2024-05-20

Entrevista a Carlos de Matos Gomes

Nos 50 anos da Revolução de Abril, o autor conta-nos a sua história, que se cruza com a de uma geração que protagonizou a época

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Não só Carlos de Matos Gomes é um dos maiores especialistas em História da Guerra Colonial, como viveu na pele esse drama. E é com base nessa dupla experiência que assina Geração D, o livro de memórias desses tempos de temor e incerteza, mas também de frutífera esperança e resiliência. O autor conta-nos como foi. 

 

Em que circunstâncias é que o romancista Carlos Vale Ferraz deu lugar ao historiador Carlos de Matos Gomes para escrever e ser o protagonista deste livro de memórias? 

Aprendi com a ficção e com a História que as representações da realidade podem ser mais fiéis na liberdade ficcional do que através do rigor da narrativa histórica, mas que factos e acontecimentos, os elementos que alimentam a História, seja a de um povo, seja a de um indivíduo, são os pilares dos registos onde se ergue o conhecimento. A ficção permite a inclusão dos sentimentos, das emoções, das dúvidas que enriquecem a interpretação da História. A ficção permite ao autor confessar e expor o que o historiador não pode dizer por falta de comprovação através de fontes, mas a História traz a verosimilhança que enriquece a ficção. Este meu livro apresenta uma realidade ficcionada, o que não quer dizer que os factos não tenham ocorrido. Ocorreram, mas o narrador interpreta-os. Esta é a minha interpretação dos factos que eu e a minha geração vivemos.  

 

 

 

Este é um livro biográfico, mas não só de um único indivíduo: é o retrato de toda uma geração, não é assim? 

Desde o primeiro romance, Nó Cego, publicado em 1983, que procurei deixar um registo da participação da minha geração na História de Portugal. Tive a consciência de sermos a geração das primeiras e das últimas aventuras e oportunidades. Uma geração de ruturas. Nascemos numa «dobradiça» da história mundial e da história de Portugal, no final da Segunda Guerra Mundial, no início da era das democracias alargadas e de bem-estar na Europa, no questionamento das ditaduras que foram moda antes da guerra, a geração do movimento descolonizador e dos ventos da mudança no mundo e da continuação da ditadura e do colonialismo em Portugal, a única geração que conheceu o interior de África, a que se abriu ao estrangeiro, com o turismo. A geração da rutura dos comportamentos. 

 

«Tenho a pretensão de julgar que ao ler o livro, os leitores, de qualquer geração, entenderão melhor porque a situação de Portugal e da sociedade portuguesa é esta, o que devemos ao 25 de Abril de 74, ao 11 de março de 75, ao 25 de novembro de 75 […]» 

 

A publicação do livro no 50.º aniversário da Revolução dos Cravos é por demais simbólica. Enquanto ator ativo desse momento marcante na história recente do País, que significado tem esta efeméride? 

A ideia de publicar um livro geracional nos 50 anos do 25 de Abril surgiu-me durante a pandemia. Durante esse período morreram muitos homens e mulheres da minha geração. Entendi que devia deixar um testemunho de nós e não encontrei melhor personagem do que eu, assumidamente eu e não uma personagem criada a partir de mim. A opção foi um ato de desafio, em primeiro lugar a mim: um pouco como subir a um palanque e ficar ali exposto a contar a minha história enquanto os espectadores param a escutar, a deixar uma moeda, a discutir e a contestar o que eu relato, até a atirarem fruta podre. O resultado está no livro e nas opiniões que os leitores de todas as idades, os passantes, tenham do que leram. A organização do livro, em pequenos episódios, uns pícaros, outros dramáticos, uns da minha autoria, outros de autoria diversa, de testemunhas e de camaradas meus, pode ser comparada à dos romances de cordel! Tenho a pretensão de julgar que, ao ler o livro, os leitores, de qualquer geração, entenderão melhor porque a situação de Portugal e da sociedade portuguesa é esta, o que devemos ao 25 de Abril de 74, ao 11 de março de 75, ao 25 de novembro de 75, o que devemos a Otelo Saraiva de Carvalho, a Salgueiro Maia, a Mário Soares, a Spínola, a Vasco Lourenço, a Costa Gomes, ao «Grupo dos Nove», a Isabel do Carmo, entre tantos outros.  

 

Aos 24 anos, era já capitão e comandante de uma companhia de tropas especiais em Moçambique. Antes esteve em Angola e poucos anos depois seguiria para a Guiné. Que marcas deixa uma experiência tão tremenda em alguém tão novo? 

A questão da idade acompanhou-me desde muito cedo, como conto no livro: andei de avião e de barco muito cedo, escapei de morrer afogado muito cedo, entrei para a escola primária e dela fui expulso muito cedo, viajei sozinho por Espanha muito cedo. É sina de família: a minha avó materna, Honorina de seu nome, que refiro no livro, atravessou os Estados Unidos de costa a costa com dezoito anos. Fui sempre o mais novo da turma (um companheiro meu no Colégio de Tomar, o Chico Batista, contesta-me sempre, ele é uma semana mais novo). Mas a verdade é que me habituei a ser o novo mais velho e a assumir com a naturalidade possível esse facto. Acredito que a idade me tenha dotado da ração de inconsciência que ajuda a ultrapassar sem danos visíveis à primeira vista as consequências da violência inerente à guerra e me tenha ajudado a pensar como evitar as causas das situações que vivi.  

 

A amizade e a camaradagem são o lado positivo (e duradouro) da guerra? 

Talvez a amizade e a camaradagem tenham sido originadas pelas necessidades da guerra. Combater ombro a ombro, com as costas protegidas, contar com um camarada para nos assistir nos nossos medos, com alguém que nos dê um gole de água e nos segure a mão quando moribundos, que nos carregue o corpo às costas, essas são as sementes da amizade e da camaradagem. Entendo esses sentimentos como essenciais. Daí ter irmãos de armas. Não há qualquer sentimento de superioridade da minha parte por ter vivido com esses valores, foram fruto das circunstâncias, mas julgo que podemos e devemos praticar a camaradagem e a amizade independentemente delas.   

 

«Combater ombro a ombro, com as costas protegidas, contar com um camarada para nos assistir nos nossos medos, com alguém que nos dê um gole de água e nos segure a mão quando moribundos, que nos carregue o corpo às costas, essas são as sementes da amizade e da camaradagem.» 

 

O 25 de abril em Portugal acabou por ser o 26 de abril em África, dadas as diferenças de fuso horário e as dificuldades de comunicação. Como foi viver tudo tão longe e com tanto desfasamento? 

O grupo restrito de militares que na Guiné, onde me encontrava, sabia o que e quando ia acontecer, passou o dia ansioso e preparado para cumprir o que estava estabelecido: tomar o poder em Bissau caso a ação corresse mal em Lisboa. Tínhamos a consciência de ser imprescindível o derrube do regime para salvar Portugal. O 25 de Abril foi um ato de salvação antes de ser um ato de restituição aos portugueses da dignidade de seres livres. Antes de ser um ato de reintegração de Portugal no seu espaço civilizacional e da abertura de Portugal à modernidade, com o fim de um regime arcaico e anacrónico, fora do tempo a todos os títulos.  

 

No livro escreve que: «A multidão tem a inteligência de uma vaga de mar e a brutalidade de uma manada.» Há coisas que não mudaram com o 25 de Abril?  

Tenho horror às multidões, como tenho horror ao que não posso controlar. Tenho horror às manifestações de massas, daí a minha repugnância pelos tribunos, pelos salvadores, pelas certezas, daí a recusa em me incorporar em manifestações de fé. Não se consegue olhar uma multidão nos olhos! Não se consegue argumentar com uma multidão! Não se consegue chamar «assassinos» a uma multidão que assiste a um auto de fé ou a um suplício da Inquisição, nem a um linchamento. A minha desmedida admiração pelo meu amigo e camarada Fernando Salgueiro Maia tem, além de muitas outras razões, origem na forma como ele soube e conseguiu gerir a multidão que o envolveu e aos seus homens e viaturas armadas no Largo do Carmo, onde uma pequena fagulha podia ter desencadeado um movimento de pânico de consequências inimagináveis. Ao escrever este livro lembrei-me muito dele e também de Otelo Saraiva de Carvalho, que o incentivou a deixar entrar o povo no Largo do Carmo e na revolução. Tudo o que hoje vivemos seria certamente muito diferente sem ele e sem Otelo nos lugares onde se transformaram em heróis no 25 de Abril.  

 

 

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