2022-11-17

Escolha da editora

«Bábi Iar», de Anatóli Kuznetsov

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Pouco mais de 80 anos antes de em fevereiro passado as tropas russas terem entrado em território ucraniano, uma outra tomada daquele país por forças estrangeiras teve lugar: a das forças nazis, em plena Segunda Guerra Mundial. Anatóli Kuznetsov era um rapaz de 12 anos quando, em 19 de setembro de 1941, os militares alemães marcharam sobre Kiev e assistiu com curiosidade e assombro àquele momento histórico. Vivia com a sua mãe, professora, os avós e um gato, Tito, um conjunto de «civis insignificantes», escreverá, que, como tantos outros, são dos que menos querendo a guerra mais sofrem com ela.  

 

No decorrer dos dois anos que durou a ocupação, Anatóli foi registando num caderno tudo o que via e ouvia, em especial o que dizia respeito ao que se passava em Bábi Iar, uma ravina nas imediações de Kiev, onde, sabe-se hoje, milhares e milhares de judeus foram assassinados. Quando, por acaso, a mãe encontrou o seu caderno de notas e o leu, chorou e recomendou que o guardasse bem. «Foi a primeira pessoa a dizer-me que um dia deveria publicá-lo como um livro», recorda. Bábi Iar é a concretização desse propósito, um documento histórico e literário tremendo que, recuando à Ucrânia das primeiras décadas do século xx, ressoa hoje e dá um contributo poderoso para o entendimento dos acontecimentos atuais.  

 

A história da publicação deste texto foi, contudo, atribulada. A sua primeira edição ocorreria 25 anos mais tarde, em 1966, numa versão submetida à censura soviética, que revelou pela primeira vez ao mundo um massacre até então mantido oculto quer por nazis quer por soviéticos. Mas foi apenas em 1969, após a fuga de Kuznetsov para o Reino Unido, que o verdadeiro livro pôde ser escrito, sem preocupações «com nenhumas regras literárias ou sistemas políticos, fronteiras, censores ou preconceitos nacionais». A edição definitiva do livro, não censurada, seria publicada nos Estados Unidos da América em 1970 – e é essa versão que agora, finalmente, se dá a ler em Portugal. As passagens deixadas de fora da primeira edição ou que foram significativamente alteradas no texto considerado final pelo seu autor vão agora destacadas, permitindo a identificação das diferenças entre as duas versões, a primeira já publicada pela Livros do Brasil nos anos 70.  

 

«Por mais que se queime e disperse e encubra e minta, a memória humana persiste. A história não se deixa ludibriar, e nada pode ficar escondido para sempre», clama Kuznetsov. Contando com uma valiosa introdução de Irene Flunser Pimentel, que contextualiza este documento na história dos totalitarismos que povoaram a Europa do século passado e faz a ponte com o momento presente, é com orgulho que publicamos esta nova edição de Bábi Iar. Em nome da memória.  

 

 

 

 

 

São José Sousa 

Editora 

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