“A escola ainda não nos prepara para sabermos como comunicar o nosso valor”

Edição n.º 21, outubro de 2016

Sara Batalha, Diretora Executiva da MTW Portugal, e Ricardo Peixe, coach de alta performance, são os oradores convidados pela Porto Editora para demonstrar como é possível transformar a sala de aula através da comunicação.

Durante o primeiro período letivo, Sara Batalha e Ricardo Peixe vão conversar com os professores sobre comunicação e demonstrar como é possível reinventar a comunicação em sala de aula, inspirando e motivando os alunos, sempre com as ferramentas certas para captar a curiosidade e o interesse das diferentes crianças e adolescentes.

Os dois especialistas falaram com o Magazine de Educação sobre estas ações que estão a desenvolver a convite da Porto Editora.

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ME: Que importância atribui a esta ação de comunicação para professores?

SB: Quando professores e alunos aprendem a comunicar, as coisas mudam na sala de aula. Por isso, e depois de ter vindo a trabalhar ao lado de professores nos últimos 6 anos, achei que seria essencial partilhar com os professores o “como”. Tenho observado em 24 anos de experiência profissional na área da comunicação que todos falam, mas poucos comunicam, e perguntei-me: quem é que ensina os professores a comunicar? Na verdade, e se pensarmos bem, a escola ainda não nos prepara para sabermos como comunicar o nosso valor. E que bom seria que o autoconhecimento e desenvolvimento pessoal pudesse ter o seu papel – que é ajudar o professor a reinventar as suas metodologias na sala de aula! O professor é uma referência na vida do seu aluno que se irá transformar em adulto. E esta sessão tem como objetivo inspirar os professores para continuarem a ter coragem de recomeçar, todos os dias. A forma como comunicam com os alunos pode ser mais eficaz quando ajustarem o seu estilo comunicacional às preferências de comunicação do aluno. Para isso é preciso identificar primeiro quais são essas preferências, assim como os receios e motivações, de professores e de alunos. É urgente que os professores se predisponham a reinventar a sua forma de comunicação, para que possam estar no seu melhor.

RP: Para mim é muito importante poder partilhar experiências com um grupo de profissionais como os professores. Acredito que no mundo atual, onde as crianças são bombardeadas com tantos estímulos, a capacidade de comunicação e criatividade de um professor vai fazer a diferença na forma como interage, se relaciona e educa a sua turma.

ME: É necessário reinventar a comunicação em sala de aula?

RP: Acho que sempre foi necessária essa reinvenção, só que antes essa necessidade estava mascarada pelo recurso a um conjunto de métodos disciplinadores que hoje não são bem vistos nem permitidos. Se o propósito é que as crianças se desenvolvam enquanto seres humanos, que aprendam a explorar os seus pontos fortes e que melhorem as suas competências e conhecimentos, então a comunicação é definitivamente uma das chaves para que esse desenvolvimento aconteça.

SB: Exatamente. As metodologias aplicadas há 10 ou 5 anos em sala de aula precisam de ser constantemente atualizadas. Até porque os alunos são diferentes e têm níveis de atenção e motivações distintas. Encontramos uma nova geração com comportamentos e necessidades diferentes, até na forma como se comunica com eles e se prende a sua atenção e motivação para a aprendizagem. Ainda assim, existe algo em comum; sempre foi possível através da comunicação transformar a sala de aula. Os professores sabem disto, mas provavelmente precisam de novas metodologias que os ajudem a ser o que melhor sabem ser – professores. Tanto acredito nisto que tenho investigado este tema nos últimos anos. Decidimos avançar para um caso de estudo que a MTW Portugal implementou numa escola pública e noutra privada, permitindo concluir que a autoestima dos professores e alunos sobe consideravelmente quando a comunicação é mais eficaz. Durante 9 meses, 32 alunos e professores tiveram a oportunidade de treinar e desenvolver as suas competências de comunicação interpessoal – as ditas soft skills. No final, os professores perceberam que uma nova perspetiva de olhar a sala de aula permitiu inovar, repensar metodologias, estratégias e recursos e, assim, descobrir como adaptar a sua forma de comunicar em sala de aula, para alcançar mais alunos e potenciar o seu sucesso escolar.

ME: A Porto Editora tem apoiado os professores desde a sua fundação e já lá vão 72 anos. Consideram importante este apoio que as editoras têm dado aos docentes na sua atividade profissional?

SB: As editoras têm cada vez mais um papel fundamental na apoio aos professores através do fornecimento de novas metodologias e abordagens de ensino, como os recursos digitais, por exemplo. As exigências da profissão e a realidade atual no ensino em Portugal estão na origem de algumas situações recorrentes, falo, por exemplo, do burnout. Toda a ajuda é pouca, porque como dizem os professores, e não só: o difícil é sentá-los! Estas palestras e ações são relevantes para que se abordem os desafios e possíveis estratégias para lidar e gerir os mesmos e, sobretudo, para que sobre tempo aos professores para que se foquem na sua missão, que é ensinar. Isso sim, é relevante.

RP: Aliás, basta olhar para a formação académica de um professor para perceber que o Estado se preocupou muito pouco em o formar pedagogicamente. E essa pouca preocupação com a pedagogia reflete-se nos currículos das disciplinas e na escassez de material que é fornecido ao professor. Estou certo de que se as editoras não desenvolvessem o excelente trabalho de acompanhamento, relacionamento e procura de soluções com o professor, quase todos teriam uma vida ainda mais difícil e com fracos resultados.

 
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