2019-11-24

Carlos Vale Ferraz na Cerimónia de Entrega do Prémio Fernando Namora

O autor do romance A Última Viúva de África agradeceu a distinção no discurso que agora partilhamos.

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Exmo Senhor Presidente do Conselho de Administração da Sociedade Estoril Sol

Exmo Senhor Presidente do Júri do Prémio Fernando Namora e exmos membros do Júri

Excelentíssimos convidados

Meus companheiros vencedores dos prémios hoje entregues. Saúdo de maneira particular Maria do Céu Guerra, uma grande senhora do teatro, da cultura e uma cidadã lutadora pela liberdade e pela justiça, presidente do movimento para a paz na Palestina e o fim da criminosa violência sobre o povo palestiniano. Ao Manuel Alberto Valente, meu editor do romance A Última Viúva de África na Porto Editora, uma palavra de grande estima e de reconhecimento, foi ele que ao ouvir-me esboçar esta história, me disse: quero editá-la. Por motivos de força maior não pode estar aqui presente, como era seu desejo.

Uma saudação de grande respeito e admiração a todos os vencedores que me antecederam na atribuição do Prémio Fernando Namora e a todos os escritores que tiveram obras em apreciação. Saúdo por fim a vendedora do prémio deste ano, a escritora Julieta Monginho.

Uma palavra essencial para a minha família que aqui me acompanha.

Minhas amigas e meus amigos

Os prémios não tornam os livros melhores, mas estimulam os autores a serem melhores, aumentam a sua responsabilidade. Os prémios são atos de reconhecimento que contribuem para melhorar a relação da sociedade com a literatura. No meu caso com o romance. Por isso todos os que escrevem e publicam merecem o reconhecimento da sociedade e dos seus pares. É esse reconhecimento que aqui recebemos por parte da Sociedade Estoril Sol, bem hajam.

As minhas primeiras palavras são para prestar homenagem ao patrono do prémio com que o meu romance foi distinguido, Fernando Namora. É com um sentimento de grande felicidade que vejo o meu nome associado ao de Fernando Namora, de que se comemora este ano o centenário. Não é este o lugar para uma análise à vida e obra de Namora, uma celebração a que a Associação Portuguesa de Escritores e outras entidades, como o Jornal de Letras, deram o merecido relevo, mas direi que me identifico com Namora enquanto romancista que contou histórias do seu tempo e da sociedade onde viveu. Histórias de personagens e de acontecimentos, de dramas, de representações da realidade, histórias que ajudarão os contemporâneos a perceberem a sua época e os vindouros a ligarem o seu presente ao passado. Tal como Namora eu escrevo sobre Portugal e os portugueses.

Mas reconheço-me também em Namora como um cidadão social e politicamente empenhado, como alguém que lutou pela liberdade e pela justiça, pelo direito a uma sociedade mais justa, mais igualitária, com os cidadãos mais cultos, logo mais protegidos contra a mentira e a demagogia. Por uma sociedade generosa, solidária e aberta, num tempo em que, como o de Namora, se levantam barreiras de intolerância por motivos de raça, de etnia, de género. Se vivem tempos de nuvens escuras.

Por todos estes motivos me sinto feliz por este prémio. Me orgulho, enquanto capitão de Abril, de ter contribuído, um pouco que seja, para a liberdade conquistada em 25 de Abril de 1974 e de que hoje gozamos. Por podermos exprimir o que pensamos sem as peias da censura. Expressar ideias e valores é um dos papéis da arte, logo da literatura e do romance.

Sou um apoiante da existência de e prémios literários, de festivais literários, de feiras de livros, de dias do livro e dos autores. Porque são meios de prova de vida da literatura, da história, da alma das gentes e dos povos.

E é quase de prova de vida que tratamos quando hoje falamos de literatura. A poetisa e editora Maria do Rosário Pedreira num texto de há uns tempos no DN a propósito de palavras esquecidas referia que o dicionário Houassis tinha cerca de 220 mil entradas, o dicionário on line Priberam 120 mil, mas que o vocabulário utilizado pela atual geração andava pelos cerca de 300 vocábulos.

A pobreza vocabular é fruto da ausência de leitura e não é um fenómeno exclusivamente português. De Itália surge a notícia de que o IKEA, a empresa que vende peças para os compradores montarem os móveis, retirou do mercado italiano a linha de estantes, uma vez que, de acordo com um relatório da Associação Italiana de Editores, 40% dos italianos não lê sequer um livro por ano. Admito que em Portugal as estantes de livros do IKEA jamais estiveram à venda.

Ora a Literatura é uma das armas para combater esta situação de desinteresse pelo que as histórias nos podem ensinar para além delas próprias. Ler aumenta a nossa capacidade de crítica, de compreensão e de comunicação e, compreendendo melhor, comunicando melhor, temos maiores probabilidades de nos entendermos melhor. Mas lê-se cada vez menos e textos mais pobres. A tecnolinguagem, a linguagem do telemóvel e do twitter são sintomáticas da pobreza do pensamento.

A mim espanta-me que chefes de Estado comuniquem o seu pensamento pelo twitter. Ou têm muito pouco a dizer, ou os cidadãos se interessam muito pouco pelo que eles dizem, ou nem os ditos chefes respeitam os seus concidadãos nem estes os chefes. Todas as hipóteses podem ser verdadeiras, mas são alarmantes. Ou deviam ser.

A literatura é a expressão de um pensamento. Ela enriquece o pensamento. É fruto da nossa capacidade de imaginar, de raciocinar, de recordar, de iludir, de dizer de outra maneira. A literatura é também a arte e a manha do ser humano. Deixar morrer a literatura é eliminar uma parte de nós, a parte que nos torna seres humanos melhor preparados para sobreviver.

Por isso, por tudo isto, promover a literatura é um dever de cidadania, como o que estamos aqui a viver, mas é também um inalienável dever e responsabilidade política do Estado.

O Estado, e sobretudo os estados das sociedades democráticas, porque os outros vivem da ignorância, deve ter como objetivo político a promoção da leitura e essa promoção tem de passar por todos os meios de formação, pela escola, por bibliotecas públicas – e recordo o trabalho de verdadeiro serviço público das antigas bibliotecas itinerantes da Gulbenkian, de que fui assíduo beneficiário -, por planos específicos como o Plano Nacional de Leitura, mas tem de incluir os grandes meios de comunicação de massas, as televisões, em primeiro lugar.

Os órgãos de comunicação social estão sujeitos a deveres impostos pela sociedade através do Estado, não são meras bancas de vender pechisbeques que dão lucro imediato ou servem fins exclusivamente privados. Os grandes meios de comunicação, públicos ou privados têm funções sociais que cabe ao Estado fazer cumprir para promover o bem comum.

A cultura é um bem público que devemos exigir que nos seja distribuído.

A literatura, a cultura de um modo geral, porque torna a sociedade e os cidadãos mais exigentes é uma matéria perigosa, mas, ao contrário dos motoristas de autotanques, os seus condutores, em vez de protegidos, são perseguidos, no nosso caso, o dos escritores, com as mais vis e eficazes formas de perseguição: o esquecimento, o desprezo.

Escritores, homens e mulheres de cultura, que pensam antes de escrever e falar, que expõem as suas ideias, as suas visões do mundo fora das visões padronizadas do não há alternativa são sistematicamente ignorados pelos grandes meios de comunicação de massas que arregimentam vendedores de opinião instantânea, mexeriqueiros e calhandreiras que replicam a ideologia das cadeiras de barbeiro, ou dos táxis. Figuras molusculares que falam com igual despudor de incêndios e de inundações, de contabilidade, educação, saúde, de mísseis intercontinentais e secas, de geografia e de tecnologia de ponta, de psicologia e de astronomia. Figuras contratadas para dizerem o que convém ser dito no momento, para adormecer aqueles que vão ser espoliados de tudo.

Permitam-me que conte aqui a história de um médico no tempo da guerra colonial que receitava aos soldados que o consultavam sempre o mesmo, independentemente das queixas: um comprimido de polivitaminas, um antipalúdico e uma aspirina – chamava a isto um tratamentozinho polivalente.

Nós, os portugueses temos direito a mais que um tratamentozinho polivalente de generalistas da cultura. Nós, os portugueses, que tanto reclamamos e quase sempre com razão, do tratamento aos males do nosso corpo dado no Serviço Nacional de Saúde, não podemos aceitar que o nosso espirito, a nossa dignidade, sejam tratados por charlatães, por vendedores de banha da cobra que nos impingem um tratamentozinho polivalente, ou por sermos anestesiados com reality shows prostibulares. A cultura e as pessoas cultas preparadas, capazes de contextualizar situações têm de ganhar o seu espaço de palavra. É um dever de todos lutar para que assim seja. É um dever recusar o anátema dos populistas contra os intelectuais. Sim, somos intelectuais, utilizamos o intelecto para definir o que pretendemos e recusar o que não queremos.

Nós, que em nome do mercado pagamos milhões pelos prejuízos dos mercadores, temos o direito e o dever de exigir que os detentores de empresas de serviços concessionados deixem respirar a nossa cultura, e de os desmascarar quando acusam quem lhes contesta o negócio da manipulação, de sermos defensores do elitismo e da subsidiodependência, de sermos inimigos da livre concorrência e da iniciativa privada, do direito de cada um escolher o que quer ver, quando, na realidade, eles só fornecem o que lhes convém que nós vejamos ou saibamos. Os agentes culturais devem constituir uma frente para lutar contra os impostores do pensamento único, pelo perigo em que colocam a sociedade por falta dessa matéria-prima essencial que é a cultura. Nós, os cidadãos, não podemos aceitar que nos façam os que os vendedores de fois gras fazem aos gansos, que nos enfiem o que nos engorda e mata pela garganta abaixo!

Voltando ao romance, entendo o romance como o definiu Aristóteles em a Poética, a propósito da Tragédia como um enredo com personagens, acontecimentos, com um tema, tudo conjugado com um estilo, uma forma. Para mim um romance é uma história e não uma habilidade com palavras e frases. E é da história dos romances que surgem as histórias que emergem noutros suportes, no teatro, na televisão, em séries e novelas, no cinema, até nos videojogos e em formas de comunicação mais distantes como uma passagem de modelos, um espetáculo de casino, ou um jantar, sujeitos a um tema e a uma narrativa.

Os meus romances procuram cumprir essas funções, de deixar a minha memória e a minha visão do mundo no tempo que me calhou viver, o tempo da ditadura, da questão colonial levada ao extremo do absurdo de uma guerra que em vez de ser o meio de encontrar uma solução para o problema colonial se transformou num fim em si mesmo de manutenção do regime. Foi assim com meu primeiro romance Nó Cego e foi assim com este A Última Viúva de África, agora premiado.

A Fernando Namora, classificaram-no de neorrealista. Eu, na feliz designação de João de Melo, estou incluído na geração dos escritores da guerra e do pós-colonialismo, tal como ele e alguns outros que escrevemos sobre esses acontecimentos e deles partimos para outras aventuras literárias. Ambas as designações me parecem acertadas. Escrevemos sobre a realidade de uma certa forma e de um certo tempo.

Neste romance d’ “A Última Viúva de África!” pretendi colocar a questão do colonialismo em África, muito distinto da colonização europeia na América do Norte e do Sul, também do direito aos europeus permanecerem em África, de nenhum continente do nosso planeta ser propriedade exclusiva dos seus nativos, de vivermos num mundo aberto, antiracista e não xenófobo. Mas falo também do direito de cada um de nós mudar a sua visão do mundo ao longo da vida, do confronto de cada um de nós com as suas memórias.

Eu escrevo como vivo. Enfrentando o mundo. E entendo que por detrás de cada obra de arte, do belo de um quadro, de um poema, de uma canção, de uma dança, de uma peça de teatro, de um filme existe sempre a dura realidade da dor, do sacrifício, da tortura, do crime, da dúvida, da traição. Cabe aos artistas confrontar os seus concidadãos com essas realidades.

Nós, os portugueses, somos herdeiros de culturas de dúvida e de razão, grega e latina, desenvolvemos por razões históricas e geográficas uma civilização de abertura ao mundo, de aventura, de descoberta, de encantamento. Cabe aos atuais homens e mulheres de cultura lutarem contra a mesquinhez do provincianismo, mesmo disfarçado de nacionalismo, da estupidez do racismo e da xenofobia, mesmo sob a cobertura de defesa da identidade. Cabe-nos a nós, os escritores, os artistas em geral, desmascarar os falsos profetas, os populistas, os fanáticos dos deuses de certezas.

Eu pretendo que o belo que toda a obra de arte almeja não nos iluda dos perigos da realidade. Carlos Vale Ferraz
Estoril, 20/Nov/2019

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