Edição n.º 27, setembro de 2017

As derradeiras semanas foram marcadas pela inusitada polémica em torno de uns blocos de atividades lúdicas, para crianças, editados pela Porto Editora há mais de um ano. Já muito se escreveu e disse, tendo sido provado que as acusações foram injustificadas e, acima de tudo, precipitadas. Agora que a poeira assentou, importa ressalvar alguns aspetos para encerrar, definitivamente, o assunto.

É relevante sublinhar que a Porto Editora tem registos, que remontam a finais da década de 70 do século passado, de ações internas de formação dos seus quadros e de iniciativas de sensibilização dos seus autores no que concerne às questões da cidadania e promoção da igualdade de género. Como importa dizer que, com aquele objetivo, trabalhou por diversas vezes em colaboração com a Comissão para a Igualdade e Direitos das Mulheres, antecessora da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género — CIG.

Este é, por isso, um tema ao qual a editora é bastante sensível e, portanto, nunca se permitiria publicar um livro que veiculasse uma visão sexista e/ou discriminatória, seja em manuais escolares (que possuem um maior grau de exigência e escrutínio), seja em meros blocos de atividades para os tempos livres, como é o caso.

A Porto Editora afirmou continuamente que não existiu, em momento algum, uma intenção discriminatória da parte da editora e da equipa envolvida na edição destes títulos — coincidentemente toda do sexo feminino —, os quais não foram sequer elaborados com vista a serem alvo de uma comparação entre eles. No entanto, à boleia do fulgor instalado nas redes sociais, a CIG recomendou a retirada do mercado dos dois blocos e foram muitas as vozes que se mostraram indignadas e estupefactas com a situação.

Luiz Gamito, Presidente do Colégio de Psiquiatras da Ordem dos Médicos, em entrevista à Rádio Renascença (23/08/2017), desvalorizou a polémica afirmando que se trata de “uma política comercial de um produto num mercado que [as editoras] estudaram”, não encontrando outra razão “que não puramente estética e de marketing”.



“Não discriminam negativamente nenhum género”

Em declarações à TVI (23/08/2017), o pediatra Mário Cordeiro lembrou que “os exercícios para férias têm que ser atrativos e apelativos para as crianças, por isso é normal que haja diferenças visuais nos blocos para meninos e para meninas.” Alertou, ainda, para a importância de analisar os blocos integralmente, contrariamente ao que tinha sido feito até então e, em entrevista ao Expresso (25/08/2017), enunciou diversos casos em que considera que a desigualdade entre os géneros configura uma situação mais preocupante.

O pediatra sugeriu, ainda, que os pais “trocassem os manuais e colocassem todas as crianças a fazer todos os exercícios”, até porque, tal como referiu Ana Garcia Martins, mãe e autora do blog A Pipoca Mais Doce, “não havia nenhuma obrigação ou proibição implícita a cada um dos livros, cada um compra o que quer, para quem quiser”.

Alexandra Duarte, no jornal i (28/08/2017) relembrou que, na sua visão, se tratam de “livros com exercícios mais vocacionados para os interesses dos rapazes ou das raparigas, mas em nada diminuem os seus utilizadores ou sequer passam uma mensagem sub-reptícia de inferioridade ou, no extremo, de superioridade”.

João Miguel Tavares disse, no jornal Público (29/08/2017), que “qualquer pessoa consideraria inaceitável a existência de livros diferenciados para rapazes e raparigas nos currículos escolares. É o caso? Não. Estamos a falar de cadernos de atividades pré-escolares lançados num mercado livre. Só compra quem quer. A questão que se coloca, pois, é se uma editora privada deve ou não ter liberdade para fazer os livros que entender (…). Parece-me bastante óbvio que essa liberdade deve existir”.



página seguinte

 

 
Back to Top