, ele respondia “Gosto mais das encarnadas!”... Um encontro fortuito com uma furgoneta carregada de caça deixa a mãe cabra indisposta com o cheiro a “sangue fresco” e o vampirinho “de cabeça no ar”, encantado com um “não sei quê” que lhe “cheira até muito bem”. Seguindo o instinto, o vampiro vai para a cidade em busca de comida, mas vive sucessivas e inglórias peripécias – desde morder um bêbedo e ficar sem se aguentar “nas asas” a morder um rapazito hospitalizado e apanhar sarampo. De desgraça em desgraça, acaba por partir os dentes, mas lá recompõe a existência, passando a viver num café da cidade e transformando-se no singular “(O) vampiro que bebia groselha”.

Continuando nestas Seis histórias às avessas, trago à colação o conto “A Menina dos Cabelos de Ouro”. E pergunto: que força para a vida não arranjaremos se, em pequenos, tivermos o privilégio de ler uma história como esta? A Menina de cabelos literalmente de ouro tinha pais e demais família a, oportunisticamente, cortarem-lhe umas farripas de franja aqui, a fazerem um acerto de pontas de cabelo acolá, para, com o ouro obtido, comprarem o que desejavam. Rodeada de gente a pedinchar – de colegas a pobres (“Dê-me um cabelinho, que não como há três dias”), ela ia dando, dando. Casou com um príncipe interesseiro que, convencendo a noiva de que a moda era “o cabelo curto”, aproveitou para pagar as despesas do reino. Só que as despesas eram tantas que um dia a Menina dos Cabelos de Ouro deu conta de que estava careca. Então, o “príncipe deixou de a amar, porque nunca se viu um príncipe gostar de uma menina careca, os amigos deixaram de a procurar e o povo troçava”. Eis senão quando, com um cabelo caído na gola do casaco, a Menina compra uma cabeleira postiça e parte. E o mote para que os leitores infantis pensem este conto é dado no epílogo: “Onde está ela agora? O que faz agora? Isso é outra história, que vocês vão inventar”. Que a sugestão do que fazer posteriormente à leitura deste conto foi dada neste desfecho não há dúvida. O que inventarão as crianças não o sei. Mas, seguramente, já entenderam que a Menina deu ‘a volta por cima’. Ou seja, há que nunca desistir de enfrentar a vida.

Por vezes, os protagonistas dos textos de Luísa Ducla Soares começam por agir a contrario do que pareceria acertado. Mas acabam, afinal, por obter ganhos. Em Comprar, comprar, comprar!, o protagonista é Rúben, um rapaz que “passava a vida no centro comercial” e que, por isso, “só sabia que era primavera quando das monstras retiravam os casacos e vestiam os manequins com roupas leves, coloridas”. A família criticava-o, mas, bem vistas as coisas, a irmã passava o tempo a consumir alimentos e os pais “paralisados diante da televisão”. Depois de umas férias num lugarejo rural (Vilar de Lagartixas), Rúben abandonou o consumismo. E toda a família acabou a, ironicamente, vender, vender, vender os presentes campestres que lhe haviam sido trazidos pelo rapaz, para, com o dinheiro obtido, viajarem até Vilar de Lagartixas. Em Uma vaca de estimação, um professor, homem de saber livresco, que levava à letra tudo o que os livros diziam, ao ler que “a vaca é o mais útil de todos os animais”, decidiu comprar uma para animal de estimação, a fim de combater a solidão em que vivia. Tudo correu mal: a vaca dava-lhe marradas, comia o fundo das cadeiras de palhinha, os cortinados… Depauperado com os gastos provocados pelo peculiar animal de estimação, foi viver com a vaca para o campo. Quando a vaca foi atropelada, o professor seguiu “à risca todos os ensinamentos sobre a utilidade de uma vaca depois de morta”: fez tapetes, chouriços, botões, congelou carne, passou a usar “os chifres como cornetas para tocar nas festas”. E com a ida a festas, venceu a solidão.

É assim que, mais do que aceitar a diferença, mais do que apelar à tolerância, o que temos na obra desta autora é um bem-haja muito digno aos que são, pensam e agem de modo diferente, um elogio muito terno à vida.

A Princesa da Chuva é outro excelente exemplo para o que acabo de afirmar. A Princesa Princelinda era filha de uma rainha “muito conservadora”, que, no dizer do rei, tinha “uma antiquada mania das fadas!”. Quando do nascimento de Princelinda, a rainha pusera anúncio em todos os jornais do reino: “3 Fadas precisam-se. Paga-se bem. Contactar o Palácio Real”. As fadas apresentaram-se dispostas a fadar. A primeira fadou a Princesa para a bondade; a segunda, para a beleza. A terceira fada começou por exigir um bom almoço; após, entrou em negociações (para fadar, não fazia abatimentos nem aceitava pagamento a prestações), pelo que se atrasou na função. Quando, finalmente, se dispôs a fadar, a princesa fez-lhe chichi em cima do vestido. A vingança foi imediata: “Eu te fado – gritou ela – para que sejas a Princesa da Chuva, para que chova sempre onde tu estiveres”. Com a capital do reino transformada (“As ruas tinham-se transformado em rios, as praças em lagos. As casas eram agora construídas sobre estacas. Os jardineiros plantavam nenúfares. Os fidalgos, em vez de irem à caça, pescavam das janelas”), Princelinda, que crescera em bondade e em beleza, decidiu partir e andar de “terra em terra, com a chuva a reboque, por montes e vales, serras e desertos, puxando-a para onde fazia falta”. Foi ela também quem salvou de um enorme incêndio o palácio dos pais e a cidade real, galopando em redor. Foi então que concluiu que, “Em vez de maldição, foi um dom que a fada me concedeu, afinal, ao fazer-me Princesa da Chuva”. E, sob o olhar embevecido do rei (“São tão independentes as raparigas modernas… Sempre em viagem!”, observava ele), lá partia de novo a Princesa da Chuva para outras terras, avisando os pais que o programa de viagens vinha “anunciado no boletim meteorológico”.

Como vemos, o elogio da diferença é feito de um modo divertido. Mudando o que supostamente estaria predestinado, a nossa atenção é conduzida para ver e aceitar as coisas que não são as mais visíveis – quer dizer, e relembremos, aquelas “que ninguém vê a olho nu”. Não se trata de diversão no sentido do riso fácil, mas no de rirmo-nos de nós próprios, pensarmos e atingirmos a capacidade de romper com rotinas ou com preconceitos, recriarmo-nos. Em suma, é uma escrita divertida, porque crítica, esclarecida, imaginativa.

5.        O trabalho sobre a linguagem é preponderante em todos os textos da escritora. Afirmei-o atrás e pego agora na aparentemente simples história de A Carochinha e o João Ratão, recriada por Luísa Ducla Soares. Na versão da autora, este conto passa a ser todo ele em verso rimado. A intriga, que começa por seguir o rumo da história tradicional portuguesa registada por escrito, no século XIX, em Contos Populares Portugueses,de Adolfo Coelho, é de imediato actualizada: a Carochinha, ao varrer a cozinha, encontra… um euro! Há alteração da caracterização das personagens: da Carochinha, que aqui não se apresenta como “bonita e perfeitinha”, mas como “vaidosa/ mas bonitinha”, e dos pretendentes. Se na história tradicional registada por Adolfo Coelho, os pretendentes eram sucessivamente rejeitados pela “fala” de cada um, pois não “serviam” à Carochinha por poderem vir a acordar os meninos de noite, nesta nova versão, eles são rejeitados por darem pouca importância à comida – o porco, o cão, o galo, o boi, todos dizem comer “o que calhar”; apenas o rato se distingue por aceitar comer “só um bom jantar”. Após o episódio em que a Carochinha descobriu o “muito guloso” maridinho “cozido, assado/ no caldeirão”, surge a lengalenga final (que recupera parte da lengalenga tradicional): a tripeça – nesta versão, o banco – quebra-se, a porta fecha-se, a fonte seca e o garfo, elemento novo, espeta-se. O último elemento da cadeia, o rei, “que ia a passar”, revela-se a solução: “Meteu a espada/ no caldeirão/ Por lá subiu/ o João Ratão”.

O João Ratão não morre nesta nova versão, cuja intriga gira, afinal, em torno da comida. Ele sai do caldeirão com um “Que bela sopa!/ – gritou, contente./ Ah, só foi pena/ não estar quente”. Afinal, não era João Ratão, como se usa dizer, um bom garfo? Ou seja, a alusão a expressões da linguagem corrente, ao caso, ser-se um bom garfo dá mote a (e provoca um desfecho diferente para) esta conhecida intriga. E isso não é feito de modo direto, antes incentivando a uma leitura inteligente, porque inferencial.

Naturalmente, ao trabalho sobre linguagem alia-se o domínio de técnicas narrativas. Dêmos como exemplo o livro Os animais do Natal, no qual é celebrada a quadra natalícia com três divertidas histórias, narradas sob o ponto de vista dos animais do presépio: o burro, a vaca, os três camelos – aliás, uma “camela” e dois camelos (que disputam o amor da “camela”).

No primeiro conto, o burro, depois das agruras de uma vida, encontrou donos afáveis: o casal Maria e José. Intrigado por Maria ter “a barriga cada vez maior” (“Terá comido muitos petiscos?”, interrogava-se ele), foi informado que iria nascer um bebé, que se chamaria Jesus e que iria “ser um menino muito especial”. O burro acedeu a acompanhar José e Maria, carregando-a, até Belém. Foi ele quem descobriu um curral, anunciando “Cheira-me a palha, cheira-me a curral” (sublinhado meu). Ali, onde “uma vaquinha remoía palha na quietude do anoitecer”, pernoitaram e, nascido Jesus, o burro aqueceu, “com o seu bafo, o recém-nascido”. No conto seguinte, conhecemos a história de vida “Uma vaquinha de boas famílias”, a vaca do presépio. Não tendo conseguido salvar da morte o seu vitelinho, foi recolhida por um judeu num “curral vazio”. A vaca por ali ficara, até que, quando viu “entrar no estábulo um casal mais um burro, estremeceu de medo. Iriam expulsá-la? Seria o burro embirrento e teimoso como muitos da sua laia?” (sublinhado meu). Embora preocupada após o nascimento do menino (“Como é que ela, agora, ia comer à vontade se a sua palha era o colchão do bebé?”), o instinto maternal prevaleceu: “O menino não tem pelo como o meu vitelinho nem roupa para este inverno, mas hei de protegê-lo”.

Note-se como cada protagonista dos dois distintos contos nomeia o espaço em função do outro: para o burro, trata-se de um curral (onde já está a vaca); a vaca, a ocupar lugar que lhe era estranho, ao ver entrar o burro, logo designa o espaço por estábulo. Se, no primeiro conto, era o burro a tomar a iniciativa de bafejar o menino, aquecendo-o e zurrando “Ó vaca, não sejas uma inútil (…) vem também aquecer o bebé”, no segundo conto, é o jerico quem sente ciúme e a vaca a senhora dessa iniciativa:

– Eu já faço parte desta família e a metediça da vaca quer imitar-me! – refilou ele [o burro] entre dentes. – Sai daí! Tens mau hálito… Cheiras a cenouras.

– E tu cheiras a favas – replicou a vaca. – És mesmo burro. Querias que eu cheirasse a perfumes do Oriente? Aquece mas é o menino, que dois não somos de mais, e para de zurrar, pois ele precisa de descansar.

6.        Sou particularmente apreciadora dos poemas de Luísa Ducla Soares. Abecedário maluco, que integra esta coleção da Porto Editora,é um livro de 20 poemas. Neles há os traços deliciosamente hiperbólicos a que a autora nos habituou na demais obra (veja-se, por exemplo, “Que grande saia”). Alguns poemas partem das rimas tradicionais portuguesas; outros são construídos com recurso a jogos de palavras. Temos assim divertidos anfiguris (casos de “Tudo de pernas para o ar” e de “Eu fui ao pinhal”), à maneira das rimas tradicionais portuguesas, ou jogos com topónimos (e percorrem-se as regiões de Portugal), com antropónimos (e temos abecedários de nomes próprios, de sobrenomes).

Uns e outros são bem recebidos por crianças de idades de 1.º Ciclo. Estas, sempre em jeito de brincadeira, podem lidar com palavras homógrafas, homófonas, homónimas (em “Poema às notas”, em “As palavras também fazem partidas”), exercitar onomatopeias. A este pretexto, vejamos alguns excertos de “Os sons das palavras”, poema ideal para récita – bastará que, por exemplo, o adulto leia o poema em voz alta e as crianças, em coro, treinando a entoação e o ritmo, façam os sons das onomatopeias:

Vibram os sons pelo ar,
cantam nos nossos ouvidos.
Vamos lá desencantar
palavras que são ruídos.

Pim, pim, pim, pinga a chuva,
chap, chap, chap, chapinha o pato,
zum, zum, zum, zumbe o mosquito,
miau, miau, miau, mia o gato.

Mu, mu, mu, muge a vaca,
piu, piu, piu, o pinto pia,
cá, cá, cacareja a franga,
chi, chi, chi, o rato chia.

Ron, ron, ron, ronrona a gata,
tlin, tlin, tlin, tilinta o sino,
tam, tam, tam, faz o tambor,
toca um i o violino.

Cu, cu, cu, o cuco canta,
ru, ru, ru, ruge o leão,
si, si, si, a cobra silva,
bom! bom!, ribomba o trovão.

(…)

Fecho os olhos, oiço os sons:
as palavras, os ruídos.
É como se o mundo entrasse
todo pelos meus ouvidos.

Com um poema como “O menino perguntador”, no qual há o jogo da palavra puxa palavra (a última palavra de um verso é retomada no início do seguinte), é igualmente fácil preparar-se uma animação de leitura, propondo às crianças que antecipem a palavra de cada novo verso. Simultaneamente e em especial, está aberto caminho para incentivar as crianças a construírem elas próprias mais versos, introduzindo novos elos.

Pelo que acabo de afirmar, defendo que a presença em sala de aula dos textos desta escritora é imprescindível. E é altura de ressalvar um livro de utilidade extrema em sala de aula – O livro das datas, visto que nele se abordam a origem e significado das datas mais importantes, e cada explicação de efemérides e dias festivos é acompanhada de uma história alusiva.

7.        Sempre me encanta na obra de Luísa Ducla Soares para crianças, como, aliás, na de outros grandes autores portugueses de literatura infantil (estou a lembrar-me de Sidónio Muralha), o facto de o mundo ser olhado de forma deslumbrada, a partir de lugares e gestos a que não costumamos dar importância, que nos passam despercebidos, a menos que nos reconheçamos no olhar de espanto da infância… Ou seja, o mundo é olhado a partir de um ponto pequenino, de um qualquer objecto, tão banal que não o lembraríamos digno do dizer poético. Exemplifico com o poema “O guarda-chuva”, do livro Abecedário maluco:

O guarda-chuva não guarda
afinal chuva nenhuma.
É um girassol molhado
tomando duche na bruma.

Ele é a flor do inverno
que cresce na nossa mão,
a que só abre sem sol
e dorme durante o verão.

Ele é o paraquedas
que sobe do chão para o ar.
Rodopiando no vento
eu vou com ele a voar.

A destreza com que a autora nos obriga a perceber a poeticidade inerente às coisas simples (um guarda-chuva, por exemplo), a subtileza com que incentiva a deixarmo-nos ‘voar’, o modo como nos faz relativizar a insipidez (como diria Alexandre O’Neill, a “tristeza contentinha”) do quotidiano são traços soberbos da sua obra.

Mais: Luísa Ducla Soares ‘passeia-se de trás para a frente’ com pleno conhecimento da maneira como as crianças dialogam com o mundo a partir delas próprias, trazendo para os textos a vida delas, os interesses que elas têm, a forma como olham afetivamente os outros.

Vejamos como isso se pode evidenciar num poema. Escolho “Dia de Natal”, de Abecedário Maluco:

Hoje é dia de Natal
Mas o Menino Jesus
Nem sequer tem uma cama,
Dorme na palha onde o pus.

Recebi cinco brinquedos
Mais um casaco comprido.
Pobre Menino Jesus,
Faz anos e está despido.

Comi bacalhau e bolos,
Peru, pinhões e pudim.
Só ele não comeu nada
Do que me deram a mim.

Os reis de longe lhe trazem
Tesouros, incenso e mirra.
Se me dessem tais presentes,
Eu cá fazia uma birra.

Às escondidas de todos
Vou pegar-lhe pela mão
E sentá-lo no meu colo
Para ver televisão.

Note-se como, quadra a quadra, ali perpassam os dias festivos, tão especiais, as inquietações sobre onde dormir; com que brincar, o que vestir; o que comer; objetos que atraem ou não as crianças e suas reacções; o modo como se ‘escondem’ do adulto, os entretenimentos que preferem, a espontânea franqueza com que precisam de ternura, de atenção, e como, generosamente, sabem dar tais ternura e atenção, qual dádiva, aos seus pares, aos seus cúmplices. É a recriação desse universo infantil que parece conduzir esta escrita.

É porventura nisto tudo ou, sabe-se lá, naquilo que eu não soube dizer, que reside a explicação para a reação calorosa que as crianças manifestam pelos livros de Luísa Ducla Soares. Sei que muitos Educadores de Infância e Professores de 1.º Ciclo podem confirmar o que acabo de dizer. Àqueles que, eventualmente, ainda não tenham feito esta comprovação, proponho que aceitem o desafio de dar a ler estes livros.

A obra literária de Luísa Ducla Soares tem extraordinárias virtualidades matriciais: a qualidade literária e o primado ético caminham a par das potencialidades de animação de leitura e de incentivo à escrita. Aos professores e demais orientadores de leitura é mostrado subtilmente o modo de dar a ler os textos e o que sugerir como exploração posterior à leitura.

A educação literária é fulcral para um crescimento estético, informado e crítico das crianças. Ela só é possível com textos de qualidade e com uma didáctica adequada. Congratulo-me, pois, por haver uma nova colecção de livros de Luísa Ducla Soares à espera de serem levados às crianças, para que essa educação aconteça.

Texto de apresentação pública da Coleção Luísa Ducla Soares (Porto Editora) que ocorreu em 21 de outubro de 2015, no El Corte Inglês, Lisboa.


(1) São eles: A Carochinha e o João Ratão; A Princesa da Chuva; Abecedário maluco; Comprar, comprar, comprar!; Contos para rir; Seis histórias às avessas; O Capuchinho Vermelho no século XXI; O livro das datas; O soldado João; Três histórias do futuro; Uma história de dedos; Uma vaca de estimação; Uns óculos para a Rita e Os animais do Natal.

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