2017-09-12

Carlos Vale Ferraz lança A Última Viúva de África

A partir da história real de uma mulher portuguesa que não quis abandonar a sua nova pátria, o autor procura compreender as linhas do processo de descolonização africano.

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A 21 de setembro, a Porto Editora publica A Última Viúva de África, o novo romance de Carlos Vale Ferraz, referência na literatura sobre a guerra colonial. Este novo livro transporta-nos para as origens das lutas pela independência nas colónias africanas, no Congo, e a partir daí para os seus reflexos em Angola e Moçambique, recorrendo a personagens reais e ficcionadas.

O sucesso, o dinheiro e o poder contrastam com a miséria e a guerra, num livro onde o autor reflete, em grande parte, sobre o processo de descolonização africano iniciado no Congo, e questiona se de facto terá existido aquilo que os historiadores têm designado por «movimento descolonizador».

A Última Viúva de África será apresentado por Pedro Pezarat Correia no dia 27 de setembro, às 18:30, na FNAC do Chiado.

SINOPSE

Alice Oliveira, nascida e criada no Minho, num meio pobre e sem outros horizontes a não ser o casamento com algum camponês borrachão e a criação de uma enorme e desgraçada prole, ou o trabalho duro nas fábricas locais, cedo tomou as rédeas do seu destino. Nos anos cinquenta do século passado terá emigrado para o continente africano, pertencendo ao reduzido número de portugueses que permaneceu na antiga colónia belga do Congo após a independência. Conhecida nesses tempos por Madame X pelas autoridades portuguesas, para quem trabalhava como informadora, e por Kisimbi, a «mãe», pelos mercenários que combatiam em prol da secessão do Catanga, ela permanece uma figura misteriosa, que ganha contornos bem definidos neste romance, A Última Viúva de África, onde se recria o percurso de vida, os motivos, os encontros e desencontros e a rede de contactos que fizeram dela a amante frustrada do continente africano, a viúva branca de um paraíso perdido com a descolonização.

O AUTOR

Carlos Vale Ferraz, pseudónimo literário de Carlos de Matos Gomes, nasceu a 24 de julho de 1946, em Vila Nova da Barquinha. Foi oficial do Exército, tendo cumprido comissões em Angola, Moçambique e Guiné. O seu romance Nó Cego (1983) tornou-se de referência obrigatória na ficção portuguesa sobre a guerra colonial.

Algumas das suas obras foram adaptadas ao cinema e à televisão, e colaborou com Maria de Medeiros no argumento do filme Capitães de Abril. É investigador de História Contemporânea de Portugal. Publicou, como Carlos de Matos Gomes e em coautoria com Aniceto Afonso, os livros Guerra Colonial, Os Anos da Guerra Colonial e Portugal e a Grande Guerra.

EXCERTO

«Eu vi o outro lado, vi corromper até ao âmago os negros a quem nós, os brancos, queríamos deixar como nossos capatazes. Vi onde fomos buscar aqueles que escolhemos para nos substituir nos palácios dos governadores, nos quartéis-generais, nas sedes dos bancos ultramarinos, fomos recrutá-los aos seminários, às repartições do baixo funcionalismo, às secretarias dos regimentos das tropas de segunda linha, às tesourarias das empresas. Vi-os praticar o pior que lhes tínhamos ensinado. Como ganharam as eleições, cortando os braços aos eleitores dos adversários, a uns pelos cotovelos, os manche courtes, e a outros pelos pulsos, os manche longues. Impedindo-os de colocarem o dedo com a sua impressão num boletim de voto. Assisti à derrocada da Europa em África, vencida e traída pela América, aliada e campeã da civilização ocidental. A Alice Oliveira foi das que antecipou instintivamente esse resultado. Lutou até ao fim.»

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