Palácio de D. Manuel enche com Pilar del Río e José Luís Peixoto

 

As cadeiras no Palácio de D. Manuel foram insuficientes para acolher os quase 400 eborenses que aceitaram a boleia da Viagem Literária.

A chuva marcava o domingo, mas nem assim impediu que os eborenses se deslocassem ao magnífico Palácio de D. Manuel para viajar à boleia das palavras de Pilar del Río e José Luís Peixoto. Para os dois convidados, a Viagem em Évora prolongava as viagens pessoais: Pilar del Río acabava de chegar do México e José Luís Peixoto de mais uma incursão na Península Coreana.


Com quase 400 pessoas na assistência, a conversa passou, inevitavelmente, por uma das grandes afinidades entre os dois convidados: José Saramago, Prémio Nobel da Literatura em 1998.


Com João Paulo Sacadura ao volante desta conversa, Pilar del Río encantou o público com o relato da sua vivência ao lado de José Saramago. Da leitura de O ano da morte de Ricardo Reis, que deu origem a um telefonema da então jornalista na Andaluzia ao escritor português, o público pôde ouvir como se iniciou conjunta a vida de José e Pilar.


Os presentes tiveram ainda a oportunidade de ouvir a história da atribuição do Prémio Nobel e, com uma contribuição especial de Francisco José Viegas (que se encontrava na plateia a assistir à sessão), da euforia sentida pelos portugueses na Feira de Frankfurt em 1998.


A memória de José Saramago foi também evocada por José Luís Peixoto, que recordou a vitória da segunda edição do Prémio Literário José Saramago, com o seu romance Nenhum Olhar, e os conselhos e acompanhamento dados pelo Nobel.


Com um novo romance (ao qual prefere referir-se como “novela”) quase nas livrarias (data de publicação marcada para 23 de outubro) José Luís Peixoto fez a sua primeira intervenção pública sobre Em teu ventre. Sobre o olhar atento das quase 400 pessoas presentes no Palácio D. Manuel, José Luís Peixoto falou sobre o livro, que tem como base as aparições de Fátima, e deleitou a audiência com a leitura de um excerto do mesmo:


Uma mentira, fina como um cabelo, perturba para sempre a ordem do mundo. Aquilo que sabemos tem muita importância. Tomamos decisões, vamos por aqui ou por ali, consoante aquilo que sabemos. E tudo o que virá a seguir, o futuro até ao fim dos tempos, será diferente se formos por um lado em vez de irmos por outro. Nascem pessoas devido a insignificâncias, morrem pessoas pelo mesmo motivo. Uma pessoa é uma máquina de coisas a acontecer, possibilidades multiplicadas por possibilidades em todos os instantes do seu tempo. Uma mentira, mesmo que transparente, perturba o entendimento que os outros têm da realidade, leva-os a acreditar que é aquilo que não é. Essa poluição vai turvar-lhes a lógica do mundo. As conclusões a que forem capazes de chegar serão calculadas a partir de um dado falso e, desse ponto em diante, todas as contas serão multiplicações de erros. Uma mentira baralha tudo aquilo em que toca, desequilibra o mundo. É por isso que uma mentira precisa sempre de mentiras novas para se suster. O mundo não lhe dá cobertura. Para alcançar coerência, cada mentira requer a criação apressada de um mundo de mentira que a suporte. É assim que a mentira vai avançando pela verdade adentro, como uma toupeira cega a abrir túneis e câmaras no interior da terra. Quando se abre a boca para libertar uma mentira, a primeira, filha de nada que a justifique, nunca se consegue ter noção completa de onde chegará. Nesse momento, na inocência aparente, com voz de gatinho acabado de nascer, está a soltar-se um predador voraz, não há fronteiras marcadas para a sua fome. Uma mentira pode construir edifícios imensos, levantar cidades; uma mentira pode colocar em movimento milhares de pessoas, pode dar propósito a multidões incalculáveis, cada pontinho a ser uma cabeça com história; uma só mentira pode manter em cativeiro gerações inteiras de pessoas que ainda não nasceram, netos que os avós não são capazes de imaginar, ignorantes da mentira original que os domina.”


João Paulo Sacadura terminou a sessão com uma intervenção que emocionou toda a plateia, ao ler dois textos marcantes. O primeiro de José Saramago, dedicado e sobre Pilar del Río; e o segundo, um poema de A Criança em Ruínas, de José Luís Peixoto.


Na sua oitava etapa, a Viagem Literária termina a sua travessia pelo Alentejo, com uma etapa em Beja. Mário de Carvalho e Sérgio Godinho são os convidados para a sessão que irá decorrer no dia 28 de novembro, no Teatro Pax Julia, a partir das 17:00.


21 de outubro de 2015