2020-11-30

Obra Poética II de Artur do Cruzeiro Seixas

Segundo volume chega às livrarias no dia em que comemoraria 100 anos

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Em 2020, ano em que se celebraria o seu centésimo aniversário, a coleção elogio da sombra, da Porto Editora, iniciou a publicação da Obra Poética completa de Artur do Cruzeiro Seixas. O primeiro volume foi lançado em junho e o segundo volume chega às livrarias no dia 3 de dezembro, dia do seu aniversário.


«Diz Cruzeiro Seixas que o que pintou e escreveu são apenas fragmentos; “São fragmentos o que o meu dia a dia me dá; fragmentos de amor, fragmentos de génio, fragmentos de sonho etc, etc…, neste fragmento de país”. Por aqui seguimos, cegos pela intensidade da luz. Creio que é Jean Paulhan que refere “o furor poético do surrealismo”, e creio eu que é esse furor que passa nesta poesia como passa nessa África afinal ainda subjugada.», escreve a organizadora do volume, Isabel Meyrelles.

Decano da arte portuguesa, Artur do Cruzeiro Seixas é um dos nomes incontornáveis do movimento surrealista, do qual foi um dos principais precursores em Portugal. Com um vasto trabalho nas artes plásticas e visuais, foi também um poeta prolífico. «Penso em como os génios sempre independem do tempo e se definem pelo incrível.», escreveu Valter Hugo Mãe, curador da coleção. «Nesta vasta obra se encontra um surrealismo pleno, a relação mais indomável que ao espírito humano revela sobretudo o que tem de inexplicável e, ainda assim, profundamente necessário».

Tenho as mãos sujas de poesia
o caminho lacerado por certas aves,
o corpo em farrapos.

Com este absorto entardecer
por sobre os ombros
olho o espaço.

Aberta a paisagem inquieta
espera
inocente e inanimada.

Estamos frente a frente
como duas sombras inúteis
caídas ao lado da estrada.


Luanda 55


SOBRE O LIVRO

Artur do Cruzeiro Seixas é agora um homem com o tamanho de cem anos. Cada um dos seus gestos é um século em movimento. Penso nisso em todos os encontros, penso em como os génios sempre independem do tempo e se definem pelo incrível.
Na ansiedade de Cruzeiro Seixas, essa imparável pulsão começadora, nada se exclui. Tantas vezes lhe ouvi o protesto contra qualquer existência estúpida, aquela incapaz do sensível e do criativo, aquela incapaz da humanização que a arte e o conhecimento comportam. Para o grande e genial mestre a vida é uma gula que se revela em todas as formas de maravilha, a partir do fascínio ou do susto, a partir do belo e do que se torna belo em seu genuíno tremendismo.

A elogio da sombra repõe agora os volumes organizados por Isabel Meyrelles e que atónito, há umas décadas, encontrei inéditos na casa do mestre, ainda na carismática casa da Rua da Rosa. Mais adiante, daremos à estampa um quarto volume recolhendo os poemas dispersos. Nesta vasta obra se encontra um surrealismo pleno, a relação mais indomável que ao espírito humano revela sobretudo o que tem de inexplicável e, ainda assim, profundamente necessário.
Uma das figuras maiores do surrealismo do mundo, Artur do Cruzeiro Seixas ergue a poesia como “a boca que olha”. Tão feita do improvável quanto de presciência. Graça alquímica. A transcendência dos que foram eleitos para ver.


Valter Hugo Mãe


SOBRE O AUTOR

Decano da arte portuguesa e um dos grandes nomes do Surrealismo português e europeu, Artur do Cruzeiro Seixas nasceu em 1920, na Amadora. No seu longo percurso artístico, conta com uma fase expressionista, outra neo-realista e outra, com início no final dos anos 40, mais prolongada, em que integra o movimento Surrealista Português, ao lado de Mário Cesariny, Carlos Calvet, António Maria Lisboa, Pedro Oom ou Mário Henrique Leiria. Foi um dos seus precursores e atualmente é considerado um dos seus máximos expoentes, considerando-se que o surrealismo fantástico visível na sua obra tenha tido como principal inspiração o trabalho do artista De Chirico. É autor de um vasto trabalho no campo do desenho e pintura, mas também na poesia e objetos/escultura. No ano de 1952, foi viver para Angola, onde realizou várias exposições individuais e projetos na área da museologia. Em 1964, fugindo da guerra colonial que se vivia, decidiu empreender uma viagem pela Europa.

No seu percurso conta inúmeras exposições individuais e coletivas em importantes museus e galerias, em Portugal e no estrangeiro, e com diversos prémios e distinções. Em outubro de 2012, a Sociedade Portuguesa de Autores atribuiu-lhe a Medalha de Honra em forma de reconhecimento pela sua longa e sólida carreira artística, como pintor e poeta. Em outubro de 2020 foi agraciado pela Ministra da Cultura, Graça Fonseca, com a Medalha de Mérito Cultural, “reconhecimento institucional, mas é também um reconhecimento pessoal de alguém que se junta aos muitos que o admiram e que em si reconhecem um olhar que sempre viu mais longe e mais profundo”.

Morreu a 8 de novembro, em Lisboa, prestes a completar 100 anos.

 

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